Eu tenho uma Teoria: O “Pessimista” é mais humano

Eu tenho uma teoria, a teoria que os pessimistas são mais humanos que os otimistas. Já aviso, post longo.

Tava pensando no problema que me tornei (na verdade, mais evidente), que agora sou desalmada por não crer em religião, que não tenho sentimentos por não acreditar que eles estão no coração, e que não tenho a graça porque tirei os terços do meu útero, ou basicamente, que sou a favor da liberação do aborto.

E cheguei a todos esses pensamentos por simplesmente ter levado um choque de realismo, tanto pelo meu cotidiano particular quanto por estar lendo mais conteúdo acadêmico do que em qualquer outro período da minha vida.

Só que a forma de lidar com esse realismo perpassa por todo tipo de filosofia de vida. A única coisa que consegui tirar dos preceitos religiosos é que em sua maioria eles te dão um conforto instantâneo e um sentimento de conformismo. Quando abandonei a religião, só sobraram os problemas.

Isso é bem desesperador.

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Mas por outro lado, tive que encara-los firme de frente, o que fez com que eu tenha me desenvolvido e muito nesse pouco espaço de tempo, e adquirido maturidade muito rapidamente.

Ou seja, a religião me cegava aos problemas em me vitimar apenas, ou em fazer o que o Nietzsche chama de vontade de potência, me colocar acima das demais pessoas que me fizeram algum mal, me ‘endeusar’ mais, e não solucionar nada.

Não resolvi todos os problemas, mas certamente o resultado está sendo mais alcançado.

É um pessimismo encarar a realidade de frente sem encher ela de poesia ou de metafísica, porque você entra no que chamamos de miséria.

De repente, você se dá conta que nem tudo tem resposta. Quando você admite isso, é quando você vai à busca das verdadeiras questões.

A miséria também é intelectual, é quando você admite não saber de tudo, como as religiões dão esse falso entender sobre absolutamente cada evento da vida, se você fica sem, de repente você também fica sem todas essas respostas.

De repente, você fica burro.

É verdade, mas se você admite que não sabe, vai em busca do saber. Em geral ignoramos o que acreditamos entender.

E o resto foi pura consequência de buscar o saber, e transforma-lo, ler e mudar de visão, ver por outras óticas.

Sempre ouvi dos meus professores que duas cabeças pensam melhor que uma, nesse ponto o livro não é a cabeça do autor, mas é uma ideia da própria. E é verdade que enriquece muito ver o mundo por outros ângulos.

Como fiz história por uma questão de curiosidade cultural, mais do que qualquer outra coisa (me vi obrigada a aprender política, e aprendi a gostar), eu sempre tive muita curiosidade sobre cultura popular.

Quando você vê que tudo é muito imposto (outro pensamento pessimista), que tudo é condicionado, que nada é natural, metafísico, e bla bla bla, você se abre pro questionamento. Você se permite mudar verdadeiramente, porque, não tem nada de anormal nisso.

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“O pessimista é aquele que se agarra a tragédia.” Discordo completamente desse pensamento, para mim, o otimista que acaba se agarrando a tragédia. Pelo simples fato de o otimista se agarrar somente ao ato ruim de quem o cometeu, e não ver a pessoa por inteira.

O pessimista analisa a tragédia com mais frieza, por exemplo, o pessimista acredita que temos sim um lado ruim, e que se você instiga-lo, ele aparecerá.

A criança que vê sua mãe sendo humilhado dia após dia, na sociedade, vai se tornar o violento, o assassino, o suicida de amanhã. E isso é um fator que pode acontecer com qualquer um.

O otimista cria uma falsa ótica que todo ser humano é inclinado para o bem e somente para o bem. Então, não é normal você cair no “lado negro da força”, no que é imoral. Aí as explicações se limitam a simplesmente diminuir o que há de humano naquela pessoa, em simplesmente julga-la inferior, fraca, “não é de Deus”.

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Limita muito a questão entre bem e mal, isso desumaniza. E é muito próximo do pensamento fascista, aquele da lei “da natureza”, os mais fortes sobreviverão. E todas as bobagens do tipo.

Ou, falando bem francamente, os mais sortudos sobreviverão. Você joga a questão para a sorte do destino, a sorte de nascer em uma boa família, a sorte de não ser violentado pela sociedade, a sorte de ser bem sucedido, a sorte, o destino, e não verdadeiramente a ação.

Tudo se torna sorte e azar, como na época dos deuses antigos em que acreditavam que Zeus mergulhava humanos em um cálice de sorte e azar, diariamente (livro: A Cidade Antiga).

Se você joga na mão da sorte, automaticamente está tirando suas responsabilidades, e está acreditando na metafísica da “loteria”.

Enquanto, o pessimista vai acreditar que não é uma questão de sorte ou azar, de individualismo apenas, é uma questão que amplia uma rede de possibilidades, não adianta nada você ter tudo do bom e do melhor e fechar os olhos pra sociedade.

O menino que pede moedas na rua, é espancado pelo pai quando não as recebe, pode ser aquele que vai amanhã lhe dar um tiro na cabeça.

Pois dar poder ao ser humano, é criar suas possibilidades, principalmente de vingança contra essa própria sociedade.

Dar uma arma é um poder, para uma criança, ou jovem, que passou a vida inteiro marginalizado, uma coisa fora da lei a mais ou a menos, não é problema.

E o otimista vai acreditar que foi um evento de azar. Ou seja, não vai olhar o todo, o podre da sociedade, menos ainda das suas próprias atitudes. O inferno vai ser sempre os outros.

Ele vai viver na base do niilismo, ou seja, de uma filosofia de vida, ou crença, que acaba em absolutamente nada. Acreditando fielmente que a humanidade está “caminhando para algo”.

E esses exemplos que eu dei são extremos, tanto que nas aulas percebo que os alunos que não são tão envolvidos em doutrinas otimistas ao extremo, entendem bem mais o nazismo e o fascismo em todo seu contexto do que os demais.

Porque, eles não vão ver a história na base do herói e do vilão, e sim a problematização social. Não vai se preocupar em julgar, mas sim em entender as relações de poder e como o espírito humano modifica em extremos, seja para o lado bom ou ruim. Não tem exatamente uma regra.

Ou seja, entendem a aula para valer, não se preocupam em apenas penalizar os judeus (que hoje estão massacrando os palestinos, e muita gente fica cega a isso), mas em entender o pensamento, sem sucumbir.

Os otimistas são mais perigosos. Quando eles entendem, tem uma relação de passividade, de sucumbir a aquilo, se um otimista entender o nazismo, vai ser porque ele vê algo de “bom”, ou seja, vai curtir a ideia de fascismo, lutar por ela, etc., nem tudo tem um lado bom.

Também não penso que quem costuma dizer “tocar o foda-se” pode ser classificado exatamente como pessimista. Para mim, é apenas um otimista frustrado, que saí do analisar as situações para um desistir de compreender elas e as generalizar. Como um “nenhum político presta, a política é tudo igual”, afinal, é mais fácil você sair do otimismo assim, saindo do pensamento limitado para outro limite, o que nada vale apena.

Por fim, o pessimista procura mais a solução e acaba agindo mais na direção do bom do que o próprio otimista, que naturalmente vira o frustrado citado acima.

Não é fácil ser “pós-moderno”, tudo te condiciona a achar que existe algum bem maior que a própria vida. Ser pós-moderno é acreditar que a humanidade não está girando em torno de absolutamente nada, e cair na questão da miséria que comentei no início do post.

O moderno acredita que a humanidade está indo para algum lugar, o que não deixa de ser uma mera ilusão, pois ele vai “indo” em torno do desconhecido com velhos preceitos, com preceitos que não se encaixam mais na realidade atual.

É preciso entender o pensamento moderno para entender o atual, mas, para uma mudança, na minha visão, é necessário um desapego disso.

Eu acredito que o pessimista dá mais chances do marginalizado ser entendido do que o otimista, que acredita na utopia da sociedade perfeita.

A liberdade moderna não passa de um tirar a liberdade do outro. Ou seja, a luta pela liberdade se torna a luta pela opressão.

A minha liberdade em dar uma aula, por exemplo, é a opressão dos alunos ficarem em silêncio pelo tempo determinado por mim.

A liberdade dos alunos é não permitir que a aula aconteça.

Isso tudo foi causado por uma inversão de valores que Freud aponta. A ideia de liberdade está para oprimir apenas, e não em passar informação e ciência, absorver informação e ciência, mas somente nesse embate de “quem domina quem”.

Na visão otimista, eu me limitaria em apenas dizer que a liberdade é a igualitária para todos atualmente, e que todos temos os mesmos direitos mesmo que não temos os mesmos meios.

Ou seja, na cabeça de algum otimista aloprado é possível que uma aula aconteça com a liberdade dos dois lados.

Pode até acontecer, mas funcionar, não.

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Concluo que o pensamento positivo pode ser interessante para vermos o outro lado da moeda, se eu acredito que os alemães são seres humanos como eu, e que eles naturalmente não se inclinariam para o nazismo sem uma razão, eu estou tentando ver o que há de bom no espírito alemão diante do momento mais tenso de sua sociedade histórica.

Porém, é diferente de eu simplesmente fingir que não vejo o problema e ver apenas o lado “bom”, que é um bom associado a mim, já que é a minha percepção do que é bom. Isso limita muito, para mim, bom é poder usar uma bermuda no verão, mas para uma muçulmana xiita, não é necessariamente.

Se eu vejo o problema, eu o encaro, se eu vejo que não tenho nada além da minha própria ação, eu não só o encaro como tomo partido.

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4 pensamentos sobre “Eu tenho uma Teoria: O “Pessimista” é mais humano

  1. Olá, mimimi. A religião não é o tema central do seu post, mas um comportamento que você atribuiu indistintamente aos religiosos. De que eu discordo. Pra mim, primeiro se manifesta muito intimamente, cada um tem seu próprio sentimento. Depois, a religiosidade não leva ao conformismo. É, ou deve ser, para ser coerente, o primeiro e mais forte estímulo à busca do aperfeiçoamento pessoal e social. Ou alguém será capaz de dizer que Gandhi ou Madre Teresa eram alienados. Minha crítica aos filósofos e cientistas céticos é que generalizam o fenômeno religioso, suas características, consequências e possibilidades, de acordo com a experiência pessoal e com a limitação da própria visão, e atacam-no todo. Por isso, nem pessimistas, nem otimistas, sejamos realistas, o que, de acordo com a minha humilde e não solicitada opinião, também é a vontade de Deus e prática de “bons” religiosos. Não um privilégio dos ateus. Um abraço!!!

  2. Ah, o começo do meu comentário ficou meio confuso. Eu quis dizer que o tema central do seu post é um comportamento “o otimismo”. Depois, que a religiosidade se manifesta muito intimamente. Parabéns pela escrita!!!

  3. Muito obrigada hahaha, sim, eu entendo que talvez eu veja o lado negativo da manifestação religioso na cabeça das pessoas, mas eu usei a religião como apenas um modo de exemplificar. O efeito “o segredo” na cabeça das pessoas surte de forma parecida. Eu curto essa ideia da física quântica de concentrar energias no pensamento para modificar a realidade, porém isso se for levado para o extremo acaba te deixando um tanto endeusado entende? Do tipo, não importa o que acontece a minha volta desde que não venha a me atingir. Automaticamente tu se põe num plano de superioridade muito complicado. Eu dediquei meu primeiro ano de faculdade a estudar todo tipo de religião, porque sempre gostei de cultura.

    Porém, conforme fui estudando, perpassei pela ideia de fé para uma fé cega mais presente, principalmente no cotidiano do brasileiro.

    O otimismo é um tanto assim, eu coloco muita perspectiva nas pessoas, elas me decepcionam, eu sou bonzinho demais e todo o resto é podridão.

    O pessimismo que coloquei é mais um ‘eu espero de tudo das pessoas’, e quando elas cometem erros, é menos chocante, mais esperado, e a reação é automaticamente mais humana.

    Falo isso porque passei por um grande processo para tudo isso, eu não nasci cetista hauahuhau, eu nasci e fui criada em uma cultura ortodoxa. Para mudar de pensamento, precisei cair em uma teia de contradições muito intensas e não foi um simples abrir de livros, porém os livros funcionaram como inspiração para esses tais pensamentos.

    Penso que a religião cria uma fantasia, a fantasia que tudo que te cerca é bom e tudo que vem do mal tem uma explicação sobrenatural.

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