Para quê estudar História?

Deparei-me com essa pergunta em plena aula, e tive que defender a minha “trupe”. Dessa vez não darei 12 motivos, mas juro tentar ser convincente hahaha.

Pra quê afinal estudar história? Sabe, essa pergunta faz todo sentido, para as pessoas estudar as demais matérias é tão claro.

Estudamos linguagem, a língua, o que delimita um dos nossos sentidos de nação, uma língua só, portanto estudar Português é necessário.

No mundo globalizado (pelo imperialismo dos EUA) também para se situar é necessário estudar a língua inglesa, já considerada “universal”.

Para todos, estudar matemática é mais do que essencial, é uma questão de tornar o dia a dia com mais praticidade, tudo é cálculo, principalmente em um mundo regido pelos pesos, pelas medidas, pela distância, pela moeda, etc.

E nisso a física se encaixa. Enfim, todas as matérias em geral são bem fáceis de entender o porquê de estudar, mas e história?

Por que afinal devemos estudar a história de povos que parecem tão distintos da nossa realidade, de tempos tão diferentes se geralmente mal queremos saber a história dos nossos próprios pais?

Aí eu pergunto, por que na cabeça das pessoas a história parece ser distinta da nossa? Por que para essas pessoas o que é passado é intocável e imodificável, e pior, não interfere na nossa visão de presente e futuro?

Na verdade, para quem não faz história talvez estudar história seja um simples estudar dos fatos, mas posso sintetizar essa ideia para que alguns não sintam que perderam ‘tempos’ em sua vida estudando o assunto. O ruim de ser historiador é que todo mundo vê história como algo isolado quando dão opinião, mas quando você discorre sobre quase sempre ofende a pessoa, a razão é, história lida muito com os nossos valores. 

Estudar história não é estudar todos os fatos mundanos, estudar história é estudar cultura. E o que é cultura?

Bom, o ser humano tem uma peculiaridade bem interessante, temos a capacidade de trabalhar em ‘n’ funções, até em duas diferentes, três, e ainda sim suprirmos nossas necessidades básicas.

Essa peculiaridade de trabalhar, nos torna criadores de cultura. Durante uma aula um aluno me perguntou quem inventou o homem. Não podia responder com toda certeza do mundo, mas eu joguei a minha teoria na roda.

O homem e a mulher são natureza, logo em seguida ele perguntou quem inventou Deus. Respondi que Deus é cultura, é engenho humano. Independente se ele existe ou não, veio do homem a ideia, e não o contrário, não pela ciência.

E é isso que estudamos. Tudo que parte da humanidade para uma criação, não vamos estudar as extensões de terras, vamos estudar as coisas erguidas perante essa terra. Não vamos estudar o homem e suas células, seu esqueleto, vamos estudar sua vida em sociedade, o que acontece na mente desse homem que ele tanto tenta materializar.

E da genialidade de um grande sistema complexo a pipa de soltar ao ar, é cultura.

Tudo que o homem cria é nosso objeto de estudo, mas não é somente isso, é o homem no tempo. Como já diriam os gregos, Cronos era o deus grego invencível pelo fato de representar o tempo, e o tempo não é vencido e sim nós que somos vencidos pelo tempo.

Na maioria das vezes os alunos não entendem que, aquele selinho que ele dá foi inventado na era medieval.

Que aquela sandália, foi inventada lá na Grécia. Que a música é tão antiga quanto a família patriarcal, assim como o teatro, e esse fascínio é compartilhado por todas as gerações.

Não sabe que como ele se veste hoje, é exatamente como seus pais se vestiam na juventude deles. Que a escola que estão é um modelo de prisão, para serem vigiados, feitos em tempos de ditadura e não foi modificada, a ditadura ali, viva na frente dela.

Que os nomes das ruas, são todos compostos de história, nem sempre tão nobres para serem ‘homenageados’. O pequeno jovem paulista é estadista, porque seu pai é, porque seu avô é, sem saber que esse espírito vem desde o Brasil império por conta do estado dele ter se erguido sozinho, sem ajuda da coroa, por isso essa sensação de ser “separado” do resto do país.

Esse espírito que em minha opinião não faz sentido nenhum prevalecer hoje em dia, mas ele tem.

Não sabe que essa necessidade de tecnologia hoje tão criticada foi o sonho de muitas gerações anteriores, terem os relacionamentos aproximados.

A pequena jovem que sofre de bulimia não sabe, mas as feministas lutaram para ela pensar exatamente o oposto, aceitar seu corpo como ele é e ter orgulho de ser do sexo feminino e não sentir tanta repudia que só se sente bem com um homem ao seu lado, só se aceita como mulher a partir desse momento.

E diz que a mulher já conquistou sua liberdade sexual, que as feministas do passado conseguiram isso e não faz sentido o movimento seguir em frente. Essa falta de diálogo entre o que o passado pretendia e o futuro é, cria essa falsa impressão de conquista e julgamento errôneo do presente.

O presente é fruto do passado, assim como essa ânsia de que tudo melhorará no futuro é uma síndrome de mundo moderno, que infectou mais a humanidade no séc. XX, o século que o avôs delas viveram, pais, e eles acreditam que é passado, mas estão vivendo tanto esse século quanto imaginam, estão sofrendo tanto a ressaca das guerras e das ditaduras quanto imaginam.

Essa ânsia de viver sempre do presente para frente, e no fundo sentir essa crise de identidade absurda da qual as pessoas não se identificam com a própria localidade, com a própria família, não entendem o processo como um todo, veem o mundo da forma mais singular possível, como se ela fosse uma pessoa que vive numa bolha e não sofre influência externa nenhuma.

Seu pensamento ainda é antigo e medieval, caso contrário você não enterraria seus entes queridos, um costume antigo, muito antigo. E o fogo, o fogo da vela que é o que aquece os mortos, que conecta com os santos, é o mesmo fogo que os gregos a mais de 5 mil anos a.C. acreditavam ser a deusa da vida, da vitalidade.

O mundo divino e o fogo, são tão antigos, são costumes que permaneceram.

E os que não permaneceram? São menos importantes?

Claro que não, os que não permaneceram são exatamente os mais importantes e os que na minha honesta opinião deviam ser mais frisados pelos professores. Existe um discurso em que você para dar aula de história deve dar uma aula somente “diálogo passado-presente”. Para mim, isso só torna a questão mais doentia ainda desse presente eternamente contínuo. É importante sofrermos o choque do diferente, só assim iremos refletir sobre o que acontece em nosso tempo verdadeiramente.

Marc Bloch, que fez o livro “Apologia da História” em sua obra frisa que a história é sempre contemporânea, pois é sempre uma visão do agora para o ontem, por isso é uma matéria tão enriquecedora para o intelecto, tão abrangente para a visão.

Saímos constantemente do que consideramos normal e certo, para isso.

Quer um exemplo de coisas que não permaneceram e devem ser abordadas em minha opinião?

Os valores antigos eram voltados pelo quanto um homem e a mulher também, que a questão da ostentação material não significava nada. O importante era o saber, o conhecer, e o relacionar com os demais humanos. Quanto mais você buscava o saber, o conhecimento verdadeiro, mais respeitado você era.

E esse saber não estava relacionado a ter uma resposta a tudo, mas a ser bom no que você fazia.

Outra questão é na idade média, assim como em tempos antigos, não era admissível que um ser humano morresse de fome, ou passasse fome. Nascemos tão acostumados com essa violência contra o viver, que achamos até ruim quando um mendigo se aproxima, não vemos como essa pessoa foi desumanizada e marginalizada pela sociedade.

E pior, a mesma sociedade é tão idiota que o culpa por isso. Em tempos antigos todos se culpariam por isso, assim como na “era das trevas”, que de trevas perto de tempos atuais não tem nada.

Esses costumes são costumes que se perderam, e não é bom comentar? Afinal, as permanências são interessantes para o aluno perceber que tudo que ele faz é pré-moldado, achamos que não temos nada a ver com os humanos anteriores, mas foram eles que nos educaram por fim. Porém as “não permanências” tornam a história mais fascinante ainda, pois é nesse momento em que você vê as lacunas dos acontecimentos.

Quando a história se torna de apenas permanências dá uma impressão péssima de ‘nada irá mudar’, tudo que anteriormente foi vencido deve ser deixado de lado, assim como todas as ideias que foram derrotadas morreram com seus ídolos. O que não é verdade, o que eterniza o ser humano e isso vem desde a antiguidade, são seus atos. Eles tomam proporções infinitas, e dão a verdadeiramente eternidade da alma.

Portanto, concluí que estudar história não é só estudar os outros povos, mas, sim, se dar conta do quanto à humanidade está junta de todas as formas. Não preciso abraçar uma causa humanitária para me sentir parte da humanidade, estamos trocando atos o tempo todo e isso tem proporções gigantescas.

A parte mais incrível de tudo é o quanto você entende sobre você mesmo, o quanto percebe que fez parte de tudo isso, mesmo tendo nascido agora, com pensamento medieval, um coração antigo, um cérebro pré-histórico e ressacas contemporâneas.

Não estudamos o ser humano por sua introspecção, mas sim pelos seus atos, e se Dumbledore estiver certo (hahahaha), é exatamente isso que nos define. Por isso toda vez que você vê um documentário seja dos deuses gregos, de cristianismo, de mesopotâmia, do que for, você se sente envolvido, porque no fundo você realmente está.

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Um pensamento sobre “Para quê estudar História?

  1. Um dia desses, eu lhe falei que estava (e estou) desiludido com a História, a um passo de concluir minha licenciatura… Lhe falei (e ainda comungo um pouco desse pensamento) que a História é uma ciência sem futuro, porque quase nunca conjetura sobre o futuro, mas sim sobre o passado através da visão do presente, dentro de um corte temporal determinado… Enquanto ciência, ela ainda está muito presa dentro de sua metodologia e de seus fetiches; aquela coisa de que Bloch e Febvre puseram há 80 e poucos anos atrás no editorial do primeiro número da revista dos Annales, de “levantar-se contra os temíveis esquemas historiográficos”, ainda está por se fazer dentro da historiografia…

    Mas como disciplina do ensino básico, eu acredito que ela é infinitamente mais promissora, e por uma razão que você pôs de relance no seu texto: porque ela se preocupa em analisar a cultura humana dentro de cortes temporais determinados. E para isso, não basta apenas a História, é preciso dialogar com Filosofia, Sociologia, Antropologia, Ciência Politica, Economia e até com Psicologia… E, no entender deste pensador ordinário que agora escreve aqui, é precisamente isso que está faltando na historiografia (muito embora o pessoal dos Annales desde sempre apontasse a necessidade de e praticasse este diálogo)…

    Pelo menos quando eu terminar a licenciatura em História (deveria ser esse ano, mas com a greve de quase todas as federais, não será antes do ano que vem, com certeza) eu pretendo depois fazer outra licenciatura em Ciências Sociais (ou partir para o mestrado nessa área)… Eu pretendo (e acho que sou suficientemente competente para isso) lecionar História no ensino básico (nesse caso que citei, se pretendo fazer a outra licenciatura, seria bom dar História pro fundamental II e Sociologia pro médio – a rede pública e privada, sobretudo a pública, quase não tem professores de Sociologia; os que estão atuando são por causa da antiga formação em Estudos Sociais) mas como futuro acadêmico e de pesquisa, não dá mais pra mim, e isso eu percebi quando estava escrevendo meu tcc…

    Que, como certamente eu já devo ter falado pelo menos uma centena de vezes, versou sobre a música umbandista na ótica do patrimônio cultural imaterial (uma disciplina ainda nova dentro da História). O único grande trabalho de pesquisa que fiz em toda a minha vida foi alvo de descrédito e chacota (muto embora eu tenha recebido um 10 de meu orientador – de 40 trabalhos, só 5 levaram um 10 do orientador; tive colegas que se dedicaram a pesquisa de um tema desde o começo da graduação com um único orientador e não levou esta nota. Pelo menos de uma coisa que fiz na vida eu tenho o direito de me orgulhar, não é mesmo???) apenas porque meu trabalho não está definido dentro de um corte temporal preciso, e nem se prende nas velhas amarras e fetiches da historiografia….

    Gostaria de falar mais a respeito disso, mas como você já notou, além de ordinário, daqui a pouco vou me tornar prolixo, então é bom eu parar por aqui!

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