Nazismo no Brasil – a política e o pensamento de ódio ao outro que até hoje percorre o discurso político

Já ouviu falar de nazismo tropical?

O partido nazista existiu oficialmente no Brasil, e não somente existiu como parte de suas ideologias permaneceu na sociedade, e não é simplesmente ‘do nada’ que surgiram os neonazistas e companhia.

Essas questões sociais não surgem do nada, também não desaparecem com o fim da guerra: a crise social, a crise econômica, e todas essas questões trazem a tona novamente esse tipo de pensamento.

As pessoas que culpam os pobres pela pobreza, por exemplo, não diferem muito dos que culpavam os judeus pela crise econômica.
Declarar guerra na base do ódio ao outro é o principal pensamento que sustenta o fascismo, que bebeu na fonte de muitas questões como: etnocentrismo, religião, anti-semitismo, etc.

Mas a questão não é explicar o que é o nazismo, somos bombardeados por Hollywood em suas versões sobre o nazismo, existe uma indústria cultura toda dedicada ao tema, que exerce ao mesmo tempo em que medo, certo fascínio pela disciplina, pela força da ideologia, pela genialidade de Hitler (sabiam que o Hitler fazia discursos compassados com o ritmo dos batimentos cardíacos? Pois é, assim o discurso se torna mais hipnótico).

A questão é o nazismo no Brasil, onde o quadro étnico-social era completamente diferente da Europa, e isso não foi nenhuma espécie de empecilho para que a ideologia crescesse (principalmente entre as colônias alemãs).

  • O PARTIDO NAZISTA ESTEVE PRESENTE NO MUNDO INTEIRO

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Dentre todos os países, uniu 29 mil integrantes, entre as décadas de 1930 e 1940.

Até inclusive dentro dos EUA e da Inglaterra, que se consideravam anti-Reich III, o partido nazista foi fundado, com até a criação de jornais para divulgarem a ideologia.

O Brasil teve uma das maiores quantidades de adeptos ao partido do mundo (cerca de 2.900 integrantes oficiais), perdendo apenas para a Alemanha.

Sendo assim, o Brasil chegou a ter importância para objetivos especiais?
A grande questão que dividiria o mundo e a história em tempos antes, durante e depois da segunda guerra mundial, é que o imperialismo seria a grande ordem, a diferença é que: esse imperialismo seria nazista, comunista ou neoliberalista? Era uma preocupação evidente de todas as nações que se dividiam entre esses grupos econômicos.

Vale lembrar que no Brasil o momento político se assemelhava muito ao nacionalismo-fascismo, embora o partido fascista AIB (Ação integralista Brasileira) de Plínio Salgado não estivesse no poder, o Estado Novo de Vargas era muito semelhante a ideologia fascista; combatia os partidos políticos afim de uma soberania política, monopolizou a mídia com o programa de rádio “A Hora do Brasil”, onde a audiência concentrada no mesmo meio de mídia era completamente subversivo, afinal o rádio tem uma linguagem íntima o suficiente (o radialista parece estar falando do seu lado, e não isolado em um lugar aleatório), para manipular as ideias e plantar muita alienação, além da criação do DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) onde tudo que iria até a mídia era revisado, e somente se autorizado era passado em frente.

Vargas monopolizou a mídia para os interesses da elite, e para alienação dos mais pobres.

Monopolizar as ideias, a política, congelar a economia, mesmo que Vargas não confiasse tanto na AIB, estava cumprindo seu papel de maneira bem fascista, e deixou o Brasil pronto para o golpe que viria em 64.

Concluindo, o Brasil estava com um ‘affair’ mais forte com o nazismo do que de fato com o neoliberalismo e o comunismo, em termos de quadro político, estava mais fácil implantar o Hitlerismo do que as demais ideologias.

Historia-do-Nazismo-no-Brasil

  • O PERIGO VERMELHO É O INIMIGO EM COMUM

Os comunistas passam a ser perseguidos pela AIB e pelos nazistas no Brasil, para isso, os militares são treinados para combater os comunistas.

Apesar da perseguição, o partido comunista assim como o movimento anarquista, e movimentos socialistas sofrem uma grande efervescência social, a ponto de se unirem contra o nazi-fascismo.

Prestes, Olga, dentre outros são perseguidos como símbolos ou representantes do comunismo, como todos sabem.

  • FESTIVAIS NAZISTAS SÃO FEITOS NO BRASIL TODO

Muitos líderes jurídicos são convidados para assistir os festivais feitos para a juventude Hitlerista. E eles gostam. A ideia era centrar a elite que podia vir a se rebelar contra o nazismo, e por volta dessa mesma época o curso de direito começa a ser corrompido a não ser mais um curso de libertação social, mas de reforçar a ideologia predominante (sem generalizar, claro, mas os principais líderes jurídicos ficaram num verdadeiro ‘ping-pong’ entre fascismo e neoliberalismo, duas ideologias claramente elitistas)

Tais festejos ocorrem no coração das cidades brasileiras como: São Paulo, Porto Alegre, Rio de Janeiro, Florianópolis e Recife.

Todos com grande foco no ódio ‘ao outro’.

Esse ‘outro’ é o brasileiro, o mestiço, o negro. O índio ainda é protegido pela AIB como exemplo do ‘brasileiro puro’, bizarramente esse mesmo indígena era completamente ignorado quanto à opinião e participação, o que no fundo tem a ver somente com o mito alegórico do Brasil, e não com consideração verdadeira.

  • BRASIL: PARAÍSO TROPICAL E INFERNO RACIAL

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O Brasil tem fama histórica.
Desde os mitos que permeavam a Europa renascentista sobre uma terra onde as frutas nasciam em todo lugar em abundância, os rios eram de água doce, os animais e selvagens que o habitavam eram exóticos, bonitos, amistosos (acredito que a onça pintada deve ter sido um choque para eles). O Brasil era um paraíso alegórico, a terra da fauna maravilhosa que inspirou Darwin em suas teorias.
O Brasil era o paraíso na Terra! A “ilha flutuante paradisíaca viva”, o próprio nome significa isso. Porém, o Brasil tem um defeito: brasileiros.

Esse pensamento é tipicamente fascista, e se tu já viu alguém propagar isso, não será exagero nenhum chama-lo de nazista, pois para os nazistas, para Hitler, e para a juventude Hitlerista européia, o Brasil era ‘invadido por pestes humanas’, era necessário uma limpeza etnocêntrica para ser verdadeiramente um paraíso.

Os ‘com defeitos genéticos’, como eram chamados os mestiços, eram considerados inferiores geneticamente, preguiçosos (embora fossem os que ergueram o país e trabalharam mais por ele), era o lado mais fraco do branco misturado com o lado mais fraco do negro. O negro puro era considerado ‘menos pior’ que o mestiço.

O ódio contra os judeus se reverte em ódio aos mestiços e afrodescendentes. A América é vista como extensão do território europeu, e o americano, como pagão, profano, estúpido, etc., ou seja, ele é tratado como estrangeiro na sua própria terra.

Tanto é, que os alemães foram orientados a não se misturar com os mestiços que eram chamados de “macacos” pelos nazistas, sendo assim proibido constitucionalmente (dentro do Reich III) a mistura entre “puros” e mestiços.

  • A RIGIDEZ DO NAZISMO NÃO COMBINA COM O CLIMA TROPICAL

“Deus é brasileiro” alegoria usada para atrair os imigrantes europeus (em sua maioria fortemente ligados ao catolicismo), essa é uma terra de Deus, cheia de filhos do demônio que precisam ser eliminados pelos filhos de Deus, pelos escolhidos. Precisam ser dominados, humilhados, expulsos, somente o homem ariano é o modelo a ser seguido pela sua superioridade intelectual, espiritual e pessoal.
E esse não foi o discurso somente de Hitler, eventualmente (todo dia pra ser sincera) escuto esse ‘culto’ a cultura européia como a salvadora das mentes débeis brasileiras, do povo.

Se tratando da sociedade brasileira e os rumos que o nacionalismo de Vargas estava criando, era necessário adaptar o nazismo para algo mais flexível, mais próximo da realidade do brasileiro. Embora a resistência inicial em manter o Reich III, a adaptação foi necessária.

Enquanto Hitler e seu partido cresciam na Alemanha, no Brasil o partido se adaptava:
Passou a apoiar o Tenentismo, a AIB, e passou a perseguir o comunismo e o anarquismo, a esquerda em geral se tornou um inimigo em comum, e o chefe de Estado era o “interventor da paz” (isso parece recente?).
A ideia de “ordem e progresso” é associada ao homem trabalhador e submisso as questões políticas.

A ordem é determinada pela milícia, e progresso é responsabilidade do trabalhador submisso.

Porém, como se sabe, o brasileiro sempre passou longe de ser “calmo e conformista”.

Os brasileiros não recebem as ofensas calados, ironizam os alemães os chamando de ‘extraterrestres’, e eventualmente nos jornais Hitler aparecia ridicularizado em charges vestido de mulher, entre coisas do tipo.

Apesar da inicial resistência, os nazistas são vistos como modelo a serem seguidos pela sua capacidade de “ordenação”. E brasileiros são taxados de exóticos e atraentes (antes de 1930) para atrasados e degenerados (após 1930) pelos darwinistas da época. Os cientistas da biologia assinavam embaixo do comportamento etnocêntrico.

Eu tenho mania de dizer que os europeus são encarados como gênios, quando muitas vezes a grande maioria agiu feito babacas, são pequenas exceções que são fortemente perseguidas que hoje são vistos como ‘representantes do pensamento europeu’, mas na época vivida foram perseguidos fortemente, como qualquer pessoa que denuncia um grande erro político, econômico ou social, seja da época que for, é tratado como herói depois que desistem da ideia.

Então essa coisa do pensamento europeu ser superior é um mito, como em todas as sociedades, pensadores que pensavam fora do eixo eram tratados como ovelhas negras.

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Hitler tinha planos imperialistas no Brasil, por isso a importância do funcionamento do partido nazista no Brasil.

O partido Nazista funcionou em 17 Estados brasileiros, e isso foi exatamente proporcional ao número de imigrantes alemães e suas localidades.

Esses partidários se reuniam em locais diferentes das cidades semanalmente para repassar um relatório sobre a situação política do Brasil para a Alemanha.

  • O NAZISMO SÓ É PROIBIDO PORQUE NÃO É CONVENIENTE PARA OS EUA.

Vale lembrar que por mais esforços que a esquerda brasileira teve em freiar o nazismo, e de fato surte efeito, a coisa só se desvincula do Estado Brasileiro pra valer quando os EUA passa a tratar os nazistas como inimigos. Os EUA implantam seu neoliberalismo cruel e aplicam as ditaduras em toda a América Latina (onde torturam em busca de perseguição política e impõe o neoliberalismo).

Os brasileiros que lutaram, e que levantaram a bandeira contra o fascismo foram perseguidos como inimigos do Estado (isso parece atual? [2]), enquanto os que apoiaram o nazismo foram simplesmente calados em troca de favores financeiros e políticos.

Ou seja, os mesmos líderes políticos que estavam em affair com o nazismo entraram em affair com o neoliberalismo, ou seja, a mentalidade não mudou. É uma ilusão achar que uma pessoa tem um ideal completamente fascista de ódio aos mestiços, minorias e afins, simplesmente mudar do dia para a noite por ordem do neoliberalismo e não por estudo e capacidade de visão social.

Só foi mudado o sistema porque foi conveniente para a elite não bater de frente com os EUA. Em momento algum foi pensando “na pátria e nos brasileiros”.
A própria ideia de venerar a pátria ficou congelada como ideal fascista: unindo oprimidos e opressores para um congelamento da situação social.

Esse é um pequeno resumo de um trabalho de 10 anos da autora Ana Maria Dietrich. É para ter apenas uma noção de como essas ideologias são fortes e percorrem os tempos históricos, e principalmente, como os pensamentos dela voltam a tona nos momentos de crise e efervescência social.

O livro/publicação contêm todos os detalhes, inclusive o sobre as mulheres no nazismo, sobre o catolicismo apoiar a ideologia, dentre outras coisas, vale apena buscar e tentar baixar.

Fonte: Ana Maria Dietrich – “O Nazismo Tropical”

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2 pensamentos sobre “Nazismo no Brasil – a política e o pensamento de ódio ao outro que até hoje percorre o discurso político

  1. Ótimo artigo. Mostra bem a importância que o nazi/fascismo exerceu na sociedade brasileira e que ainda está presente com os movimentos “White Power”. Adorei o blog. :3

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