O Equívoco de ligar Nietzsche ao neoliberalismo e nazismo

Os pensamentos de Nietzsche foram associados ao pensamento neoliberal e nazista de maneira equivocada. O liberalismo foi pensado durante a revolução francesa, quando um das vertentes (os Liberales), porém, como sistema de ideias surge na Inglaterra, o liberalismo originalmente defende a liberdade religiosa, a não intervenção arbitrária do Estado, o constitucionalismo e os direitos políticos.

Vale lembrar que dentro do iluminismo muita coisa foi distorcida, modificada, e gera discussões até hoje: como, por exemplo, o modelo educacional iluminista ainda não parece má ideia, está longe de ser a escola industrial nos moldes atuais. O que venho a propor aqui é uma discussão fria sobre o assunto, sem nos deixar levar pelas discussões e recalques gerados em torno do assunto anteriores, ou até mesmo nossas paixões políticas e ideológicas.

Embora Nietzsche defenda a liberdade individual; não é comparável a ideia de individualismo do liberalismo. O próprio Nietzsche critica o liberalismo, o acusando de ter se corrompido pelo nacionalismo, também o acusa de se basear numa cultura filistista, na qual favorece apenas o “indivíduo particular” e não a liberdade individual, ou o verdadeiro indivíduo.

É no mínimo contraditório acreditar que o capitalismo ou neoliberalismo defende algum tipo de individualidade; esse é o discurso alienante da liberdade defendida pelo sistema, porém, no cotidiano vemos que tudo é feito para assassinar essa individualidade, e que em todo instante estão nos ditando o que ser, a fazermos tudo que todos fazem, e produzir para a massa, induzir essa massa a desejar o produzido, à alienação, e isso é observado por Nietzsche em suas obras.

Pelo contrário, para termos o verdadeiro indivíduo devíamos passar longe de um sistema que lhe dita uma fé e uma política para acreditar ou se submeter, a ideia do indivíduo verdadeiro é que cada um se constrói para uma emancipação particular, para uma construção de si mesmo (o que lembra um pouco a leitura de Sócrates sobre o ser humano e o “conhecer a si mesmo”).

Enquanto no liberalismo temos uma liberdade ligada a amarras religiosas e hierárquicas, o que por si gera uma alienação muito forte.

Nietzsche também afirma que a política é um meio ‘para sua própria destruição ou fim’, ou seja, a política do Estado deve ser focada na sua própria desaparição.  Curiosamente, Nietzsche cutucava mais no campo da cultura do que de fato da política, a maneira que ele combate o pensamento religioso é bastante intensa, e apesar de associarem o ‘super-homem’ ao nazista, o nazista está longe de ser a idealização de Nietzsche por vários motivos, posso enumerar alguns; 1. os nazistas eram cristãos (alienados ideológicos segundo Nietzsche), 2. a ideia de superioridade do Nietzsche estava para a superação da moral que nos corrompe e não para a perca de escrúpulos que os nazistas cometeram em função de sua superioridade, etc…

 

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É bem notável que Nietzsche tem uma linguagem bem peculiar e bastante agressiva, essa é parte de ser literário; todos querem ser reconhecidos pelas nossas falas e maneira de nos expressarmos, depois que você lê Nietzsche, reconhece seu jeito de se expressar de longe, e ele era bem preocupado com o corpo da linguagem, talvez mais do que em ser plenamente compreendido. Diferente do caso de Marx e o “Manifesto Comunista”, por exemplo, ou de Simone de Beauvoir e o sua coleção de “O Segundo Sexo”, onde a preocupação é a clareza das ideias, e ainda sim gerou muitas coisas bem distorcidas em função de obras explicitamente claras em duas ideias, vemos que o perigo da interpretação pessoal e não lúcida sobre o assunto pode gerar. Não podemos condenar as obras de Nietzsche por distorções à parte, ele ainda é um dos melhores legados aos ateus ou pessoas que pelo menos questionam as ordens religiosas, pois Nietzsche ataca a religião desde instituição até como filosofia.

O que Nietzsche ataca de fato não é bondoso cristão, mas o que há de ruim em função dessa bondade; quando aplicamos uma moral fraca apenas não fazemos as coisas em função de uma punição, na ideia de Nietzsche deveríamos fazer as coisas por respeito à liberdade individual de cada um.

Ou seja, não adianta o cara ir à missa toda semana e garantir sua bondade cristã, e na primeira vez que vê uma mulher com uma roupa mais cavada, sua moralidade é atingida e ele se sente no direito de estuprá-la por que sua moralidade cristã permite todo tipo de atrocidade a quem a fere, a moralidade cristã não ensina o respeito à mulher e sim o respeito a sua mulher, aquela que você trata como propriedade; a mãe, a filha, a esposa, a amada, etc.

Ele comenta desses campos perigosos da fé e o quanto não vale a pena termos caridade, e não consciente coletivo, fé em compensação divina, e não buscar essa compensação em vida.

O que torna suas obras mais agressivas as mulheres está extremamente ligado a um fator de sua vida pessoal: ele ressalta o ‘espírito das mulheres que são libertadas da moral’, e ao mesmo tempo, posteriormente em suas obras avisa que se ‘for falar com uma mulher, primeiro leve um chicote’. Isso está altamente ligado a sua biografia e a uma desilusão amorosa de Nietzsche, como feminista não acho que isso dá algum direito, mas, é considerável lembrar que ele teve problemas psicológicos fortes após tais acontecimentos, relacionados à sua vida pessoal, embora o pensamento filosófico tenha melhorado cada vez mais, Nietzsche propõe uma revolução dos costumes, assim como o feminismo também propõe isso.

Não podemos nos apegar totalmente a ideia de somente revolução política, ou essa nova política será tão preconceituosa quanto a anterior, eu sou marxista e acredito que sim, devemos tomar o poder, mas ao mesmo tempo penso, se essa cultura machista continuar, não vai ser um socialismo, ou comunismo, ou até mesmo anarquismo, vai ser a política do ‘pequeno burguês’.

Temos que atentar a essas revoluções culturais, pois elas fazem à revolução ser completa de fato; mudar os costumes, mentalidades, se desprender de uma moral concebida ou estabelecida é importantíssimo.

E isso é o que Nietzsche propõe em suas leituras, uma libertação pela cultura. Também é bom lembrar que a irmã de Nietzsche era nazista, e ele menosprezava esse fator com ‘todas suas forças’ dito de suas próprias palavras, pois considerava o ódio antissemita um retrocesso em mentalidade.

Portanto o que Nietzsche propõe por fim não é somente o extermínio de uma cultura, mas, sua desvinculação de uma política.

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Um pensamento sobre “O Equívoco de ligar Nietzsche ao neoliberalismo e nazismo

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