“Tudo que é sólido se desmancha no ar” e porque Marx continua contra-cultura

Esta frase tão famosa de Marx remete a modernidade. A modernidade historicamente fora o primeiro auge do capitalismo, e seu apogeu. Ideologicamente Marx fez-se pensar em todas as questões: apesar da filosofia moderna ser coberta de Marx, ele não é considerado, ou tão lembrado pela literatura moderna, por vezes, parece até esquecido. E o paradoxo disso é que Marx age feito um espectro, afinal a luta de classes ainda está viva, de fato essas classes oscilam e hoje contêm diferenças o suficiente para não sabermos por vezes, ou não termos noção de classe.

 

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O neoliberalismo trouxe os pequenos privilégios como forma de confusão pura, assim como o neoliberalismo sacou que diferente de tempo liberais, onde via-se os trabalhadores como pessoas que não podiam ter prazer algum para produzir, hoje a concepção é que quanto mais prazer você tem, mais você produz, mais é possível se alienar. Um exemplo disso é esse excesso: o excesso de coisas engraçadinhas, o excesso da bebida, o excesso do sexo, o excesso da religião, o vício como disse Zizek se tornou uma conduta ao bom capitalista.

Além do fato do bom capitalista precisar inclusive do vício da tragédia: é necessária a paranoia pura sobre coisas absurdas para podermos ter uma razão de ser, de fazer, de agir, de pensar, buscar inimigos externos, competir a todo custo, competir inclusive até por hipocondria.

Sendo a modernidade como disse o Dostoievski, o caos geral em função da organização da burguesia, a modernidade carrega também coisas das quais Nietzsche gostava de afirmar: o quão veneramos coisas que irão apodrecer no final, ao que cerca a essência nada sobrevive, somente ela.

Sendo assim, a imagem mítica das coisas e das pessoas nada é se não algo que veremos aos poucos desmanchar pelo ar, esses ‘mitos’ da modernidade e pós-modernidade não sobrevivem se não o que verdadeiramente estava vivo apenas nas coisas e nas pessoas. É o que tanto diziam os filósofos da antiguidade quanto a essa questão de ‘o único mundo verdadeiro é o das ideias’.

Alguém já imaginou a Madonna defecando, ou o Elvis apodrecendo? Não, porque se tornaram mitos, deixaram de ser reais, de ser humanos. No capitalismo ‘ser humano’ é ser quase que contra o sistema automaticamente: seu carro, sua roupa, seu jeito tem mais a dizer sobre você do que você mesmo. Não há tempo para conhecermos, ou criarmos noção de classe social, apenas julgamos necessário catalogar, rotular, separar, competir, dilacerar o conhecer, escorrer as relações pelas mãos. Portanto o que chamamos de ‘virtual’ não é necessariamente o que está na internet, mas esses exemplos que citei acima, o problema é que tudo isso se desmancha no ar. Por isso Bauman (considerado um marxista pós-moderno) nos desafia a provar que as nossas relações com a nossa própria família ‘tem algo concreto’.
E como desmancha, você precisa consumir o tempo todo para manter algum tipo de ‘essência virtual’ sua, e em geral faz isso por ter aprendido que é desta maneira que se concretiza sua “essência”, os bens materiais sobrevivem as relações humanas no capitalismo, para seus pequenos privilegiados.

Para quê serve mesmo eu ir até o banheiro, comer de garfo e faca, organizar minhas roupas? Para ser suportável convivermos, aprendemos que certas condutas nos tornam melhores companhias. Nem tudo é uma questão de etiqueta, é muito difícil lidar com gente folgada, por exemplo. “Facilitando” nossa vida, essas condutas da modernidade nos ensinaram que existe uma moral presa nos costumes. Entretanto, essa moral pesa a seus desfavorecidos, e gera muitos “folgados” em cima do trabalho suado.

Hoje as coisas ganharam outra instância: a arte moderna não era para todos, embora a arte toque a todos, não é todo mundo que vai a um museu ver pinturas, por exemplo, mas hoje todo mundo ouve música, qualquer tipo de música, com ou sem consentimento, a música diferente da pintura, é uma diversão, um entretenimento. Mas também é uma indústria, isso porque burocraticamente a música não é feita somente pelo músico, existe uma gravadora, um produtor, uma produção de arte, um publicitário, e todas essas etapas que dão essa ‘feição de indústria’, movimenta-se muito mais que um mero ‘gravar e vender’. Neste caso não estou afirmando que a música deveria ser restrita, mas estou afirmando que a música só se tornou uma indústria e deu acesso a todos nos moldes capitalistas porque ela exerce um tipo de prazer que rende lucros milionários aos donos das indústrias. Dificilmente o artista escolhe ser capitalista, é lhes dada essa condição para sobreviver.

Entretanto, temos a música contracultura, também com feição de indústria, a diferença é que o foco não é o superfaturamento, e é disto que Marx está dizendo, o capitalismo não é necessário para que a música continue sendo acessível, mas pelo contrário, o capitalismo tornou o campo da música um campo de competição que beirou ao ridículo, a ponto de ouvirmos uma música porque ‘vendeu mais’ e não pelo gosto em si.

O quanto mais a humanidade cresce em números, mais a burocracia também cresce. O problema nem é a burocracia, o problema é ela privilegiar.

Dizer que não existe luta de classes por causa dos privilégios gerados é negar uma questão histórica: aqui não estou dizendo que os trabalhadores são unidos e lutam contra o capital, mas que a burguesia necessita de um trabalho diário e constante para alienar os trabalhadores.
Eles precisam desse trabalho para sobreviverem em primeira instância, no segundo momento essa dependência da burguesia gera pequenos favores, um sistema de dependência bastante antigo entre ‘senhor e servo’, assim, a burguesia fortalece seu discurso em coisas que ludibriam: seja nas artes ou nas ruas, a sensação é que não somos nada sem a burguesia, quando na verdade é o contrário.

É como discutem sobre a cultura, não é modificando ‘a cultura’ que se muda um povo, mas um povo mudado que modifica a cultura.

Por que afinal então aprendemos a história do ‘um homem que fez a diferença’ até hoje? Porque isto nos dá a impressão que nunca houve movimento da massa e sim genialidade ‘única e notável’, a ideia que a humanidade nunca buscou um objetivo com seus esforços e sim que alguém, que merece todas as glórias sozinho, conquistou algo para todos.
Quantas pessoas sabem que o cinematógrafo não foi inventado pelos irmãos Lumière? Eu não sabia até fazer um TCC sobre cinema, e descobrir que muita gente já estava trabalhando a muito tempo na invenção de algo que captasse imagem e movimento, porém, eles fizeram um menor e portátil. Foram postos ‘como inventores’ de algo que muita gente já estava produzindo.
E quantas e quantas vezes isso é repetido sobre as grandes mentes da humanidade, como se fossem casos a parte, não humanos, novamente a ideia de ‘mitos’. Isso só fortalece a ideia do mito da competição como “gerador de Inteligência humana”, na verdade quando você está na universidade por exemplo, aprende que necessita do trabalho de outros cientistas o tempo todo para poder produzir algo seu, ou seja, é o sentido de comunidade que fortalece o pensamento científico, e não a competição. Pois se fosse competição por competição, a ciência estaria preocupada apenas em denegrir a própria ciência.
Não estou afirmando que não é saudável questionar, pelo contrário, a ciência está aí para isto, entretanto pensar que apenas estamos competindo é o maior fruto da auto-ajuda e da pseudociência.

Um mito sustentador é o do mercado capitalista, em o Manifesto Comunista Marx deixa sua preocupação evidente sobre como o capitalismo necessita se expandir para sobreviver, e esta expansão dilacera os mercados locais, cada vez mais cosmopolita e internacional, ele se concentra em poucos, e a liberdade do mercado na verdade não se trata de liberdade de consumo e sim, de liberdade de monopólio. Este mercado não abrange os desejos humanos, apesar de fazer-se confundir muito o consumo com o desejo, é justamente nesta instância que entra em contradição, em colapso.

Sendo assim, as fábricas monopolizam o mercado das cidades, e no campo isto também acontece, mas, em uma nova instância: vemos o fenômeno das empresas agrícolas nas terras em grande quantidade centralizadas e os demais camponeses se tornam proletariados campesinos.

Não estamos falando da sociedade que era feita de classes bem definidas, o próprio Marx reconhece isso no Manifesto Comunista. Assim como o próprio Marx reconhece que o Estado é um órgão repressor, se não utilizado para sua própria destruição, entretanto como simplesmente eliminar o Estado sem a maneira de tirar as diferenças sociais criadas por ele mesmo?
Devemos lembrar através do Manifesto que o Estado é uma criação burguesa, humana, e não um órgão que surgiu e ganhou suas próprias forças, mas que é alimentado por uma classe, e alimenta outra. Sendo assim, o Estado não é uma espécie de lúcifer e os trabalhadores Deus, mas as deficiências criadas pelo Estado determinam a não intervenção social aos trabalhadores e seu sufocamento enquanto classe.

E sem confusão, Hitler era ‘nacional socialista’ porque acreditava na predominância do povo europeu, em especial dos alemães, enquanto esse socialismo proposto mesmo que brevemente por Marx, busca a libertação dos trabalhadores enquanto classe a nível mundial – é por isso que combate o capitalismo verdadeiramente, enquanto o nacional socialismo de Hitler alimenta. O socialismo internacional combate a união pelos interesses de uma pequena burguesia, que mantêm-se cosmopolita através de seu imperialismo – o nacional socialismo não combate o capital, combate a cultura e os próprios seres humanos.
Marx não avançou na cultura, mas seus legados sobre a economia são de ouro. Sendo assim, apesar do menosprezo e da renovação do discurso capitalista ser na base de massacrar tudo que ideologicamente o combate, Marx continua sendo “A” leitura para as questões políticas para entendimento do próprio capital.

Como disse um crítico de marxistas, mas também muito bom e interessante para se ler, Bakunin, a burguesia pode nos zombar, e os ‘pelegos’ (trabalhadores que se sentem burgueses) se sentirem melhores por acharem que existem diferenças entre eles e os demais trabalhadores engajados, pelo fetiche de “estar por cima” por uma questão puramente alienante, mas, nós trabalhadores, nós das classes subalternas, devemos ter consciência que esse sistema como disse Marx, ele foi criado para romper todo tipo de barreira humana, e por fim nos enquadrar.

 

O grande desafio do século XXI é curar nossa ganância, arrogância, necessidade de superioridade, assim como curar-se do conformismo, da sensação de derrotismo e das consequências em ações sobre esses sentimentos.

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