Você deseja o novo ou o condicionado?

Uns dias atrás eu passei um disco para um amigo meu. Avisei-o que a banda saía da linha tradicional do que ele estava acostumado, mas que o disco era muito bom, digno de se arriscar ouvir.

 

Ele escutou, perguntei quais as impressões dele.

 

_E ai? – perguntei para ele esperando que fosse dar uma crítica ao estilo da banda, preciso dizer que naturalmente pergunto isso a quem eu costumo imaginar uma resposta no mínimo interessante. Diferente disso, não faria nada.

_ Nada – respondeu para meu total desespero e expectativa – Então, eu não tenho exatamente uma opinião, quem sabe se eu escutar umas cinco vezes mais, eu posso dizer algo.

 

Fiquei olhando fixamente pra ele, eu esperava uma crítica, independente de ser positiva ou negativa. Não tive nenhuma das duas, e mudei de assunto.

Pensei comigo, a cabeça dele já não experimenta mais, só condiciona.

Tanto que ele precisa escutar um disco novo, de uma banda nova, como a rádio faz com as bandas. Precisa ouvir milhões de vezes a mesma coisa para ligar o lado crítico dele, ou simpatizar ou criar uma antipatia.

 

 

É como se estivéssemos ligados em um eterno repeat apenas para funcionarmos, por isso o ensino condicional, ou seja, aquele que é feito na base da pura repetição funciona, e é o aceitado mais facilmente do que o por associação. A cabeça das pessoas estão funcionamento só na base do condicionamento, isso é muito grave, principalmente no quesito inovação, ninguém quer uma inovação verdadeira, de dentro para fora, e sim só de fora para dentro, aquela pronta, que vai se repetir milhões de vezes até parecer que faz parte de você desde “sempre”.

 

Como aquelas malditas músicas que tocam milhões de vezes nas rádios, e não somente nas rádios, nas festas, nas baladas, nos bares, nos carros pelas ruas, pela televisão, pela propaganda eleitoral, é um universo da pura repetição.

E de repente, você se pega uma hora mesmo com ódio dos malditos cantando a música mais detestável do planeta.

 

Isso causa um retardamento mental gente, é uma falta de raciocínio tamanha. Principalmente, sua mente só age para o que lhe foi condicionado, e tudo que saí do condicionado você rejeita, e com muita, mas muita insistência, aceita.

 

Afinal, o mantra realmente existe, e isso não quer dizer que ele seja necessariamente bom.

 

Como pode ver, a mente é diariamente povoada por cenas de violência, nosso consciente e subconsciente povoados de puras cenas de crimes, cenas essas que podem perigosamente saírem como um tiro pela culatra.

 

 

Eu li, o pouco que li sobre psicanálise costuma dizer que isso é um sentimento primitivo de resistência. Jung diz que os trogloditas costumavam assassinar qualquer membro que se diferenciasse demais do tradicional, e hoje, não matamos (na teoria), mas criamos uma barreira densa emocional o suficiente para rejeitarmos tudo que consideramos ‘estrangeiro’. Isso é uma barreira também para a tolerância.

 

Isso só dá mais impulso ao condicionamento, ao você nunca refletir se é normal, certo, ou não, o que você simplesmente faz por pura repetição.

 

E se tudo que é não nobre é mais fácil de fazer, odiar, guardar rancor, intolerante, será que não usamos essa repetição dessa forma negativa? Repetir o lado bom requer um pouco de fraqueza, um pouco de desapego.

Se hoje as pessoas tem medo de ouvir uma música nova porque isso requer o esforço de ouvir outras 30 vezes no mínimo para gostar, como será possível a alteridade? Ou em outras palavras, a tolerância entre o que é novo e diferente para você.

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