Historiador só com diploma sim! (Crítica a Folha de S. Paulo)

Segue a notícia que irei criticar: “Historiador? Só com diploma.”
Como é visível, A Folha de S. Paulo é completamente contra a decisão simples de que, a partir dessa aprovação, somente historiadores irão prosear sobre história.

O que a Folha afirma ser praticamente uma insanidade da Câmara, eu afirmo ser uma das decisões mais brilhantes atuais. Para a Folha provavelmente ser historiador é o mesmo que decorar fatos, o que é para qualquer outro babaca que não precisa ser jornalista para afirmar isso.
Diante dessa falsa ideia de que história é um simples apontar dos fatos, qualquer um pode ser historiador mesmo. Pena que na realidade história é bem mais complexa do que a Veja, Folha e Estadão consideram no mundo colorido e ignorante deles.

Ser historiador não é simplesmente apontar os fatos, mas analisa-los diante do contexto, identidade, ideologia, cultura, sociedade, economia e contradições da época. E acredite, não resumi tudo.
Por exemplo, o Leandro Narloch, autor do “Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil” aponta o fato de escravos terem escravos. Isso é jornalismo sobre o assunto, você mostra o fato, porém quando se trata de história estamos mexendo com questões que vão muito além disso, a escravidão não é um mero fato do passado a ser esquecido depois que tivemos uma democracia, sofremos ressacas do período, uma ressaca fortíssima chamada racismo.

Por isso, para falar de história e fazer história não é somente um apontar para o fato. Para quem fez ou faz história como eu, sabe que a escravidão foi tão terrível que a única forma de dilacerar essa memória maldita da mentalidade dos negros era se vestindo de branco, ou seja, tendo um escravo.
Pois liberdade para quem é escravo é não trabalhar, a mentalidade do branco liberto e trabalhador do comércio é muito diferente da do negro liberto da época. Quem é historiador é atento a por esses detalhes da época, pois história não é decorar o fato, é analisa-lo com milhões de perspectivas.

Quem está lendo o livro, e lê esse trecho do livro em que ele afirma que Zumbi tinha escravos, vive no século XXI, vai acreditar que o Zumbi era um falso moralista. Esse paralelo é importantíssimo para que todos saibam que a mentalidade mudou, mas as ressacas desse dilaceramento da própria identidade continuam vivas até hoje.

Até mesmo um sociólogo, um geógrafo, um filósofo não tem um olhar adentro de história como um historiador. O historiador não usa somente da dialética do marxismo para uma leitura histórica, é necessário sair um pouco da visão de apenas lutas entre as classes e entender o contexto cultural da época. Cultura não é somente ódio entre pobres e ricos.
Cultura é também dizer que, por exemplo, na Idade Média, o Santo Ofício era considerado um grande evento esperado pelas cidades europeias  não era somente a morte, mas também para os europeus que não tinham um grande evento para diversão da população, funcionava como um catarse da época. Só o historiador saberá que por mais terrível que tenha sido o Santo Ofício, parte da população se divertia com aquela celebração tenebrosa da fé católica.

As pessoas não tem muita noção de certo e errado em tempos diferentes, somente o historiador tem esse olho clínico e entende que o que consideramos tenebroso hoje é construção histórica, ou seja, para os católicos da época, eles estavam corretos em fazer o Santo Ofício, esse peso moral só recaiu sob nós atualmente. E vocês acham que eles consideravam errado isso na época? Mesmo? Em alguns casos os próprios pais agradeciam o Santo Ofício por “libertar” a alma das suas filhas “bruxas”.

Muitos detalhes são deixados de lado quando a visão de história não é analisada pela metodologia de um historiador e sua crítica e conhecimento histórico, pois somos direcionados a termos mais crítica sobre isso do qualquer outra pessoa.

E se história é somente uma coleta de dados, então assim temos ótimas memórias do Golpe de 64 então. Pois os veículos da mídia ressaltavam a bravura dos militares em combater o terrorismo (comunismo). Se não fosse tão recente, a quantidade de jornalistas que se metem a besta de fazer livros sobre História que iam ressaltar a Ditadura como um período de “paz militar” seria muito grande, o problema é que muitas pessoas que sofreram com a Ditadura ainda estão aí, de pé, inclusive a nossa atual presidente. Essas memórias vivas que não deixam esses dementes fazerem o que querem com a memória do país.

A possibilidade de uma distorção total do fato a partir de uma visão é imensa quando não se tem pelo menos o básico para se interpretar história.
Portanto, não basta ter dados, é preciso ter conhecimento verdadeiro histórico, e conhecimento verdadeiro histórico não é ler um livrinho de histórias, é aprender metodologia da história, é ler história por ângulos diferentes, é ter crítica verdadeira histórica.

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3 pensamentos sobre “Historiador só com diploma sim! (Crítica a Folha de S. Paulo)

      • Sou sociólogo e concordo com você (bem, nem de tudo… é claro que eu tenho uma visão diferente dos fatos históricos que você tem, mas não sou tão alheio as suas especificidades como pareceu no texto rs). Mas entendo o teu posicionamento.

        Todos das humanidades sofremos com pessoas fora da área (principalmente jornalistas) que querem se meter a besta em nosso campo de estudo. Esses livros do Narloch são grandes exemplos disso.

        Parabéns pelo teu blog. Estou conhecendo hoje 🙂

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