Música à História

Sempre gostei da arte da música, como disse o próprio Nietzsche seria insuportável viver sem.
Seu professor de história provavelmente já lhe encheu de MPB com Caetano, Chico Buarque e afins fazendo associação com História. Porém existem saindo um pouco do “mainstream” dos professores de história, farei uma lista despretensiosa sobre o tema.

 

Geraldo Vandré

 

Posso estar sendo equivocada, pois toda arte é o ponto de vista do artista diante de uma determinada situação, mas lá vai algumas recomendações pra ler ou até para alguma aula de história.

 

 

A primeira é a Viva La Vida, a música que claramente fala do momento do Iluminismo e Revolução francesa, queda de impérios, queda de Napoleão, queda de qualquer sinônimo do absolutismo.

I used to rule the world
Seas would rise when I gave the word
Now in the morning I sleep alone
Sweep the streets I used to own

I used to roll the dice
Feel the fear in my enemy’s eyes
Listened as the crowd would sing
“Now the old king is dead! Long live the king!”

É um rei desconsolado com a perca do seu absolutismo de uma forma muito clara.

Só Coldplay para fazer uma música sobre a evolução francesa de uma forma estilosa.

 

Se tem uma outra banda toda autêntica que aborda um momento histórico de uma maneira bem peculiar, é Scissor Sisters, e sua “Invisible Light”.

A letra é bem mais confusa, mas é clara a mensagem no vídeo .

No vídeo muito é mostrado quanto a opressão feminina sofrida pela Igreja, e tudo que é associado ao pecado e a demônios aparece, desde o lobo ao pedaço de carne no chão. “Carnal” ou não, as mulheres sentiam desejos que eram automaticamente reprimidos pelo imaginário cristão.
E como a própria música fala várias vezes, essa questão do retorno a cultura antiga;

At the doors of Babylon, you are my Zion
Pacing Tiger, the keeper’s cage
Invisible light shoots from your eyes
A sign I can see from my high rise

Another castle crumbles, another monkey falls
Just open up your joy and let the sailors climb the walls
I thought I saw you laughing 10 feet in the air
It doesn’t matter if they touch you where because you can give me

(…)

Opiate Utopia is hotter by the hour
I found you a flower in a field
My invention, among the tired, among the poor
Among the broken, the huddled masses
It’s your time

Sempre ligado com uma ideia de libertinagem, fora a alusão a uma pintura famosa quando o homem enfia o dedo na costela da mulher, não estou conseguindo me recordar do nome, mas é feita uma alusão. Toda essa ideia da cultura antiga sendo resgatada me fez lembrar muito do iluminismo.

Visto que no próprio vídeo mostram algumas humilhações que eram praticadas como atirar lama na cara da mulher, pendurar ela pelo cabelo, etc., aquela fina camada entre o desejo sexual e a o desejo cristão, associado à castidade. A princípio, achei que a “luz invisível” era o iluminismo, mas agora tenho minhas dúvidas, pois a liberdade feminina não surge à partir exatamente do iluminismo, mas é possível fazer um paralelo.
De qualquer forma, a sequência confusa de imagens é bem interessante para mostrar “desejos femininos versus opressão” da época moderna.

 

 

Você curte Marxismo ? Então deve adorar “Admirável Gado Novo” do Zé Ramalho, que é uma verdadeira pérola nacional, praticamente todas as músicas dele fazem analogia a história, porém essa é a mais claramente marxista.

Mas já reparou o quanto as letras (mesmo as mais repetitivas) do Daft Punk tem esse “qzinho” de marxismo ?
Principalmente a Harder, Better, Faster, Stronger.

O vídeo é muita analogia a ideia de Marx, esse vídeo é parte de um filme. Esses seres que são industrializados são alienígenas, que perdem sua identidade original e são “humanizados” na fábrica da indústria da música.

Perdendo sua verdadeira identidade ganham estereótipos humanos para atenderem as demandas do mercado, de forma bem escancarada por puro interesse comercial, onde a sacada final é por um sistema de manipulação para a mente deles, para tocarem incansavelmente em shows e renderem capital ao dono da fábrica.

E mesma repetição das frases na música tem todo um sentido de “criação de estoque” de fábricas, e toda essa ideia dos meios de produção nos influenciando como seres humanos.

 

 

Outra banda que aborda muita história é Muse, nesse novo CD mesmo deles a primeira música “Supremacy” parece uma analogia as guerras e até a alguns pensamentos filosóficos quando ele comenta tanto da “fantasia” que vivemos.
A própria pós-modernidade é na base de uma fantasia, vemos imagens virtuais dos locais acreditando ser exatamente como tal local, quando muitas vezes já se perderam muitas coisas, mas o virtual permanece na nossa mente como real. Essa fantasia que vivemos pode estar ligada a tudo, até a nossa família, que pode do dia pra noite escorrer pelas nossas mãos como a modernidade líquida de Bauman.

Mas meu foco não será “Supremacy” e sim a mais orgásmica deles na minha opinião, que é a “Knights Of Cydonia”

Come ride with me
Through the veins of history
I’ll show you a god
Who falls asleep on the job

And how can we win
When fools can be kings
Don’t waste your time
Or time will waste you

No one’s gonna take me alive
The time has come to make things right
You and I must fight for our rights
You and I must fight to survive

A primeira observação que eu faço é essa questão de “venha comigo pelas veias da história, eu irei lhe mostrar um Deus que dormiu no trabalho”, não tem nada mais verdadeiro! Hahaha
Quando você desmistifica essa ideia de que tudo foi digno e justo na história já é um ótimo caminho para a compreensão, aparentemente os ateus tendem a curtir mais essa música, mas pelo menos os monoteístas que são conscientes sabem; o Deus deles pode ser perfeito, mas o mundo não, e quando estamos em luta pelos nosso direitos e nossa própria sobrevivência, o certo e errado deixam de existir.
E basicamente é isso que o Matthew Bellamy canta nessa música, seguido do solo maravilhoso como êxtase da música, vale apena ver o vídeo também, é muito bom. Porém, não recomendável para ser mostrado em qualquer ambiente familiar err…

 

A luta pela sobrevivência, seja da vida, da liberdade, da ideia, é o que problematiza mais as questões do que um simples sim ou não, ou certo ou errado, todo ser humano está propenso a cometer erros acreditando estar certo. E muitas vezes na visão dele você faria o mesmo ou pior. Ou melhor, deles, pois a história é contada no plural, essa falsa impressão que é um ser humano que guia todos é quase sempre errônea.

 

 

Eu sei, essa do Legião faz parte do “mainstream”, todo mundo sabe cantar Faroeste Caboclo inteira, porém sabem o verdadeiro sentido?
Será que pararam para pensar que a questão racial está muito forte nessa música?

Quando criança só pensava em ser bandido
Ainda mais quando com um tiro de soldado o pai morreu
Era o terror da sertania onde morava
E na escola até o professor com ele aprendeu
Ia pra igreja só pra roubar o dinheiro
Que as velhinhas colocavam na caixinha do altar
Sentia mesmo que era mesmo diferente
Sentia que aquilo ali não era o seu lugar
(…)
Não entendia como a vida funcionava
Discriminação por causa da sua classe e sua cor
Ficou cansado de tentar achar resposta
E comprou uma passagem, foi direto a Salvador.
(…)
E o Santo Cristo até a morte trabalhava
Mas o dinheiro não dava pra ele se alimentar
E ouvia às sete horas o noticiário
Que sempre dizia que o seu ministro ia ajudar
(…)
Já no primeiro roubo ele dançou
E pro inferno ele foi pela primeira vez
Violência e estupro do seu corpo
“Vocês vão ver, eu vou pegar vocês”
Agora o Santo Cristo era bandido
Destemido e temido no Distrito Federal
Não tinha nenhum medo de polícia
Capitão ou traficante, playboy ou general

O Fato de João pegar raiva de militares porque o pai morre com um tipo de um soldado, é tão presente nessa guerra civil que vivemos no Brasil quanto se pensa. Essa coisa de todo lugar que ele ia era marginalizado, e por isso caiu com facilidade na marginalidade, Renato Russo podia ser burguês, mas sabia muito bem da sua própria classe.

Preste atenção na letra, toda a problemática social que ele aborda em uma música, chega a ser incrível.

É muito claro que Renato Russo também curtia e muito a dialética do marxismo, ele por várias vezes utiliza desse tipo de visão para criticar a sociedade, em geração coca-cola, que país é esse? Entre outras.

Curiosamente, esse momento em que as bandas viveram em Brasília e São Paulo parece não ter passado pelo Rio de Janeiro na época, não no rock, curiosamente os únicos cantores que se preocupavam com essa questão no Rio eram o Cazuza e o Lobão, que também são recheados de letras críticas bem ao estilo marxista.

Enfim, finalizo meu post com uma dialética diferente do que costumo postar no blog, e recomendo claro todas as bandas postadas, disco por disco.

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