Da mulher burguesa à proletariada – o machismo atinge a todas de maneiras diferentes

Na época do Brasil colônia as burguesas só saiam de casa de uma maneira: mortas. Por incrível que pareça a visão atual, as burguesas também sofrem com a opressão do machismo.
Essa opressão liga-se ao fato de que por serem mulheres ricas, ‘bem de vida’, viviam debaixo do teto patriarcal com (tanto quanto) opressão social quanto se imagina. Essas mulheres mais ricas quase sempre nem sequer saiam para ir  a missa, pois o padre ia até elas (…), tal protecionismo ligava-se ao fato de quanto mais invisível social, melhor.

Entretanto a questão da etiqueta também fora importante para tal padrão. Quando analisamos um preconceito social não podemos apenas falar dele isoladamente, afinal, esse mesmo se constrói em uma sociedade e esta sociedade está permeada de diversos costumes.

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Um destes costumes era que para a elite em termos de Brasil colônia quanto mais branco tu fosse, mais bonito era.

A beleza também é um padrão, e na modernidade (o que não é de se surpreender) também os negros eram excluídos dos padrões de beleza. Como durante parte da modernidade trabalhar era coisa de escravo no Brasil, não admira-se que o padrão de beleza permeava ser extremamente branco. Ser branco porque como tu não trabalhava, não pegava ‘cor’.

E quando os historiadores dizem que preconceitos e problemas sociais se reciclam, essa questão da beleza também se reciclou. Imagino que quem esteja lendo esteja se perguntando “mas hoje as burguesas são ligadas a uma rotina bastante fora de casa: academia, salão de beleza, praia, etc”. Afinal, dos brancos da classe mérdia à elite, os que são branquelos são os que trabalham, pois hoje estamos debaixo de um teto das 6h da manhã até as 6h da tarde, por isso os burgueses vão a praia.
Isso claro que não inclui os trabalhadores rurais: estão longe de ser classe mérdia ou elite.

Exatamente, porém, isso não quer dizer necessariamente liberdade social e sim apenas liberdade de consumo. As burguesas vivem para agradar os padrões de beleza atuais, e não somente isto, se o padrão de beleza não ultrapassasse seus limites com as mulheres até seria fácil de lidar. Como para as burguesas se tornou uma obrigação terem o corpo, cabelo, comportamento, etc., perfeitos, isso se alastrou até as relações sociais.

Nunca vi uma capa de revista na quais homens aparecem seminus com seus nomes e feitos sem ser uma revista propriamente de conteúdo erótico. Enquanto no caso das mulheres isso se faz em qualquer tipo de revista, naturalizando que elas são o que fisicamente demonstram: não importa para o machismo que a mulher tenha conquistas sociais, intelectuais, etc., o importante é o corpo. A mulher deve agradar aos olhos, diferente disso não passa de uma fracassada, não importa se essa “fracassada” ganhou o prêmio Nobel da literatura.

Entretanto as pessoas ligam essas mulheres burguesas a idiotas que gostam de sofrer: eu tenho uma opinião diferente. Não acho que a mulher nasce se resumindo a desejo de consumo, ela aprende a ser assim.

Não liga-se ao fato dela ‘nascer em berço de ouro’, mas sim dela ter um universo todo lhe ditando ser a burguesa padrão. Para mim, isso entrelaça-se mais a falta de informação do que de fato a consciência.

Tanto é, que quando essas mulheres tem um pouco de consciência elas abraçam a causa da mulher (não necessariamente a feminista). Isto é um sinal que elas sentem a opressão, só que são quase sempre muito afastadas de teorias sobre essa opressão, visto que se chegarem a tal clareza de pensamento podem vir a inverter a questão.

A liberdade do homem burguês é ampla, enquanto a da mulher burguesa sempre foi agradar aos olhos do homem e ter artifícios que a ajudem a isso. Não agrega-se a liberdade de si.

Gostaria de deixar claro que em momento algum acho a burguesa ‘mais ou menos’ oprimida do que a operária. Eu citei o exemplo do Brasil colônia, onde muitas vezes a liberdade sexual da mulher mais pobre era imensamente maior apesar da opressão financeira: ela podia ir as ruas, sair, mesmo que fosse a trabalho, ela conhecia o lugar que morava, certamente não viveria e morreria debaixo do teto do lar (embora lhe ditassem isso).

Na época da colônia não existiam operárias, hoje existem, e é uma mulher que sofre com um trabalho duplo, uma jornada longa e cansativa e que muitas vezes culpa as feministas por isso(!). Afinal na lógica de alguns “sem as feministas as mulheres não precisariam trabalhar”. A alienação está em todas as classes sociais.

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Claro que estas mulheres não visualizam que sua opressão vem de uma permanência machista que as feministas ainda não conseguiram quebrar, mas isso é por que continua a existir capitalismo e patriarcado, e não por “falha das feministas”.

Não cabe a eu dizer quem está mais oprimida, ambas tem graus de opressão diferenciados. O que quero abordar é que a mulher independente de onde está continua na posição de oprimida, e quando esta mulher toma consciência disso nem sempre surte os melhores efeitos.

Por exemplo, vemos que algumas mulheres que se dizem feministas como a Sarah Winter estão longe de o ser, mas ela percebe essa opressão, só que claramente não sabe lidar com isso. O problema é quando se vê uma mulher oprimida mal informada como uma perfeita idiota “que merece a opressão”. Embora estejamos certos de conseguir visualizar quem faz parte da causa e quem só ‘diz ser’, não apoio o machismo para nenhuma mulher, não deixa de ser uma mentalidade capitalista querer ditar quem merece sofrer na sociedade e quem não, como se isso justificasse a opressão e o preconceito sofrido.

Este caso é como os dos negros escravos que não se rebelavam mesmo com todas as chances pra tal: isto não ligasse ao fato de que ‘gostavam de ser escravos’, e sim que nem sabia-se que era escravo. Esta falta de informação foi uma ferramenta poderosa para tal alienação. Por isso elogio sites e páginas do facebook que utilizam material contracultura preconceituosa de maneira didática praticamente: são eles que fazem essas pessoas que não tem tanto acesso a informação questionarem.

Este questionar é essencial, pois sem ele não é possível buscar a verdade. Parece aquele papo de filósofo clichê, mas é um clichê verdadeiro.

A questão é que: é possível julgar tanto as mulheres ou as feministas de maneira generalizada quando se tem um quadro tão complexo? O problema é que quase sempre necessita-se de um cuidado para não ditar novamente o local da mulher, sufocar sua tão desejada individualidade.

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