Batman – O Cavaleiro das Trevas, Watchman e a Guerra Fria – Uma outra abordagem em HQ

Deixo claro que este post é baseado no artigo publicado do mestrando Carlos André Krakhecke, apenas fazendo as referências merecidas.

Começando oficialmente o post, quando escolhi meu tema de TCC, pensei sobre cultura popular e História. Tive uma professora durante as aulas de História do Brasil e Metodologia da História que sempre citava o fato de que o historiador “deve ver história em tudo”. Pensei que podia ver mesmo História na cultura pop de fazer as associações.

A princípio comecei pelos filmes de terror (o que se tornou meu objeto de estudo depois, o famoso “Zé do Caixão”), a associação a mentalidade latino-cristã que eles exibem é bem explícita, e se tornou a âncora (pelo menos a primeira) para meu trabalho.

Uma das inspirações que tive fora também ler trabalhos que faziam coisas do tipo, e este trabalho do André Krakhecke em especial foi bem motivador.

Iniciando o assunto finalmente, o assunto inicia-se quando os quadrinhos de “Batman – O Cavaleiro das Trevas” de Frank Miller, e “Watchmen” de Alan Moore, abordam o tema Guerra Fria.

Para quem não está acerca do assunto, durante a Guerra Fria e sua bipolarização do mundo em dominação por parte da URSS e dos EUA, as pessoas realmente temiam um inverno nuclear.

O inverno nuclear era a possibilidade que as duas potências em armamento viessem a utiliza-lo e dizimar a humanidade da face da Terra. Vale lembrar que apesar dos EUA estar munido com cerca de mais de 3 mil bombas nucleares, a bomba mais destrutiva pertencia a URSS, a Tsar Bomba, de 50 megatons.

Ou seja, a capacidade de destruição por parte das duas potências era o suficiente para criar um aspecto de paranoia geral na humanidade, principalmente no especialista em paranoias que é o EUA. Por toda parte era visível a paranoia americana: por produções cinematográficas (WarGames, The Day After), musicais (The Trooper do Iron Maiden), onde o aspecto de pânico quanto as tropas soviéticas e uma possível invasão russa também são tema.

A indústria de quadrinhos da década de 80 era permeada pelo modelo de bom americano, dois grandes sucessos da época eram o Capitão América (pagador de suas contas, soldado, tinha perfil confiante e de liderança) e o Homem de Ferro (playboy, cientista renomado e principalmente, neoliberal). Entretanto os destaques da época vieram por parte de Batman e de Watchmen.

Na HQ Batman CT é clara a associação a Guerra Fria, as pessoas realmente sofrem com a invasão russa, os EUA sofre em partes um colapso com esta invasão e enquanto Batman tenta acabar com a corrupção local, o Superman a mando do governo americano permanece fora dos EUA combatendo os soviéticos.

Apesar de ‘soviético’ não ser um termo utilizado, eles sempre utilizam ‘comunistas’, não por acaso. Torna-se claro que os inimigos dos EUA são o comunismo em si, não somente como economia, mas, principalmente como ideologia.

Entretanto o quadrinho de Batman CT mostra-se também uma crítica ao modelo americano de ser: o Superman não passa de um alienado (justamente por ser o modelo padrão exemplar de americano), e é criticado por Batman quando Gothan City se torna um caos completo por causa de eventos da Guerra Fria. Pode ser considerado até ousado por parte do autor criticar um personagem que represente tão fortemente o próprio EUA.

Mas, o Superman não é único criticado, os próprios americanos aparecem com opiniões simplórias, cheias de preconceitos quando sugerem que “Batman está batendo nos caras certos, espero que ele também bata nas bichas”, típico preconceito social baseado em “gays tem que apanhar pelo simples fato de serem gays”, além do presidente americano e seu sistema burocrático.

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(Batman CT, imagem retirada do trabalho de André K.)

Batman perdido nesse mundo onde o presidente apenas desvia do seu problemas, e os demais políticos fazem o mesmo, vê-se em um verdadeiro caos. Além do fato do próprio Batman estar mais sombrio e violento, obcecado pela morte dos pais, o que tira aquela velha abordagem de ‘bom moço americano’.

O inverno nuclear toma conta da cidade, e Batman se esconde com sua gangue de mutantes (gerados durante o colapso da cidade) em uma nova caverna, onde organizam-se. Assim encerra o quadrinho no qual é abordado inverno nuclear, inclusive as ‘sensações’ supostas que isso daria.

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(Batman CT, imagem retirada do trabalho de André K.)

Entretanto em Watchman de Alan Moore o inverno nuclear não acontece, mas várias reações populares típicas são demonstradas. Este quadrinho além de ter sido premiado literariamente, também é considerado a melhor HQ.

Alan Moore já era conhecido por abordar questões políticas de maneira nada juvenil (como em V de Vingança), na realidade sendo um estilo de HQ para adultos. No quadrinho Dr. Manhatan detêm poderes quase divinos, e graças a suas intervenções na realidade fazem os EUA ter vantagens na Guerra, tanto que na versão do quadrinho a Guerra do Vietnã é vencida pelos EUA.

Entretanto Dr. Manhatan vai perdendo sua humanidade aos poucos, até não ter absolutamente nada de humano, e quando a conspiração contra heróis os fazem serem dizimados da humanidade, o Dr. é acusado de causar câncer as pessoas a sua volta.

Com isso, ele é isolado em Marte, o causa a desvantagem dos EUA na guerra e a invasão da URSS ao Afeganistão (lembrando que apesar de estarem em situações fictícias, são dados estratégicos verídicos).

Entretanto apesar dos planos do governo americano em atacar a URSS (vemos uma inversão da situação neste quadrinho, finalmente o governo americano se mostra mais hostil e menos vítima), um ataque alienígena acaba por causar um verdadeiro caos entre as duas potências, que necessitam de colaboração mútua para vencer os alienígenas.

wtc 2

O enredo do quadrinho é bastante complexo, entretanto nos dois casos mostra-se clara a alusão da guerra fria no cotidiano das pessoas.

Minha crítica sobre os quadrinhos venerados atuais permeia justamente uma declaração do próprio Alan Moore:

Eu não leio nenhuma HQ de super-heróis desde que terminei Watchmen.Odeio super-heróis. Os considero abominações. Eles não significam o que costumavam significar. Eles estavam originalmente nas mãos de escritores que ativamente expandiam a imaginação da sua audiência de 9 a 13 anos. Era totalmente aquilo para o qual eles foram feitos e faziam isso de forma excelente. Nos dias de hoje, as HQs de super-herói pensam que a audiência é certamente maior que de 9 a 13 anos, não tem nada a ver com eles. É uma audiência amplamente nos seus 30, 40, 50 anos, geralmente homens. Alguém veio com o termo Graphic Novel. Esses leitores se agarraram a isso; eles estava simplesmente interessados numa forma de validar seu constante amor por Lanterna Verde ou Homem-Aranha sem parecer de certa forma anormais. Isso é um salto significativo da audiência viciado em super-heróis, viciada em mainstream. Eu acho que super-heróis não trazem nada de bom. Acho que é um sinal bem alarmante termos audiências de adultos indo ver o filme dos Vingadores e se deleitando em conceitos e personagens feitos para entreter garotos de 12 anos dos anos 50.”

Isto mostra-se efetivo tanto no cinema que permeia as HQ quanto nas próprias, fez-se de uma maneira que a galera da minha idade (pra cima), ou seja, dos 24 anos para uns 30 e poucos está se divertindo com entretenimento de pessoas que com 12 anos devia ser divertido (no máximo). Quem sou eu para criticar a liberdade artística, mas, é tudo a mesma coisa: americano, homem, super poderoso e que é bonzinho.

Se é lado negro da força, ainda sim permeia o universo do neoliberalismo. Parece que a criatividade se resumiu a ser americano e neoliberal, e isso é absorvido muito fortemente pelos leitores (que crescem querendo ser americanos).

Aí unimos duas questões fortes: a tara da galera alienada pelos EUA, e dos próprios americanos (que como diria Slavoj) adoram um colapso da realidade para se sentirem mais reais e menos alienados pelo universo da publicidade americana, mas irei aprofundar isso posteriormente.

Onde entra a leitura de Zizek nisto? Só para constar, agora minhas referências quanto ao artigo do André K. se encerram, e eu passo a por oficialmente minhas leituras sobre Zizek.

Zizek pontua no início do livro sobre as paixões pelo real: mostra que a revolução cubana custou a estagnação em comparação ao mercado capitalista (mercado constantemente reciclado, transformado, etc.), também demonstra que as pessoas quando colocam suas questões em embate quanto ao real as coisas tornam-se mais assustadoras do que na utopia. Por isso faz tanto sentido que essas HQ estejam repletas de sangue, carnificina, e isso seja somente o suficiente: aí se aplica a crítica de Alan Moore, porque oficialmente as pessoas curtem a pancadaria sem conteúdo, sentem um gostinho de ‘real’ nisto, por mais que seja virtual, o que no fundo anseiam, como os cristãos esperavam pelo apocalipse na idade média, as pessoas atualmente esperam pelo grande evento que irá destruir a humanidade.

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As pessoas que se tatuam fazem isso para incluir uma ideia virtual dentro do seus corpos, diferente delas, as que se cortam novamente trazem as ideias do real: a afirmação da própria realidade. Assim as pessoas se cortam numa tentativa de sentirem a realidade de volta, pois mostra-se como tentativa de sentir o corpo inexistente novamente.

Hoje no mercado vemos vários produtos que não tem suas propriedades malignas: café sem cafeína, leite de creme sem gordura, cerveja sem álcool, sexo virtual (o sexo sem sexo), a administração dentro dos setores políticos (política sem política), ou mesmo o multiculturalismo de hoje, a experiência do outro sem a presença dele, dando a entender que existe uma tolerância quanto a esse outro que é desconhecido (embora de contra ponto temos a misógina escancarando esta questão, mostrando suas superficialidade).

A realidade apresenta-se como algo longe do real, esvaziada deste conteúdo.

As imagens do WTC, por exemplo, sendo derrubado pelos aviões foram reproduzidas repetitivamente no mundo inteiro, sendo assim pessoas das partes mais distintas do mundo inteiro tiveram acesso ao fato, como se fosse uma mega produção cinematográfica, mas representada em sua realidade. Embora parte desta realidade esteja afetada, a ausência dos terroristas acusados ao fato.

Entretanto a paixão mundial pelo fato mostrou-se ligada a essa paixão pelo real. Curiosamente também o número de vítimas do WTC tão repetido (3.000) mostra-se como algo oculto: diferente dos fatos que permeiam o terceiro mundo, onde mostram-se as imagens de suas atrocidades, pouquíssimos corpos destruídos foram mostrados, na verdade, nem sequer são vistos nos destroços.

Entretanto esse evento liga-se ao filme Matrix, no momento que Neo visualiza Chicago destruída pela última guerra, e os destroços são o que lhe restam (parece familiar com os exemplos citados com o inverno nuclear?). Assim, a queda do WTC também traz os moradores de Nova Iorque ao ‘deserto do real’, assim como o Titanic o fez no século XIX com a civilização da época, feliz e orgulhosa de seus feitos industriais, o viu naufragar como símbolo que a tecnologia mais desenvolvida não podia os privar dos erros humanos.

A relação do fato de WTC se relacionar com Hollywood se concretiza quando o Pentágono convoca autores e diretores de Holywood para colaborarem a ‘pensar’ sobre o fato e o reproduzi-lo: como forma de combate ao terrorismo. Hollywood devia enviar a ‘mensagem ideológica correta’ não somente aos americanos, mas, ao restante do mundo.

Hollywood opera de fato um aparelho ideológico do Estado. Estas imagens relacionadas a WTC não podem serem vistas como algo real que adentrou no ideológico, mas como o ideológico que adentrou no real. As imagens ruins quanto ao terceiro mundo não pareciam fazer parte do nosso cotidiano, enquanto, diferente disso o caso do WTC recebeu uma atenção completamente diferente. O real do terceiro mundo não nos parece real para nossa realidade, enquanto os fatos do WTC saíram das imagens para nosso cotidiano.

Zizek pontua que os pobres do mundo inteiro vem a sonhar em serem americanos, porém, o que sonham os americanos já envolvidos em seu bem estar? Sonham com uma grande catástrofe que envolverá o destino de suas vidas, assim trazendo a psicanálise como maneira para explicar esse fenômeno. A realidade apresenta-se difícil de lidar apesar de estar imersos nela, porém, nossas limitações criativas não nos libertam facilmente dessa imersão.

Entretanto vivemos em um universo imerso do virtual também, a ‘verdade sob como as pessoas são’ pode vir a confundir-se com esses valores formados superficialmente – como por exemplo, os racistas justificam seu racismo na base de uma suposta ‘admissão de todos serem assim’.

Embora esse seja um desvio facilmente visível, quando confundem-se valores formados com uma suposta realidade da natureza das coisas, nem todos os casos se mostram tão débeis. Afinal, obtemos uma capacidade humana de desfazer a verdade a apontando como falsa.

Por vezes, as pessoas querem sentir esse choque do real com o colapso dos corpos, com a catástrofe.

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2 pensamentos sobre “Batman – O Cavaleiro das Trevas, Watchman e a Guerra Fria – Uma outra abordagem em HQ

  1. Mari, alguns filósofos questionam se o que vivemos é real, e que estamos presos à uma noção falsa de realidade e só enxergamos aquilo que nos importa. Isso é bastante confuso e fica sempre aquela dúvida da nossa própria noção de realidade, se a nossa vida é real ou fundamentada em mentirinhas. Eu culpo um pouco as animações que vemos quando criança (como os das princesas Disney) e depois as dezenas de distrações que surgem durante toda a vida, que tiram de focos os reais problemas. Como você acha que essa situação pode se reverter? Um revolução total na educação? Dá pra saber o que é real, ou é tudo ficção? Acho que algumas perguntas não têm resposta, queria saber como a humanidade pode reverter ou amenizar essa situação de total alienação. Um dilúvio, talvez, xD? É brinks.

    • P.S.: Adorei o visual novo do blog!! Quando eu voltar pra casa dos meus pais te mostro mais um monte de imagens do Design Gráfico soviético, muito interessante,acho que você vai curtir! =*

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