E o racismo, fica por isso mesmo? II – Problematizações

Agora vou tornar a questão mais densa, até onde a minha mera ignorância pode chegar.

Tenho três contrapontos sobre a questão.

 

 

Muitos historiadores batem na tecla da questão da discriminação do negro desde o fim da escravidão, o que os romances globais costumam contrariar (hahaha).

Se os afrodescendentes eram obrigados a trabalhar forçados por anos, a ideia de liberdade era a ideia de não trabalhar.

Diferente para o branco europeu que já tinha alguma ideia de constituição e legislação, para ele, liberdade era ter a liberdade de escolher por suas vocações onde trabalhar e receber seu salário.

 

Caso a diferença não está berrante o suficiente, para piorar a situação, o escravo era visto como propriedade do dono era tratado para no mínimo sobreviver e render mais (com um lugar para dormir, e comer) como um mero gado. Ele era tratado o suficiente para sobreviver, diferente do tratamento cordial que em “casa grande & senzala” aparece. Aliás, esse livro só é bom do ponto de vista cultural, porque do ponto de visto social é um verdadeiro desastre.

 

Portanto, ser escravo era ser objeto do seu dono(a), propriedade, inclusive objeto sexual. O escravo estava submetido não somente a trabalho forçado, mas também a todo tipo de loucura sexual de seu dono, inclusive de perversão.

 

Enriquecendo um pouco o post, por parte da psicanálise sabemos que a questão da perversão sexual também está muito ligada a ideia de inferioridade, que quem comete o crime de, por exemplo, estuprar, tende a utilizar. Eu considero a pessoa inferior a mim, portanto posso utiliza-la para qualquer tipo de loucura com nenhum mínimo de respeito.

 

Eu não posso afirmar que existia muito crime sexual contra negros escravos, mas eu posso dizer que por uma questão de dedução, que com certeza a fronteira entre a perversão, a violência sexual e a violência moral eram um tanto vigentes e fazem todo sentido.

 

Isso tudo, associado ao trabalhar.

Se considerarmos os anos de abolição até então, foram pouquíssimos. Olhemos para a Palestina, que contém tradições de 3000 anos atrás ainda sim, mesmo com todo o massacre. Imagina em uma curta linha de espaço e tempo, não é tempo para “virar a página” o suficiente, ainda mais com o problema sendo tratado por baixo dos panos.

 

Para os ex-escravos a questão do trabalhar não foi literalmente trabalhada, afinal eles não tinham noção alguma de trabalho, de reivindicar direitos, só sabiam os ofícios e a lembrança que tinham do tema era a pior possível: a escravidão.

 

Ser ex-escravo em uma sociedade libertária não era nenhum pouco bom, diferente do que a visão ‘romântica’ que a mídia brasileira deu ao assunto foi vestida uma vestimenta de heróis aos brancos que foram a favor da abolição e o ex-escravos ficaram apenas livres para morrerem de fome.

 

Quando de heróis não tinham absolutamente nada, pois as pretenções contra abolição tem haver com os ingleses. Sim, os ingleses, que também não tinham nada de libertário como dizem por aí, era um interesse comercial bem simples, poder de compra.

Eu tenho poder de compra, posso mover uma economia, e como o Brasil ainda mantinha relações fechadas com o comércio inglês, interessava mais a criação de trabalhadores assalariados justamente e unicamente por isso.

 

Estava ficando cada vez mais caro ter um escravo, portanto ficava mais barato ter pencas de assalariados do que comprar um “mísero” escravo.

 

Nesse momento entram os europeus, e principalmente, os italianos, que já estavam “domesticados” democraticamente, e isso coincidiu com outra pretensão do governo: o branqueamento da população.

 

Portanto pode-se ver que foi construída desde a base uma exclusão dos negros, do que de fato uma inclusão social. E se possível, até uma eliminação da etnia.

 

O problema é que esses governantes não imaginavam que o gene dos negros é predominante, ou seja, não haveria um branqueamento verdadeiro, apenas uma mistura.

 

Vemos outra questão que até hoje é latente. A questão da intolerância.

 

Complicarei mais ainda a questão (inclusive para mim, que agora se tornou um desafio essa ideia), farei uma ponte entre essa intolerância do ontem e de hoje.

 

A falta de intolerância por parte dos europeus foi o fechamento sofrido no mundo medieval. Esse fechar das fronteiras e justamente o não explorar dos vizinhos tornou o europeu não somente mais centrado, mas lhe deu uma identidade única, os católicos fizeram todos os europeus ganharem um comportamento padrão.

 

Se, eu admito que tenha um comportamento padrão estou automaticamente excluindo os demais, os que são diferentes de mim. Até aí não é problema, o problema é quando isso se torna uma questão de autoafirmação.

 

Essa autoafirmação funciona como? Ela funciona com a minha autoafirmação em cima do outro, ou seja, através de uma forma de soberania, da vontade de potência que Nietzsche costuma afirmar.

 

Portanto a tolerância que seria a ponte entre uma identidade e outra não existe, aliás esse tipo de tolerância tem nome, se chama Alteridade.

 

Se os europeus se tornaram sagrados, escravizar seus semelhantes não era correto, nem nenhum que declarassem sagrados e com alma (como o caso dos índios catequizados).

Para escravizarem, deviam declarar sem alma. O que acabou acontecendo com os negros, pois com a visão de um Jesus eurocêntrico, loiro de olhos azuis, ficou difícil lidar com qualquer tolerância étnica social.

 

Essa falta de tolerância se dá principalmente pela vontade de potência, pelo sentimento de superioridade.

 

E o sentimento de inferioridade também é catastrófico para a humanidade, não adianta você querer se comparar ao padrão do loiro de olhos azuis se tu não tens cabelo loiro, nem olhos azuis, por mais que o mundo tenha ficado bizarro o suficiente para fornecer tudo isso superficialmente para você.

Esses padrões são uma vontade de potência, das quais milhares de pessoas são atraídas para essa teia do auto flagelamento, da negação de si, da própria auto inferiorização.

 

Todos esses sentimentos que apontei historicamente e hoje, são tão presentes com as questões étnicas sociais quanto se pensa.

Por exemplo, o absurdo é tão grande que as poucas pessoas afrodescendentes que aparecem na mídia são com o padrão das pessoas brancas, o único fator é a pele. Já que as pessoas se apegaram apenas a questão da pele, se tornou uma resolução superficial.

 

A primeira coisa que precisa ser trabalhada na sociedade é que, temos direitos iguais por uma questão urgente de comportamento de tolerância, nem que seja na marra, nem que seja na base do castigo.

E em segundo, é que precisamos urgente aceitar as diferenças, em não fingir que elas não existem, as pessoas levam os “direitos iguais” ao pé da letra, para um “somos todos iguais” que simplesmente não existem, nem funcionam para a eliminação do preconceito.

 

É bem claro que somos iguais só perante a lei, temos todos nossas particularidades, e isso nos fazem diferentes, com gostos diferentes, particulares, exclusivos. Únicos.

 

Ou seja, é urgente a questão da alteridade. Precisamos criar um nível de tolerância, coisas idiotas como “se você acha que funk é melhor compartilha, se acha que rock é melhor curte” deviam cair por terra, chega dessas comparações medíocres de vontade de potência e superioridade.

 

 

Se você gosta de rock, que bom, temos um ponto em comum, se gosta de funk, é uma diferença entre eu e você e isso não deve ser visto como algo ruim, e sim como algo particular. Simples, o respeito e não a autoafirmação constante como essas mensagens de “curte e compartilha” que deve ser de fato exercitado.

 

Esse foi um exemplo que eu dei para verem o problema de uma forma mais simples, mas no caso do racismo ele é bem mais grave, pois se uma pessoa sente repulsa pela outra é por essa questão da falsa superioridade, preciso ter algo para dizer que é melhor em mim e pior em você, e usar uma questão que tem haver com a etnia é muito preocupante, principalmente socialmente, pois você além de repreender todo aquele grupo, tira qualquer liberdade de escolha dele de se tornar melhor que você.

 

Portanto, onde está toda a famosa cordialidade brasileira? Que cordialidade é essa que é baseada na vontade de potência, de comentar da podridão do vizinho, mas, ver somente as flores do seu quintal?

Isso já assunto para outro post.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s