Maldito ano de eleição, mal posso ver meus movimentos!

Detesto ano de eleição, detesto porque todo mundo de repente vira ativista em política. Hoje eu estava bem exausta, não pelo trabalho, mas por uma dor de garganta chata que persistiu em ficar, mesmo com eu convidando ela a se retirar várias vezes.

 

Quando recebi a notícia que ia substituir duas aulas de geografia, a pedido de uma professora que teve que sair de última hora. Eu gosto da escola, eu gosto da professora que fez o pedido, e também (mesmo que seja uma relação de não muita reciprocidade) gosto dos alunos. Então aceitei o desafio.

 

 

Peguei as aulas de geografia sem um pingo de planejamento, tive que me virar, a sorte é que humanas sempre dialoga com humanas, eu podia dar uma aula interessante ainda sim.

Pensei em dar uma aula de política, pra diferenciar um pouco o currículo, quando cheguei com a proposta é óbvio que ninguém quis. Por fim, eu podia dar aquele sermão enorme e prolongado sobre participação política, mesmo que você seja indiferente, ainda sim está participando, mas, não pude culpa-los por detestarem o assunto, esse ano o torna detestável mesmo (assim como todos os outros anos políticos).

 

Por fim, toda a minha empolgação foi a zero, eu precisava de um impulso da parte deles, um único interesse para que eu pudesse destilar toda a minha (pouca) energia, e ninguém, absolutamente ninguém se interessou.

Mesmo assim dei a aula, mesmo sabendo que ninguém ia querer, só dei uma aula bem básica de diferenciação entre esquerda e direita. Pelo menos ficou a minha modesta tentativa de eliminar qualquer comentário imbecil de “esquerda e direita são a mesma coisa” que qualquer um pode ter tentado por na cabeça deles.

 

Não os condeno pela falta de interesse por vários motivos, um dos principais era que era a última aula do dia e eu estava indo pela segunda vez na sala (sendo que havia dado aulas duplas anteriormente de história).

 

Eles estavam cansados da escola, cansados um dos outros (geralmente na sexta aula que o conflito rola solto), cansados de mim, com fome, ansiosos, entre outras coisas.

E pior, a única referência política deles são essas propagandas que valem menos que umas toneladas de merda humana. Misturando sertanejo universitário com política, “para nossa alegria” com política, entre outros insultos a inteligência.

 

Por fim, aquele papo de tudo ter senso de humor e estar deixando o ser humano imbecil faz todo sentido. As pessoas estão priorizando a piadinha, isso é um desespero e decadência tão grandes que fico realmente desesperada internamente pela situação das pessoas, pelo menos das que vivem por perto, na qual tem que engolir essas campanhas ridículas, isso quando não as acham geniais. Certas coisas não precisam de senso de humor, coisas tipo:

Manhã de segunda-feira

Campanha eleitoral

Preconceito

 

Pior é o sujeito que pensa que isso é tolerância, e não imbecilidade, e se torna o chamado “bundão” da sociedade, para todos os momentos de conversas sérias e complexas ele se passa por inteligente por ter sempre uma piadinha na ponta da língua.

 

Não sou contra o senso de humor, sem ele não sobreviveríamos, mas, confesso que fico realmente com pena de gente que pensa que humor é sinônimo de conhecimento.

 

Eu não vi em todo esse tempo de proposta um (dos) que estão envolvidos em política fazerem uma proposta que preste para a comunidade.

 

Aí eu caí em uma lucidez tremenda. Quando eu brigo com as pessoas dizendo que esquerda e direita tem suas diferenças sim, que considero um absurdo quando dizem que é tudo a mesma coisa, eu só estou olhando o meu lado, o meu estudo, e tendo como referência pessoas que como, ou tanto quanto eu, estudam o assunto e o levam a sério.

 

Mas, olhando por esse lado das campanhas eleitorais, realmente, a esquerda e a direita estão realmente se confundindo entre piadinhas e jingles, entre brigar entre tapas pelo número “12345”, e coisas do tipo. Com a seriedade que leio de política e comento com as demais pessoas que se interessam como eu, eu ia parecer uma doida com amigos imaginários para eles.

 

 

Esse tipo de político não importa sua posição, pois nem ele mesmo sabe muito bem o que tá fazendo. A parte mais curiosa da história vem agora.

Conversei com um sujeito que estava se candidatando por um partido de esquerda, no qual, seus líderes tendem ao radicalismo, ou seja, querem mesmo a implantação de um sistema de inclusão social, que pensam na ideia de uma comunidade incluída em todos os patamares e em tudo que é considerado digno para uma vida em sociedade.

 

Conversei com esse sujeito já esperando todo esse conhecimento, quando eu perguntei o que era socialismo, ele me olhou com cara de interrogação, afirmou que queriam o comunismo. Bom, o objetivo do socialismo é o comunismo. Ele me olhou e riu, falou que era contra o socialismo.

 

*facepalm by Lula

Deu um estalo na minha cabeça, pensei então, bom, anarquista ele não é. Se estiver em busca de ser eleito e não de um sindicato, ou a desapropriação total de poderes executivos, não é anarquista de fato.

 

Foi quando pensei, esse sujeito está se candidatando em partidos de esquerda porque a esquerda hoje é forte, e só. Ou seja, porque é provável que ele seja de fato eleito.

Senti um “belo” gosto de decepção, o que estão fazendo com a esquerda?

 

Pior que o sujeito foi embora e em entregou o “folhetinho de santo” dele, com a cara dele estampada e o número, falou para eu votar nele, só não falou uma proposta sequer para me convencer de votar. Nem se deu ao trabalho, e de fato na maioria das vezes nem precisa se dar.

Não é atoa que está se tornando tão desunida, quando na verdade devia se unir mesmo que com as diferenças ideológicas. A desunião da esquerda é o fortalecimento da direita.

A direita só está nessa decadência toda por conta do colapso do sistema.

 

E pensei mais fundo, o que estão fazendo com a política? Está literalmente tornando ela hilariante, uma divina comédia, tragédia, entre outras coisas.

 

Eu me lembro de ler sobre o que era ser politicamente correto. A crítica do politicamente correto era o cara que ganha milhões e doa agasalhos usados para os mendigos não morrerem de frio nas ruas (mas, sim de fome). Ou seja, o cara que está nos eixos da “não culpa”, ou do famoso “fiz tudo que podia”.

Mas hoje conseguiram tornar o politicamente incorreto PIOR do que o politicamente correto. Tornou uma imbecilidade tamanha, a ponto de ser preconceituoso, racista, sexista com a desculpa de ser politicamente incorreto.

 

Fiquei pensando, como nesse imenso cenário de dementes (familiar à frase?), os jovens vão se interessar por política? Realmente é impossível, a política que eu leio está bem longe da realidade deles, e infelizmente por mais que a sociedade pense que o professor é uma espécie de figura divina reparadora de cagadas da sociedade, não podia enfiar garganta abaixo tudo que penso.

 

O pior é que isso é uma verdadeira armadilha para não se interessarem pelo assunto e gerar aquela bola de neve; não se interessam, não procuram, não agem, não mudam, só esperam até o sistema os apertar tanto que eles são enquadrados uma hora ou outra.

 

E as pessoas que esperam as mudanças, que tentam fazer a diferença como eu, elas sentem esse caminhão passar por cima delas, dia após dia. Mas, eu ainda acredito.

 

p.s.: e a ironiazinha do nome do post foi proposital.

 

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Um pensamento sobre “Maldito ano de eleição, mal posso ver meus movimentos!

  1. Antes de entrar no assunto central do post: lanço uma pergunta: será que haverá um dia em que poderemos dar uma aula como se estivéssemos na ágora de Atenas, discursando sobre a vida e o universo ante uma platéia silente e embasbacada??? Isto é, será que seremos o que queríamos ser quando pensamos um dia em ser professores??? Mas vc está certa em não condenar os alunos, enquanto estávamos no lugar deles fizemos igual e até pior… E, se formos ver bem, ainda fazemos isso no ensino superior (com a ligeira diferença de que agora somos pessoas adultas e educadas, e que, mesmo que tudo esteja uma merda, engolimos a pica a seco e fingimos todo o interesse do mundo…hahahahahahahahaha)…

    Sobre o assunto principal, isso me faz lembrar de um professor que deu aula na escola em que eu trabalhei e que agora está nos aporrinhando com essa história de ser candidato a vereador… Quando ele foi atrás de mim no face para pedir o meu voto, eu perguntei três vezes a ele qual era a sua plataforma, e acredita que ele não me respondeu em nenhuma dessas vezes??? Quando eu dei uma de Prof. Girafales e perguntei qual a causa, motivo, razão ou circunstância da candidatura dele, ele me deu aquele discursinho vazio de mais saúde, educação, lazer e segurança que todos os candidatos “chapa branca” têm… O certo é que isso está sendo vantajosíssimo pra ele, pois depois de anos como OFA ele acabou de se efetivar, e tão logo assumiu o cargo já se afastou pra concorrer às eleições, e assim será até o fim delas…Não será eleito, acho um cara bem intencionado, mas sem tutano…

    Mas eu não vou mentir: eu tenho a curiosidade mórbida de um dia sair candidato e saber quantas pessoas votariam em mim, isto é, quantas pessoas eu conseguiria convencer pela arte do discurso (e também pelas minhas idéias tresloucadas sobre a sociedade) Eu acredito que na primeira vez, se eu aporrinhar o povo à exaustão, eu consiga uns 300, 400 votos; tenho como comadre uma baiana destrambelhada que se candidatou uma vez e conseguiu 3 mil votos; se elegeu vereadora aqui em Guarulhos, mas cedeu seu posto ao suplente, aproveitando-se do fato de que ela estava na gestação do filho mais novo, e o suplente não por acaso era filho do prefeito na época… Se, apesar do apoio desse prefeito (hoje em dia ser “o candidato do fulano de tal” não é tão grande coisa se você é um desconhecido) uma pessoa sem cultivo algum e com uma dicção tal que de 10 palavras que ela fala, você entende 3 pode conseguir essa façanha, por que eu não poderia??? Nesse universo cheio de candidatos “chapa-branca” que só estão no certame pra conseguir votos para o partido/coligação (em troca de alguma vantagenzinha financeira bem reles, muitas vezes), ser alguém que proponha uma forma nova de ser um representante do poder legislativo ja é grande coisa….

    E este é justamente o problema: como a imensa maioria é chapa-branca, cada candidato precisa ter um diferencial pra se destacar: um nome esquisito, fantasias extravagantes, palhaçadas e piadas estúpidas, defesa de classes/corporações… E, ironia do destino, não é que a maioria resolveu optar pelo jingle??? Claro que quem perde com isso é a nossa paciência e o debate tão necessário para que alguma coisa mude… Queria falar mais, mas vai ficar pra outra hora!

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