“Na miséria humana do capital, o machismo é triunfo social”

As reivindicações femininas começam a fervilhar mais durante a época da primeira revolução industrial, quando as mulheres são inseridas na indústria, e apesar do trabalho ser igual em termos de rendimento e de produção, as mulheres ganham significantemente menos que os demais operários.
Também apesar dos esforços das mulheres operárias, os homens operários tentam parar esse movimento, pois, se sentem ameaçados com o potencial feminino mal remunerado, a má remuneração garante a dependência feminina. Portanto não se trata de uma questão de potencial e sim de indicar claramente a classe social destinada as mulheres.

Assim as relações capitalistas se estabelecem como uma maneira de manter o machismo; para o capitalismo é interessante manter o modelo de família patriarcal para proteção da propriedade privada, com a mulher dentro da casa sendo vista como ‘dona do lar’.

E o antifeminismo invade muitos campos, para provarem a inferioridade da mulher apelam à teologia, filosofia e biologia ultrapassadas, religião, psicologia experimental, etc., assim estabelecem sua forma de ‘igualdade na desigualdade’, como ocorreu com os afrodescendentes no Brasil e nos EUA, quando democracia é sinônimo de estabelecer um congelamento da ordem social (você não pode se rebelar, nem tem como trocar a ordem dos fatores, porém, deve obedece-la como se fosse sinônimo de igualdade).

 

Simone de Beauvoir aponta que quer seja uma etnia, uma condição social, o sexo, a cultura, suas formas de descriminação desembocam em repetidos argumentos, defendendo a não transição democrática desses grupos em função de não mudar a ordem, como forma de liberdade, aumentando a discriminação. A liberdade é manter a elite na elite, e o sinônimo de ‘democracia falida’ é a perca dos privilégios, invertem o sentido da palavra por completo.

 

simone-de-beauvoir-253x300

 

Ou seja, o “eterno feminino” é como a “alma negra” e o “caráter judeu”.

A diferença do caráter judeu é que para os antissemitas os judeus não tinham espaço no mundo por isso à ideia de aniquila-los, no caso das mulheres e dos afrodescendentes a intenção é colocados ‘nos seus lugares’, dar uma ordem a eles.

E nisto os argumentos da ‘mulher de verdade’ e o ‘negro bom’ parecem antinaturais, é como se transcendessem da sua própria essência e surpreendessem o mundo com seu caráter diferente do esperado. Também é necessário ver que a condição social tem muito a dizer em como a sociedade vê o grupo, visto de um caráter Hegeliano, ser é ter para a sociedade do capital, e os afrodescendentes e as mulheres estão abaixo do nível considerado ‘sucesso’ na sociedade, ou seja, são encarados como incapazes, a tal ponto que o ‘ter’ é privando-lhes.

A ideia é que quando uma mulher consegue algo na sociedade, é como se estivesse roubando algo: rouba o direito do homem quando exige pensão, rouba a vaga do homem médico quando está estudando medicina, rouba o direito de escolha do homem quando exige a legalização do aborto, etc., a sociedade do sucesso e da escolha não nos pertence.

Também parte ainda dos status sociais, é visível que até o mais pobre dos homens brancos são vistos como semideuses diante das mulheres; se orgulham do fato de serem homens, brancos, heterossexual, pois em termos de sociedade é o que lhes resta, o orgulho ao preconceito que os mantêm assegurados de seus pequenos privilégios.

Ninguém é mais perigoso a uma mulher do que um homem que duvida da sua própria virilidade e contém complexo de inferioridade.

 

machista

 

Os que não se intimidam com os demais se mostram mais abertos a compreender e reconhecer a mulher como semelhante. É notório que isto está interligada na suposta bondade masculina quanto às mulheres; mostra o quanto uma mulher é inferior aos demais quando ela necessita de ajuda, e o sentido de comunidade apenas serve para os seres masculinos.
Visto que a mulher como qualquer ser humano e social precisa compartilhar para viver, isso é usado como pretexto para inferioridade, o homem pede ajuda por questão de companheirismo, a mulher pela ‘fragilidade’, na visão machista social, não existe ajuda para a mulher sem o discurso carregado de necessidade do homem para sobreviver, enquanto para o homem, a ajuda não passa de mera ajuda.

Para o homem, isto é insignificante, porém para a mulher, isto é determinante a tal ponto de acabar sendo convencida que isso é a ‘ordem natural’ das coisas, ela ‘precisa’ do homem para viver.

Por isso Simone de Beauvoir comenta tanto sobre não nos deixar impressionar pelos elogios da ‘mulher de verdade’; isso é uma forma de nos desviar da nossa luta para uma questão meramente de vaidade. Essa mesma vaidade está transbordando na arrogância masculina social, a ponto da questão feminina se tornar absurdo o suficiente para ser visto meramente como algo polêmico.

Em termos de felicidade, Simone afirma que não é interessante discutir o que deixaria uma mulher mais feliz sem impor uma condição restrita: em quais níveis uma mulher operária é mais feliz que uma dona de casa? A questão não é a felicidade entre uma função e outra pois embora nos ocupamos em enfiar a felicidade em preceitos pré-formados, não é na prática dessa maneira que a mesma se faz. Entramos mais em questão de liberdade, o importante é a liberdade de escolha feminina e de condição, da mulher ser vista como humana, a liberdade é realmente a grande questão.

E essa liberdade jamais será atingida quando o ponto de vista do outro for imposto, este outro, muitas vezes utiliza o termo ‘fêmea’, algo natural como forma pejorativa, como insulto, enquanto o ‘macho’ é sinônimo de coragem, valentia, a fêmea é a covardia, a traição de uma moral.

Desde o vocabulário até a piada, o todo em geral carrega (muito) discurso político, a ponto de naturalizarem uma violência sofrida por mulheres na maioria: o estupro.

 

cartaz-piada-machista

 

O estupro é visto como piada, como algo para se tirar sarro quando é colocado em uma piada, tem uma diferença com bastante discrepância do seu sentido original, e quanto mais se cria diversão em cima de algo violento e sério, mais natural parece o estupro, um ato nada natural, que é fruto de uma violência social. E essa brincadeira vende bem.

Enfim, um pequeno post sobre algumas reflexões acerca da mulher e seu ‘existencialismo’ todo sufocado pelo estereótipo de beleza e moral ditados pretensiosamente pelo masculino.

Anúncios

2 pensamentos sobre ““Na miséria humana do capital, o machismo é triunfo social”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s