Uma ideia não é concreta, mas suas atitudes são: machismo e violência social

Existe um conjunto de ideais que não são concretas: elas podem flutuar entre nossos pensamentos e desembocar em nossas atitudes.
São as mesmas ideias que o Jung em seu “o homem e seus símbolos” tanto debate falando; existe uma cruz pra concretizar a ideia do cristianismo, mas a ideologia cristã não é a cruz, é o conjunto de pensamentos cristãos e atitudes.

A ideologia faz parte da cultura não-material, não dá para pega-la, não existe um objeto ‘x’ que é a ideologia em seu todo, por isso como o exemplo da cruz, no máximo agregamos um símbolo a ela, mas a ideologia é o que o Marx chamou de espectro, ou em outras palavras, um espírito social, é algo que sentimos com muita intensidade, vivemos, mas não vemos como um objeto concreto.

Vivemos, aliás, grandes ditaduras ideológicas, e elas atingem diretamente nossa vida material: ditam-nos como nos comportar, nos vestir, produzir, viver, pensar.

E uma das mais preocupantes no Brasil é o machismo. O machismo como um ‘espectro’, está tão dentro das nossas atitudes, cultura não material e material, tudo que produzimos, e muitas vezes o que propagamos e pensamos, e esse post é para reflexão um pouco do que a ideologia machista faz na sociedade.

Começando que não tem um símbolo machista, e isso já é por si só subversivo: um machista ou uma machista, não irá andar com um símbolo “avisando” a sociedade sobre seu pensamento retrógrado, não existe um ‘peixe’, uma ‘cruz’, ‘uma foice’ que anuncie que essa pessoa pensa que a mulher é inferior ao homem em sua natureza e pensamento.

Sabemos que uma pessoa é machista pelas suas atitudes, e não, não é na base do ‘eu não sou machista’ que você deixa de ser, e sim na base de se reeducar e repensar o tempo todo suas atitudes e pensamentos.
Fácil? Não, sem dúvida não, pois somos educados a propagar misógina (ódio as mulheres) o tempo todo.
O tempo todo ofendemos rebaixando as mulheres, se é mulher, ela é “biscate, vagabunda, prostituta”,  tudo que é sinônimo de liberdade sexual feminina, como se isso fosse ofensivo. E usar esses palavrões é extremamente machista, pois tu só realça a ideia que a mulher que é dona da sua sexualidade é uma degenerada, rebaixada.

Tudo que é sinônimo de sexualidade masculina é bom: machão, pegador, comedor, é a apreciação do pênis e da ideia que ele é ungido e faz milagres na vida das pessoas que ele toca, e não um mero órgão genital.

Não é um mero órgão genital, ele é sinônimo de masculinidade ‘pega no meu pênis’, ou ‘pega no meu troféu social’, o que me torna melhor que você.

Se você acha que o machismo é apenas uma “desvantagem” da mulher sob o homem, tu realmente não tens noção da dimensão da coisa que é o ‘ser mulher’ que a Simone de Beauvoir falou e tanto se propagou.

Vamos dar uma volta pelo maravilhoso patriarcado.

sarcasm

Quando você anda na rua, e veste uma roupa que você gosta, só que se sente o tempo todo desconfortável com os olhares analisando sua postura, te julgando, te chamando de coisas comestíveis, te passando o grande desconforto de não ser observada, mas de ser moralmente julgada e ligada ao fato de estar apenas mostrando suas pernas.

Se você é mulher divorciada, luta por uma pensão digna, e quando recebe é taxada de aproveitadora, de vagabunda, de explorado, sendo que em momento nenhum o homem que fez o filho com você é questionado por não participar em nada na vida do filho, e trata o filho praticamente como ponto turístico, e ainda sim, as pessoas acham que INJUSTO você receber o suficiente para se sustentar e sustentar seu filho.
Pois justo mesmo seria você ser sobrecarregada a fazer 3 funções diferentes: trabalhar, cuidar sozinha e inteiramente dos filhos, trabalhar na casa e sustentar tudo isso sozinha.

Justo mesmo é você receber uma esmola enquanto o cara não faz absolutamente nada.

A ideia da sociedade é que o homem que gasta com coisas superficiais é independente e faz o que quer, a mulher que faz a mesma coisa é vagabunda, não sabe o que faz, afinal, a vida dela é a vida para os outros.

As pessoas propagam que uma mãe deve viver APENAS para os filhos como os católicos medievais diziam que a mulher nasceu da costela do homem para viver para o homem e não para si. E muitas vezes os que dizem isso, se dizem ateus.

Uma das outras bizarrices do ‘parque do patriarcado’ é que a mulher pode se sobrecarregar com milhões de atividades: ela realmente deve ter direito ao trabalho! Porém, o homem jamais deve ter responsabilidades caseiras, a ideia é que ele não aumente a liberdade feminina, mas dê uma falsa ideia de liberdade, você trabalha, só que agora vai pagar por isso: trabalhará o dobro.
Enquanto o filho homem continua sendo o que trabalha fora, a filha mulher continua sendo a única que faz atividades domésticas e agora, também trabalha fora.

É preciso educar para mudar, se continuar assim só geraremos mulheres cada vez mais estressadas, e parece papo de Igreja, mas, nos moldes sociais atuais, quanto mais estressada a mulher, pior é para a família. Isso Freud já sabia, e cansou de falar. Não tem ‘salvação da família na base do sufocamento individual da mulher, taí o grande paradoxo religioso.

A vida da mulher não pode girar em torno de gerar outra vida ou cuidar de outras vidas: para isso o patriarcado precisa deixar de ser tão cruel com as mulheres e começar a dar responsabilidades sérias aos homens.

O Problema é quando isso se torna um pensamento tão bizarro quanto o atual: ‘a mulher nunca devia ter tentado ter liberdade’. Como se fosse culpa das feministas ter conquistado tal liberdade, e não do machismo de manter a mulher como escrava familiar.

‘Se vocês querem responsabilidade da parte dos pais, daremos uma bolsa do nascituro’, a questão não é calar a violência de um estupro que a mulher sofreu com dinheiro, essa ideologia capitalista de que liberdade é dinheiro está mais do que ultrapassada, as pessoas cansaram já de pensar assim, mesmo que estejam vivendo sob esse sistema sem perspectiva de mudança.

O que o feminismo quer e queria: a mulher autônoma o suficiente para não servir a um padrão de beleza.

Autônoma o suficiente para poder abortar se necessário, se quiser, como quiser, afinal, não podemos reduzir todas pela decisão de um, cada uma faz o que quer com o próprio corpo, e se você é contra, não aborte. Mas não proíba a outra de fazer isso, é muito presunçoso acreditar que suas necessidades deve prevalecer sobre a liberdade das demais.

O patriarcado é o mesmo pensamento que a mulher não tem liberdade de escolha, por isso é uma propriedade a ser adquirida, assim se ela ‘não for minha, não será de ninguém’, o que leva a morte, afinal, saudamos uma sociedade em que a dó do assassino ‘ter se deixado levar pelas emoções e matou’ e a raiva de uma mulher que se deixou levar pelas emoções e cometeu traição.

A ideia da propriedade é a mesma que sustenta a origem das festas de 15 anos para as meninas: estamos apresentando nossa propriedade mais valiosa pra sociedade, agora só basta alguém arrematar.

É a mesma que diz que ‘prostitutas não escolheram ser prostitutas’ porque mulher não é capacitada pra ter liberdade de escolha.

Só que curiosamente é que diz que a mulher ‘escolheu ser estuprada’, como se alguém um dia quisesse sofrer tal violência, por conta da roupa que estava usando ‘provocar o estuprador’ e não a moralidade machista dele que causou a violência.

A questão em si do estupro é a máxima da ideologia machista, você acha que ela não é nada demais, até ver que isso é tão recorrente e corriqueiro entre as famílias mesmo, dentro do casamento, e não somente naquele beco escuro que uma amiga sua passou e foi violentada.

Culpalizar a vítima é também um prato cheio de machismo, não adianta você saber tudo que eu disse acima e falar no final um ‘mas a culpa é das mulheres’, de novo batendo na ideia de gênero novamente, sexista. A única questão em si de gênero é que quem sofre com o machismo (de maneira violenta) são as mulheres, mas fora isso, a ideologia não é específica: não é machista por ser homem ou mulher, apenas é.

Assim como o feminismo não é exclusivamente da mulher, todos podemos lutar por igualdade de gênero.

E as piadas, bom, as piadas surgiram no contexto de degeneração feminina, justamente para rebaixar as mulheres a seres tão bestiais que eram dignos de dar risada. Se o tempo todo fizesse piadas degenerando sua condição, até quando tu ia rir?

É só parar para pensar.

Ta vendo como não é só uma ‘leve desvantagem’? O único jeito de derrubar uma ideologia é com uma ideologia tão poderosa quanto.

Também vale lembrar que a sociedade capitalista foi feita nesses moldes patriarcais, portanto, é um grande engano acreditar em capitalismo ‘feminista’: o capitalismo só quer vender, como a Igreja queria dominar, o mercado está disposto a tudo para tal. Não cairei em por menores sobre capitalismo e machismo, mas esse breve exemplo que dei já engloba todas as questões (quem sabe em um post futuro).

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