Aquele sobre futebol, vindo da filha de um ex-jogador.

Nunca abordei esse assunto, embora ele esteja tão presente na minha vida quanto pensam. Não, não faço o tipo de torcedora babaca que fica fazendo as pessoas engolirem fanatismo.

Eu sou filha de um ex-jogador, que jogou em clubes grandes como Santos, Coritiba, Paraná, Fortaleza, Paysandu, entre outros. Não pensem que tive uma vida de rica enquanto meu pai jogava, nem ele teve. Pode até ser que ele teve acesso a alguns privilégios, porém ele não teve nenhuma marca que o patrocinou unicamente, nem o Galvão Bueno falando o nome dele a cada peido que os jogadores dessem no campo.

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Diferente do que até os meus amigos mais críticos dizem por aí, o futebol não é um berço de babacas, não é aquele maldito estereótipo do jogador de futebol (idiota que pega gostosas e bebe, fuma, etc., loucamente), eles também trabalham, a força de trabalho de um jogador de futebol depende totalmente do seu físico, caso seu físico esteja comprometido e esse jogador não é comprado pela mídia, são cruelmente expulsos do campo.

Além do fato de existir uma corrupção enorme por baixo dos panos, e o jornalismo esportivo não colaborar muito com a fama dos jogadores e sua intelectualidade fazendo perguntas imbecis como “o que levou o time a ganhar o jogo?”, óbvio que foram os gols, e se algum jogador diz isso é taxado de idiota.

Meu pai jogou com o Sócrates, no Santos.

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O Sócrates de verdade era um verdadeiro babaca. Diferente do que a mídia demonstra, o cara era claramente um mascarado, personagem, o time inteiro jogava em prol de deixar o cara fazer gol, caso diferente eram cortados pela mídia e posteriormente pelo time. Eu tenho várias reportagens de gols do meu pai, curiosamente, todas elas surgem em times que ele não jogou com celebridades dos gramados, sempre me deu a péssima impressão que quando um jogador famoso está no time, ao invés de serem privilegiados, o restante do time se torna invisível.

Há quem diga que ‘o time ganha visibilidade internacional’, mas isso é pura ladainha. Meu pai foi convidado a jogar no Japão e na Grécia, ambos os casos ele foi passado para trás por um “primo de um grande empresário”, e coisas do tipo.

Enquanto meu pai jogou com Sócrates não fez questão de fazer parte do time que lambia o saco dele, nem sequer tocava para ele, é até engraçado rever os jogos e ver como ele chutava de onde fosse pra não tocar pro Sócrates, tamanha a revolta com toda a corrupção da mídia e do time em cima de um cara que não fazia nada em campo, enquanto o resto do time dava o sangue nos jogos sem nenhum reconhecimento.

E para ajudar, a diretoria recebia uma quantia em dinheiro que quase 70% dos fundos que eram destinados aos jogadores iam unicamente ao Sócrates(!), enquanto os demais, incluindo os reservas tinham que se contentar em dividir as migalhas que sobravam. Sem contar que durante os amistosos do Santos, só o Sócrates recebia um ‘agrado’ em forma de dinheiro para participar dos jogos, os demais tinham que jogar de graça.

O que aconteceu com o meu pai, é que ele teve uma lesão muito grave e teve que se afastar dos campos. E com os amigos e puxa-saco dos Sócrates, não levou muito tempo para serem expulsos do campo também, por conta de movimentos muito intensos e muitas vezes que vão contra nossa própria capacidade física, os jogadores tendem a sofrerem lesões graves conforme o tempo passa no campo. Os que sobrevivem obviamente são os comprados pela mídia ou pela ‘aristocracia’ do futebol.

Eu nunca vi meu pai ser machista, nunca vi ele negar fazer uma atividade com a minha mãe, nem com nenhuma madrasta minha por ser “coisa de mulher”, pelo contrário, ele sempre se dispôs as atividades corriqueiras e caseiras igualmente, sem nenhum sinal de menosprezo quanto as mulheres. Por isso talvez eu seja feminista, quando descobri que haviam homens que ‘não aceitavam fazer coisas de mulheres’, o meu choque foi tão grande que fui atrás de entender a razão disso tudo.

Nunca vi meu pai ser homofóbico, nem deixar de estar comigo e com o meu irmão para ficar em pagodes ou festas bebendo até altas horas, nunca vi meu pai vestir o estereótipo do jogador de futebol da mídia.

E como qualquer outra pessoa ele trabalhou muito enquanto esteve nesse meio, não recebeu 1 milhão de reais por mês, nem a vida toda de trabalho dele por isso, não desviou verba da educação, não fez nenhuma das merdas que os ‘críticos’ dizem que o futebol causa no Brasil.

A ignorância vem do senso comum, e o senso comum não é simplesmente não estudar nada, mas principalmente, falar de um assunto sem ciência dele.

p.s.: caso alguém fique curioso quanto ao nome do meu pai, falarei em particular, confesso que tenho medo que algum fanático faça alguma merda referente a esse post, portanto o manterei “anônimo” por aqui.

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2 pensamentos sobre “Aquele sobre futebol, vindo da filha de um ex-jogador.

  1. Hey, Miossi !
    Favoritei seu blog faz um tempinho, atraído pelo lado histórico.
    Mas seus posts que não são sobre história, me atraem tanto quanto!
    Como posso fazer para saber o nome do seu pai ? Sou de curitiba e fiquei curioso, pois, vi que ele jogou no Paraná e no Coritiba !
    Parabéns pelo ótimo blog !
    Hector

    • Hector, como eu pedi pra ser algo mais ‘privado’, se puder me adicionar no facebook (Mariana Milhossi) ou no twitter (@miossi), eu lhe passo o nome dele 😀
      E obrigada pelo comentário! Fico lisonjeada.

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