Aquele sobre Cristianismo – Vox Populi, Machismo, Santo Ofício e Jesus

Para quem é ateu ou ateia, como eu, e estuda História, sabe que o cristianismo causou uma porção de problemas e retrocessos. Talvez uma das maiores razões das pessoas se desligarem das religiões é que no fundo elas tem algo de podre, algo de querer criar uma ordem perante uma ideia de um bem maior, esse bem maior instrumento usado para manipular e ordenar.

Porém, o cristianismo deve ser olhado com cuidado, perante a ideia da História não foi só trevas não.

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Vox Populi e o Cristianismo

Um dos contrapontos mais interessantes do cristianismo é que na sua essência ele traz a ideia de ‘voz do povo’, pois o cristianismo se apoiou na ideia da libertação dos escravos e de todos os povos reféns de povos antigos.

Os escravos foram um dos instrumentos mais poderosos do império romano, e só se deram conta disso quando perceberam que faziam a maioria.

Portanto, não podemos afirmar de uma forma tão incisiva, a ponto de dizer que foi o ‘cristianismo que libertou os escravos’, mas certamente foi uma ideologia a princípio libertadora, que trouxe a ideia de todos serem dignos por serem filhos do mesmo Deus, a princípio uma ideia igualitária.

Por que falo tanto que é a princípio? Porque posteriormente o cristianismo será parte da ideia de um clero, todo estruturado, que fará alianças com os reis em troca de bênçãos,  e fará exatamente como o paganismo, se aliará apenas dos mais bem afortunados, enquanto os pobres são pobre praticamente por predestinação.

Mas é interessante ver o cristianismo como a voz do povo inicialmente, principalmente em como uma ideologia que torna as pessoas ‘mais do que aparentemente são’, o que alimenta o cristianismo é a ideia de miséria, se estamos na miséria não temos ao que agarrar, como os escravos, podemos nos sentir numa eterna angústia, é mais fácil se agarrar a um Deus que está em todos os momentos, inclusive na miséria, e culpar as tristezas por um ser além da humanidade, transferindo a angústia a um símbolo, o símbolo do mal, o diabo.

 

O machismo

O machismo é a problemática mais intensa trazida pelo cristianismo, tanto é que eu acredito que se toda mulher tivesse acesso a toda a construção da ideia de que a mulher é inferior ao homem que o cristianismo fez deixaria de ser cristã.

A vergonha do próprio sexo é tão intensa e tão trabalhada que qualquer ideia de nudez feminina é associada à vergonha pública no seu maior grau. É assustadoramente forte, e tudo isso vem da moralidade cristã.

Mas o machismo vem desde a antiguidade, na sociedade grega era muito presente. Porém em história temos as chamadas ‘lacunas’ que nos põe a refletir se era exatamente daquela forma, a lacuna disso tudo é a ilha de Lesbos, que relata a homossexualidade pedagógica entre mulheres. Isso já atraiu uma ideia mais igualitária, mas apenas uma ideia porque de fato igualdade não existia. Porém na antiguidade a moralidade era menos mortal, mulheres não tinha nojo de serem mulheres e nem de nada que seja sinônimo de carinhos e carícias femininas.

Ao menos todas as leituras que fiz sobre mulheres na antiguidade não relatam tal evento por conta de uma moralidade religiosa. Isso acontece com intensidade principalmente na baixa idade média, o período de transição da era medieval para a moderna.

Porém, não posso deixar de admitir que foi uma grande sacada, pois dominando as mulheres você domina a mentalidade de um mundo inteiro. As mulheres aparecem em peso com o papel de educadoras morais, são as que geralmente ensinam as crianças o que é certo e o que é errado, seja a mãe, a irmã, a tia, a babá, a freira, o que for, é a mulher que ensina a comunicação (por isso geralmente a comunicação é mais refinada no sexo feminino, e mais excessivo também), e a mãe, seja de sangue ou não, que ensina a criança o primeiro (e mais difícil de mudar) olhar ao mundo.

Por isso Freud afirmava polemicamente em sua época que a mãe se torna quase um fetiche da criança, e posteriormente seria a grande responsável pelas neuroses de maior ordem do indivíduo.

Tudo isso porque a mulher invisível na sociedade por consequência é a tirana do lar. Esse é um dos principais ‘tiro pela culatra’ desse tipo de visão.

Mas, como eu havia dito anteriormente, o machismo vem desde a antiguidade e o cristianismo bebeu (e não foi pouco, até se embriagar) de fontes antigas, de autores da antiguidade claramente machistas, da sociedade greco-romana machista, e convenhamos que isso trouxe sim seu nível de influência.

Por exemplo, muitos se reafirmam como a mulher era na sociedade greco-romana através das deusas, mas essas representações femininas eram uma máxima feminina encarada como divindade, isso em nada tem a ver com o cotidiano feminino. Tanto é que o cristianismo usou da mesma fórmula do paganismo romano; a mulher que se aproxima do divino que é verdadeiramente mulher.

A diferença é que o divino dos pagãos não tinha pecado, enquanto o dos monoteístas sim, pois se Deus é perfeito, tudo que vai contra sua perfeição é pecado, é errado.

Nos mitos pagãos as mulheres surgem em momentos controversos, do pênis de Urano, de uma dor de cabeça de Zeus, isso não queria dizer algum tipo de ‘ruindade’ ou falta de caráter moral, pelo contrário, Afrodite e Atena eram veneradas e adoradas.

Porém na interpretação cristã isso já ganha um lado perverso, como a história é mais o olhar contemporâneo do que o antigo, e reinterpretaram os mitos antigos como uma forma de comprovar que a mulher não era “boa coisa”, que era fraca, que vem da carne e não do divino, e assim posteriormente com o mito do éden. Também o cristianismo se espelha muito dos deuses do politeísmo para trazer a ideia de santos, e também o próprio diabo é muito espelhado no politeísmo. Nem preciso dizer sobre a bíblia né? Pura união de mitos pagãos.

Aos poucos tiram as mulheres de cena para sua invisibilidade. Invisibilidade que se converte em tirania no lar, que se converte em passar todos seus valores de forma mecânica e desumana aos seus filhos, que se converte em automaticamente muitas gerações crescerem com a mentalidade das mães, se fosse cristãs, seriam cristãs. E a partir daí surge o padrão europeu, todos com o mesmo comportamento graças a esse tipo de “política”. Já não se separava mais europeus por bárbaros, não bárbaros, helênicos, etc., agora todos são cristãos.

Foi inteligente da parte do clero pensar nisso, mas o retrocesso científico foi mais devastador ainda, pois a medicina era quase que exclusividade feminina.

 

Santo Ofício, a diversão medieval e moderna

Os tribunais do Santo Ofício podem ser horripilantes para o nosso olhar pós-moderno, mas em uma época que não existia televisão, cinema, em que a música era um prazer para pouquíssimos, assim como o teatro, queimar pessoas em praça pública era o grande evento da comunidade!

As pessoas faziam festas em prol do Santo Ofício, era realmente muito aguardado pela comunidade, e muitos acreditavam que estavam fazendo o bem (inclusive os cristãos). Não estou colocando a minha mão no fogo (expressão dessa época inclusive) pelos cristãos, mas é um contraponto interessante ver que eles realmente acreditavam estar fazendo o bem.

E que a fogueira funcionava mesmo como libertação. Quando a Igreja Católica se tornou uma superestrutura, parte do próprio clero não sabia das atividades ardilosas que rondavam por lá, nasceram em um mundo cristão, acreditavam estar fazendo o correto. Intervenção humana no que saía dos padrões; homossexuais, mulheres que traíam, bruxas, etc., a famosa ‘justiça com as próprias mãos’, só assusta quem lê de forma hipócrita, pois você já deve ter trombado com algum imbecil que é a favor da pena de morte né? Isso não se distancia muito dessa ideia.

 

Jesus é diferente do cristianismo

Jesus casou. Jesus não marcava hora em uma superestrutura para rezar e fazer as pessoas se sentirem pequenas perante a presença dele. Jesus era contra o padrão, tanto era que por isso chocou tanto a população na época, perante milhões de outros profetas foi o que fez ele se destacar.

Em momento algum Jesus divide o mundo entre o certo e o errado, Jesus passa a mensagem de um Deus que olha os miseráveis, que na miséria não estão sozinhos.

A própria história de Jesus em várias versões confirma que ele se casou com uma mulher, que teve filhos. Jesus funda o judaísmo, não o cristianismo, e o próprio judaísmo tinha milhões de vertentes, não dá para ter uma exatidão de qual foi exatamente.

Jesus não é cristão. E o cristianismo só se tornou esse monstro todo porque as próprias pessoas permitiram, embora as circunstâncias não os favorecessem, os próprios cristãos só se dão conta de todo o poder que a Igreja detinha séculos depois. Isso foi primordial para uma mudança brusca e violenta de comportamento dos cristãos.

Hoje, o cristianismo tem várias vertentes, e até tem uma delas que é a favor do marxismo(!), embora no Brasil a mais popular é a dos católicos apostólicos romanos.

E se você pensa que é o protestantismo que desestrutura o catolicismo, saiba que o protestantismo, principalmente no Brasil é praticamente uma cópia do cristianismo medieval.

O que desestabiliza o cristianismo pra valer é o feminismo.

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