O cinema de terror e a mentalidade latina-cristã machista

Estou fazendo meu TCC baseado em cinema, e como estou explorando o tema, vou aproveitar e tecer um pouco sobre essa questão.

Em primeira instância devemos parar de olhar o cinema como uma forma bobinha de fazer arte, ou ingênua; o cinema carrega tanto discurso político e intenção ideológica quanto qualquer outro modo de arte.

Quando somos crianças e temos contato pela primeira vez com um cinema, ou mesmo com uma produção cinematográfica, ficamos deslumbrados a tal tamanho que saímos imitando cenas do filme, percebemos o quão mágico é o efeito do cinema. Já presenciei vezes em que as pessoas batiam palmas após o término do filme, situação bastante hilária, mas demonstra esse efeito hipnótico de você realmente passar para dentro da tela. Também convenhamos que a imagem em nossa sociedade atual já é por si só hipnótica, numa sala escura e em movimento então, se torna praticamente uma lavagem cerebral (tá, exagerei, mas quase é isso mesmo).

Quando nos tornamos adultos, o cinema demonstra sua capacidade verdadeira;

Vemos uma cena horrorosa, sabemos que é irreal, mas primeiro a captamos como algo real (afinal, é imagem e movimento! Nosso cérebro não diferencia isso do real em primeira instância), após nos tranquilizarmos em lembrar que é irreal, vem outra! Não temos tempo para descansar em um filme de suspense\terror, ele nos mantem tensos, estressados.

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Por isso que funciona tão bem em uma sociedade tão estressante.

A questão é que não saímos do cinema imitando atitudes (pelo menos não na maioria das vezes), saímos hoje adultos do cinema imitando ideias.

Grande portador de formação ideológico, não é atoa ou por acaso que sempre foi uma luta pros cineastas independentes conseguirem uma aparição entre a pirotecnia burguesa.

Mas agora que estão todos apresentados ao tema, quero comentar em especial das mulheres. As mulheres nos filmes de terror.

Bom, nosso imaginário de terror está muito atrelado ao imaginário latino-cristão, isso é um tanto inegável, aquela questão da luta entre diabo e Deus, demônios, espíritos das trevas, etc., e eles tem um público preferencial: as mulheres.

No livro sexualidade feminina na colônia de Mary Del Priore, ela comenta sobre a suscetibilidade das mulheres quanto ao demônio; são suas vítimas porque são mais próximas deles, enquanto os homens são mais próximos de Deus.

Claro que os filmes de terror também adaptam ao olhar atual; ninguém vai ter medo da cena de um demônio beijando o ânus de uma mulher e vice-versa, se pa em tempos atuais isso pode até gerar algum fetiche bizarro, sendo que isso na era moderna era uma espécie de ‘receita’ para vender a alma ao cão.

Cronicas de sombras: El espejo

Entretanto também ainda existem velhas receitas antigas para tais atos, ou melhor, medievais, a virgem que se rende em função de um mal maior (hahahaha), afinal tem que ser mulher e tem que ser virgem. Isso não é mera coincidência; até o demônio tá interessado em controlar a sexualidade feminina.

Não pode ter feito sexo, se não o capiroto não aceita a oferenda.

E essa suscetibilidade é justamente ligada ao mito de origem, a mulher sendo a causadora do pecado original, o mal e caos total, por isso ela e o demônio são tão próximos.

Também está atrelado a um apavoramento proposital da época pois dominando as mulheres (que eram as grande educadoras iniciais quanto a moral dos filhos) educavam-se famílias; a mulher sendo cristã a família toda viria a ser, a dominação sobre o sexo feminino é uma questão de dominação global.

E os filmes de terror reproduzem isso de maneira repetitiva; a virgem do sacrifício, as pretendentes do Drácula, a menina que fica possuída em meio à puberdade, a mulher que chama o demônio, a mulher que se entrega a feitiçaria, a feiticeira, a perversa, a vítima.

Não é atoa que na maioria dos filmes, mesmo com a presença masculina a mulher da turma é a primeira vítima, a que recebe o primeiro contato.

E isso não é somente por uma questão de machismo, mas, principalmente por uma questão de tradição latino-cristã, de ser fiel aos preceitos da tal da aparição demoníaca. Mesmo que isso seja adaptado a tempos atuais, como demonstra em um famoso jogo da  indústria dos games, o Silent Hill, onde o inferno é uma espécie de cidade moderna, e os traumas dos personagens ganham formas horrorosas, essas formas estão completamente ligadas ao estado mental do personagem principal, e isso torna tudo muito interessante.

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Ou o Resident Evil, onde a criação de um vírus que torna as pessoas imortais (zumbis), podemos dizer que são uma exceção a regra; embora em Silent Hill existe a virgem do sacrifício, a grávida do demônio, em R.E. o máximo que vemos são personagens sensuais em pleno apocalipse zumbi.

Vale lembrar também o evento que Zizek comenta sobre os zumbis serem proletariados, eles não são muito luxuosos como os vampiros, não são muito virtuosos, não se vestem bem, até por vezes estão uniformizados! Este é um evento a parte para ser observado.

Desafio vocês a acharem mais filmes em que a presença demoníaca seja numa figura masculina do que em figuras femininas, e se nessa figura masculina, que ele não tenha uma obsessão por mulheres, por uma companheira, por escravizar alguma mulher alheia, como sendo o próprio demônio e não o possuído.

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7 pensamentos sobre “O cinema de terror e a mentalidade latina-cristã machista

  1. Oi Mari, estou aqui de volta, buscando contato, e nada melhor do que lendo um texto. Creio que esse em específico está muito mais para um “start” do que um fim em si. Achei, particularmente a temática muito boa e com sentido, mas não consegui alinhas as ideias de forma mais firme. Sabe, aquela sensação de que algo ficou faltando. Talvez, por isso mesmo, o texto (para mim) tenha surgido como uma proposta de estudo, muito dele sobre minha própria subjetividade.

    Motivos para uma possível incapacidade? Não sou historiador, e principalmente mulher. Talvez seja um bom exercício.

    Mas é claro que os exemplos são diversos no que diz respeito ao que você levanta. Creio que, talvez uma relação bem clara entre “demônio” e “mulher” se encontra no clássico “A Morte do Demônio” (Evil’s Dead). Acho que esse filme simboliza de forma clara e direta tudo o que você tentou dizer. Se não viu, veja.

    Outro ponto está, talvez, na pobreza em se caracterizar elementos de personagens. O que quero dizer quanto a isso? Quando se pensa nos atributos dos personagens, a associação direta entre mulher e sensualidade – ou entrando na lógica cristã ocidental, a sensualidade e o pecado. Em filmes como Sexta-Feira 13, o sexo e as drogas sempre são punidos com mortes (Bem violentas).

    Outro ponto muito comum que não tem a ver com a mulher, mas sim com a lógica cristã, é a relação da descrença e o mal. É muito comum encontrarmos personagens descrentes (ateus, ex-cristãos, etc.) representados de forma extremamente caricata, e sempre com um destino básico – a morte, ou a punição para essa descrença.

    Pensando por ai, acho que tenho visto muito filme ruim de terror.

  2. Threz, suas críticas são bem vindas de fato, porém, devo atentar que não levantei um artigo, muito menos um tcc em si. Estou apenas fazendo um post, levantando algumas questões, não estou aprofundando absolutamente nada de propósito.
    Afinal, não irei postar meu tcc né ahuahuahua não seria nada inteligente.
    A intenção era de ser demonstrativo e rápido, até porque em muitos termos já fui bem específica no próprio blog: tenho infinitos posts sobre as mulheres e a relação machista da mentalidade latino-cristã, eu ia cair em pura repetência, desgaste.
    Não é minha intenção matar uma charada dessa em um mero post, mas, apenas apresentar o tema e levantar questões, na verdade estou apresentando para quem não lê sobre cinema, para quem não lê sobre os filmes de terror.
    Longe da minha intenção de fazer um livro, apenas sistematizei, e criei a dúvida. Sou marxista, mas não estou fazendo a linha Marx ahuahau certamente minha questão não é responder a tudo, até porque seria no mínimo 30 páginas de escritos extensos e devidamente citados para tal, e sinceramente, atualmente não vale o crime. Vou apenas desfragmentando lentamente.
    afinal isso é um mero blog, não uma revista, uma publicação científica, e a chance de eu ser plagiada caso caia nesse engano é altíssima visto que não registro essas publicações em local algum além da ‘web’…
    suas críticas foram muito pesadas para o conteúdo ministrado: não estou fazendo um artigo científico, estou apenas postando.

  3. p.s.: você pode achar ruim, mas em termos de bilheteria os filmes de terror são os que batem recordes, sendo trash ou não, isso deve ser visto como um evento social da cultura pop. Quando se trata de humanas não é uma mera questão de gostar ou desgostar, se fosse assim seria muito pobre, muito pobre mesmo estudar humanas.

  4. Então Mari, foi exatamente isso que falei. Inclusive, apontei possíveis falhas minhas na interpretação, adicionando a sua que se mostrou muito mais relevante (a não leitura dos outros textos), culpando a mim a falta de elo com o texto, e não o texto em sim.

    Talvez tenha tido uma interpretação errada da critica que eu fiz, ou eu ter me expressado mal por estar escrevendo as pressas no meio do expediente. Fico triste pela interpretação dada, como classificar as críticas como pesadas (sendo que boa parte das críticas foram voltadas a minha incapacidade de compreensão, não ao texto), pois o objetivo meu foi relatar o envolvimento que tive ao ler o texto.

    Mas isso é algo comum, pois no discurso escrito há uma falta de elementos da linguagem que atrapalham a interpretação do que é “dito”, muitas vezes dando um caráter que não existe na intenção do autor.

    Enfim, fica um beijo e boa sorte em seu TCC. Espero que alcance a relevância que acredito que o tema tem, pois isso talvez seja a parte mais difícil (e no meu ponto de vista, a chave para o sucesso desse tipo de publicação).

    Fui

    • Eu devo ter interpretado completamente diferente então ahuahuahuaha irei reler, aliás obrigada pelo ‘boa sorte’, porque de fato irei precisar e muito. Não tá sendo fácil se aprofundar no que é completamente novo.

  5. ah…p.s.: sim os ateus são sinônimo de maldição de subestimar, de enfrentar forças que vão além ahuahua porém, também, muitas vezes são os próprios ateus que são os diretores! Vale observar isso, e inclusive que um dos primeiros a se aventurar ao terror em terra tropical, o Zé Mojica (Zé do caixão) é ateu também.

  6. No filme Tenaciuos D o Diabo fica louco de amores por um cara (Kyle Gass) e quer levar ele pro inferno pra ser seu escravo sexual, e não uma menina kkk! Adoro seus textos Miossi, muito inteligentes, sou fã ;* Beijossss

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