Se você saiu da zona de conforto machista, não se sinta punido pelas Feministas, agradeça por não ser mais o sal da Terra

Na era feudal existiam punições dos mais variados jeitos e formas. Uma delas é famosa por ser a abertura de um livro bastante consagrado que é o “Vigiar e Punir” do Michel Foucault, na qual espancam, queimam, humilham, amarram as cordas nas extremidades do corpo do sujeito (condenado por ter feito blasfêmias), mandam cavalos correrem para simplesmente cortar o sujeito pela força em vários pedaços. Os cavalos não deram conta de arrancar os braços e pernas do sujeito que estava bastante agoniado.
Entretanto juntaram mais dois cavalos (num total de seis) para arrancar as extremidades do sujeito fora. Por fim, quando o sujeito estava apenas com o tronco e a cabeça, jogaram seus restos em uma fogueira sem nenhum tipo de checagem se ainda estava vivo.

Horrível. Hoje vemos isso como uma barbárie imensa, e nos parece distante porque em um período muito distante a “Igreja” fora responsável por esse tipo de terrorismo social. Entretanto durante a modernidade também vimos episódios de africanos sendo arrancadas de seus próprios reinos, muitas vezes reis e rainhas, sendo chicoteados até suas costas ficarem quase que completamente abertas.
Eventualmente eram queimados nos rostos, sofriam todo tipo de tortura. Na época era visto como uma maneira de “educar” os escravos, de lhes dar “bons modos”.

Hoje isso também lhe parece barbárie?

Esses bons modos são uma assombração para nossa sociedade, visto que se encara a punição sempre como uma forma de educar, de dar uma lição moral. Tal moral vem de uma sociedade em quais os valores são assim:

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Essa imagem pode parecer normal aos olhos da direita, mas ela não é. Em algum tempo histórico ela será considerara barbárie, assim como já é considerada pelos grupos de que defendem as minorias políticas e étnicas, torna-se simplesmente assustador lidar com esse tipo de notícia como se fosse uma mera reação. Reação, como diz o significado da palavra é uma ação após outra ação, se alguém deveria reagir nesse caso é o sujeito que está preso no poste, pois, ele é o oprimido da sociedade, ele sofre os preconceitos e exclusão. Fascismo é você além de oprimir e excluir, usar de todo tipo de força em cima de uma moralidade (em nome da família, justiça, etc.), em cima do oprimido. Humilhar publicamente faz parte dessa ideologia opressora tradicionalista, ou conservadora. Não basta o oprimido ser excluído, ele deve sentir na pele que não é bem vindo entre os donos da sociedade das piores maneiras possíveis.

O que quero trazer neste post é uma reflexão sobre nossa concepção de punição. Achamos correto punir, e quase sempre isso vem sem uma reflexão verdadeira:
Uma criança é duas vezes menor que um adulto pelo menos, indefesa, e a última pessoa que ele espera ser agredido é quem ele mais confia. Mas os conservadores ainda acham ‘justo’ bater em um ser humano indefeso e ‘5x’ mais fraco que você, pois assim está “educando”.

Segue a mesma lógica com as mulheres: as mulheres devem saber os ambientes que frequentam, pois se não souberem seu lugar na sociedade e que para serem respeitadas devem andar na presença masculina (como as sinhás, e hoje o reciclado estereótipo da ‘moça-de-família), caso diferente devem ser violentadas, agredidas, devem ser ‘punidas’ por seu desrespeito diante do patriarcado. A mulher não é digna de respeito na sociedade que a vigia, ela deve ‘merece-lo’.

A punição feminina não se detém apenas na parte de agressão física e moral, Simone de Beauvoir comenta que a punição feminina está presente também no casamento. A mulher desde criança sentem prazeres através de seu corpo que lhe serão privados durante o casamento.
Socialmente, o casamento representa a ascensão feminina  na sociedade, onde ela ‘conquista’ ou termina de enterrar seu respeito diante a sociedade. Gerou-se a situação que a mulher deve conquistar seu respeito e não tê-lo como merecido, como ser humano enquanto cidadã na sociedade. Mas sua cidadania perpassa por trás do homem, da figura protetora.
Outra maneira de punir encontra-se na situação em Slavoj Zizek comenta no seu livro “Alguém disse Totalitarismo?” que a mulher é salva dos demais estupradores para ter seu estuprador ‘rei’.
Basicamente, ela ganha o respeito com o casamento para que não seja estuprada ou considerada ‘um objeto a ser adquirido’, pois já foi adquirido na visão patriarcal, e assim permite que seu marido, namorado, que seja, seja seu estuprador oficial, afinal voltando aos escritos de Beauvoir o casamento é um contrato mais profundo para a mulher: não é apenas a união por interesses iguais, mas uma espécie de autorização patriarcal para que o homem faça sexo sem consentimento da mesma, muitas vezes sem um pingo de vontade, e não seja preso ou considerado um estuprador.

O tipo de violência varia, embora o corpo feminino tenha mais zonas erógenas que o masculino, o clitóris tenha uma variedade enorme de terminações nervosas que geram prazeres diversificados, mesmo quando a mulher inicia a relação, ela por muitas vezes termina sem ter sua satisfação concebida.
O que estamos falando não é genético, é uma ordem social na qual a mulher permanece como apenas a receptora passiva, por isso é classificada como ‘fria ou quente’. Disto, não há surpresas do porquê o crime de fazer sexo com cadáveres só vem dos homens, quer algo mais submisso que um morto?

Saindo um pouco da filosofia, entrando no marxismo histórico (querendo ou não, nem se saiu tanto assim da filosofia afinal), sabe-se que as mulheres são colocadas como inferiores não somente para reafirmar um mito sobre a inferioridade feminina, mas principalmente, para reafirmar o capitalismo enquanto um sistema ‘justo’, afinal, ‘é justo com os que merecem’. Sendo um sistema excludente que mantêm uma linha de dominação masculina e étnica, os excluídos considerados minorias são incluídos em pequenos privilégios que não lhe dão liberdade plena, para haver uma falsa ideia de que estão sendo ‘livres’, porém, aquela liberdade onde dita o local bem determinado de cada negro, mulher, índio, etc.
Sendo assim, detestam dizer que Chomsky estava certo, porém a dominação pela cultura também reafirma esses valores, e a dominação cultural é primordial para dar um ar de ‘natureza’ na coisa. Ou seja, naturalizar a violência e a exclusão, como se fosse uma questão impossível de ser mudada e natural do ser humano.

“É natural uma mulher ser estuprada, é tão natural que a gente faz até piada”. E porque que não se faz piada com a mãe sendo estuprada? Porque a mãe é a ‘salvada pelo estuprador’, ela também tem um estuprador que a salvou dos outros.

Quando um homem entra em desconstrução, como qualquer outro ser humano, ele sai da zona de conforto. Ele anteriormente não via problema nenhum em si mesmo, agora luta para não ser a escória que percebeu que era. O problema é que o mundo inteiro privilegia o pênis, aplaude os caras quando fazem piadinhas com o mesmo, entretanto as feministas não irão jogar confetes em você cada vez que você não for o sal da Terra. Na realidade elas estarão focadas em atrair mais mulheres ao movimento e na sua expansão, e não necessariamente em conquistar a cabeça dos homens (…), onde acontece o grande engano que muitos homens sofrem dentro do feminismo: esperam após se sentirem uma escória ser amparados, e não serão. A causa do feminismo continuará sendo as mulheres porque, como foi comentado  acima no post, as mulheres sofrem uma espécie de ritual de ódio a sua condição, e todos os dias sofrem os mais variados tipos de violência vindo desde desconhecido que as deixam completamente constrangidas na rua e fazem seu prazer se esvair de qualquer atividade, até seus próprios parentes, namorado, camaradas que violam qualquer tipo de respeito por se sentirem ‘autorizados’ a serem machistas pelo simples fato de existir algum tipo de intimidade.

Esse ritual de ódio às mulheres chama-se misoginia. A resposta das mulheres que cansou de sentir esse ódio e passam a odiar os machistas chama-se reação do oprimido. Não, não se chama misândria, porque em um universo patriarcal não faz nenhum sentido existir ódio contra homens como se fosse possível inverter essa questão.

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Também não se justifica o machismo dizendo que as mulheres querem invertem isso, não se justifica uma realidade com uma realidade hipotética, você na verdade está sendo patético se faz isso, pois de todas as maneiras mais escrotas, pegou a forma de justificar uma ação com uma coisa da sua imaginação fértil.

Entretanto o que talvez seja a grande dificuldade dos homens que estão desconfortáveis demais em descontruir é justamente perceber que eles têm espaços enormes dentro do patriarcado para torna-los feministas. E não tornar a causa do feminismo seu desconforto (…).

De qualquer maneira, como citado no começo do post existe uma grande diferença entre a reação das mulheres e a punição: a razão de eu ter usado tanto esse exemplo no começo do post para ele ganhar um rumo diferente é que as pessoas consigam visualizar o que é punição e o que é reação. A punição é de cima para baixo, ela nunca vem do oprimido, ela vem do opressor. Não vemos uma criança punindo um adulto com chineladas e ataques covardes, vemos um adulto punindo a criança. O uso da força de maneira desproporcional e exagerada faz parte da punição, inclusive a falta de noção disso tudo acompanhado de justificativas de ‘isso será saudável para seu desenvolvimento’.
A reação é apenas um mecanismo de defesa e uma forma de sair da zona de conforto de oprimido, porque por incrível que pareça os oprimidos que aceitam todo tipo de violência e não reagem também estão na zona de conforto, naquela que diz ‘eu não pude nada fazer, apenas presenciar ou sofrer’. Não estou de modo algum culpalizando eles por isso, os motivos para tal ação são das mais diferentes instâncias, mas a partir do momento que você se informa e sabe que presenciar e não tomar partido é apoiar o opressor, a reação passa a ser uma questão de práxis (unir a prática à ideologia).

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Bora dar um oi pros machistas camaradas?

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