A tragédia grega do cotidiano

Esses dias eu estava passando por uma sobrecarga emocional. Eu não sei nem dizer se pode chamar de sobrecarga emocional, ou até mesmo de ordem racional; essa sobrecarga tinha que ser eliminada de alguma forma ou eu ia no mínimo ser muito idiota com todas as pessoas a minha volta.

A melhor forma de eu me acalmar atualmente é lendo, mas visto que eu andava bem cansada, resolvi ver um filme, e não somente um filme como um filme que a maioria das pessoas classifica como “fútil”. O fútil funcionou, eu melhorei bem de humor depois de ver, e acabei embalando nos filmes, fui da comédia a tragédia, apesar de que ambas tem muita coisa em comum.

Eu sou uma pessoa que ri muito vendo filmes dramáticos, eu me culpava um pouco por isso, mas descobri que é justamente a tragédia que dá a graça a comédia; quando ultrapassa dos limites é aquela coisa de “seria cômico se não fosse trágico”.

O cinema influencia a nossa cultura atualmente de tal forma que o teatro era para a cultura Greco-romana, as pessoas viviam frustrações em suas vidinhas e descontavam todas elas vendo o teatro de tragédia grega.

Isso porque quando vemos uma longa história de amor, humor, sexo, sofrimento, desejo, traição, etc., vivenciamos um fenômeno chamado ‘momento catarse’, projetamos tanto nossas dores no que estamos vendo que por fim saímos curados daquela sessão que inicialmente parecia estar piorando a questão.

Deve ser a razão de tanto indie ter curtido o filme “500 dias com ela”, ou da Adele ter essa explosão de sucesso justamente no disco mais fossa e pé na bunda dela.

Acabamos que regenerando nossos sentimentos descontando na frustração dos outros (no caso do meio artístico), e até esquecendo por um momento os próprios problemas.

Por isso funciona, funciona porque afaga qualquer frustração, e se vivemos no universo das mentiras, temos o cinema e a literatura para mentiras aceitáveis. Isso é bem confortante.

Depois de ler Zygmunt Bauman confesso que fiquei bem perturbada. Precisei de muitas doses de “momentos catarse” para poder me acomodar e me confortar novamente, embora fossem passageiras.

Isso explica talvez porque eu (e o Nietzsche) somos tão fãs de música.

Por isso dizem que a arte é o desprendimento total do espírito humano.

Eu já percebi que quando me sinto frustrada dou play com mais frequência em The Smiths, Adele, Florence + The Machine, etc.

Não que eles sejam ruins, mas a melancolia deles me dá muito prazer. E acho que é por isso que admiro tanto.

Deve ser por isso também que o cinema trabalha tanto de forma escancarada ou subjetiva o inconsciente coletivo e individual.

Isso tudo por uma simples conclusão que resume a Odisseia: não dá fácil.

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Um pensamento sobre “A tragédia grega do cotidiano

  1. ”Deve ser a razão de tanto indie ter curtido o filme “500 dias com ela”, ou da Adele ter essa explosão de sucesso justamente no disco mais fossa e pé na bunda dela.”
    Olha, eu concordo, por exemplo, to ficando surda de tanto ouvir o cd novo do Converge, e só pauleira+desgraça, fico chateada de não poder ouvir o dia inteiro, porque realmente, me ajuda, a desgraça do cd < minha desgraça pessoal.

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