Divagações: Suicídio

Esse tema confesso que sempre chamou a minha atenção.

É difícil descrever um suicídio, pois, assim como um sonho, somente quem comete (ou sonha como no exemplo dado) sabe descrever exatamente o que é sentido.

Algo denso a se falar, pois, não é naturalmente encarado bem.

Por um tempo me considerei espírita. Confesso que ainda sim não tenho antipatia pela religião em si, mas caí em muitos questionamentos sobre a questão.

Minha avó se suicidou, tomou um veneno forte o suficiente para esgotar qualquer chance de sobrevivência dela. Isso quando a minha mãe tinha apenas um ano de idade.

Dizem que as famílias que contêm um suicida tendem a ter outro suicídio. Como se fosse um ciclo que nunca se fecha.

Isso é uma crendice popular, se foi de fato comprovado ou não, não faço a mínima ideia, mas coincidência ou não, futuramente a minha família vivenciou outro suicídio.

Na crendice dos espíritas o espírito que se suicida comete um dos maiores atentados a vida na Terra, tirar o seu próprio direito de viver.

É como se todos nós estivéssemos presos aos nossos carmas, e tivéssemos que por obrigação vivencia-los até o fim. Pois na crendice espírita tudo é devidamente planejado antes de vivenciar a sua suposta encarnação.

Para o espírito que viola essa lei, o “submundo”, ou mundo dos mortos não é nada generoso. O espírito é jogado por anos (até quando devia de fato morrer) em um vale de tortura mental, corporal, onde ele vivencia o momento de seu suicídio repetidamente.

Minha curiosidade no espiritismo sempre foi o suicídio. E têm várias descrições que antagonizam a dor, o medo, o frio, a fome, a escuridão impenetrável em que o espírito vive.

Porém, eu me coloquei a pensar sobre essa questão.

Pode ser que não foi exatamente uma das intenções dos espíritas quando descrevem o “umbral”, esse local, porém, essa visão é um tanto egoísta quanto aos suicidas. É uma visão muito limitada ao “eu estou suportando viver meu carma e você foi fraco o suficiente para não sobreviver”.

Não vejo o suicídio como fraqueza. Vejo o suicídio como uma ousadia tremenda a ponto de você tirar o que há de mais importante para você.

Sua vida, você simplesmente aniquila qualquer possibilidade de seguir em frente, de mudar, de transformar, de esperar, de acontecer, de viver mesmo.

Independente do que acontece depois, é uma ousadia tremenda, pois o suicida não está apenas se desfazendo de vícios e sim de virtudes principalmente, de pequenos prazeres. Está se desfazendo de suas tarefas, das pessoas que precisam dele, do futuro em que estava em um de seus pilares.

Está tirando a chance da pessoa dentre todas as pessoas, mais importante para ele, o próprio suicida.

Chega a um ponto onde a vida e toda sua complexidade se tornar insignificantes.

Ou não.

Difícil é saber o que passa, eu tento ampliar a minha visão sobre esse assunto, mas, às vezes penso que a única forma de entender é somente no “fazer” da questão.

Só se eu tentasse de alguma forma tirar a minha própria vida para conseguir ampliar a limitação dos meus preconceitos e visões impostas sobre o assunto.

Fiquei pensando que as religiões tendem a demonstrar que é um ato de pura covardia, e eu sempre achei um ato de muita coragem, ousadia.

Pensa, por todos os problemas que você viver, você não desistiu de viver por uma razão puramente egoísta, porque você muito provavelmente quer mais.

Se não quer mais, está no mínimo em uma vivência prazerosa o suficiente para não abandonar todas a sua vaidade, seus vícios.

Não está vivenciando por uma questão de carmas, está para fazer o que considera certo para você. Sobrevive de final de semana em final de semana para aguentar a pressão de ser alguém na sociedade, na família, em cônjuge, etc.

Então, para mim, o suicídio se torna mais um ato de puro desapego do que de fato por apego aos problemas. O apego aos problemas dá-se pela nossa necessidade de solução.

Não nos apegamos a um problema que na teoria não vemos uma forma de resolvemos, apenas abandonamos a questão.

Portanto essa talvez seja uma das formas mais superficiais em minha opinião de definir um suicídio.

Um do viés que para mim pode chegar a esse ponto extremo de desapego é perder o prazer em absolutamente tudo que te mantêm vivo, estável, com vontade de perseverar.

Em outras palavras, perder o prazer em viver.

E quando se perde o prazer em viver, você não perde apenas a vontade de resolver algo, mas, não sente prazer em absolutamente nada, inclusive nas vitórias, nas conquistas, é como se tudo fosse absolutamente igual para você, não te atingisse, como se nada fosse mudar.

Apatia extrema.

Não quer dizer, que nisso afirmo que os apáticos são pseudo-suicidas, mas, para mim é um dos contrapontos para um suicida tomar o primeiro passo.

Eu não vejo apatia como exatamente um problema, por exemplo. Considero que às vezes a pessoa chega a um ponto do saber que ela simplesmente perde o tesão em coisas que anteriormente podiam dizer muito, e ela descobre que não significam absolutamente nada.

Eu falo isso porque eu mesma com o pouco que estudei simplesmente perdi a animação quanto a algumas coisas, vejo com certa insignificância, depois que você aprende que muita coisa é tão pré-moldada, feita para te iludir, para te enganar, você não se surpreende com o mais belo dos enfeites que se encaixam nessa ilusão. Nem o maior dos ilusionistas te impressiona quando se trata daquilo.

Isso é uma apatia, pode se converter em revolta, da extrema admiração para enojá-lo. Porém também pode se converter na mais pura indiferença.

A verdade pode não ser absoluta, mas ela se manifesta de uma forma devastadora na mente das pessoas.

A verdade destrói a fé, corrói grandes estruturas. Mas ela não faria tanto estrago sem a mentira, isso é uma teoria minha.

Porém, o que as pessoas consideram fé, por exemplo, para mim é uma grande mentira, é uma superestrutura complexa sustentada por um pequeno fio, que se visto, desmorona.

Pois exatamente toda essa estrutura do improvável é posta como verdade absoluta. E toda essa devastadora verdade absoluta não tem nada de realmente concreto.

Só que, não consigo sair dessa ideia da simbologia do imaginário. Isso limita muito a minha visão.

Eu penso que a cabeça das pessoas realmente age por símbolos e suas representações.

E a morte é um dos símbolos mais fortes que existem do imaginário humano, se não o mais.

Por isso é inevitável não tocar no assunto das religiões. Pois elas são responsáveis por todo esse imaginário da morte, do que acontece depois. E eu, duvido muito que isso não caía em mente do suicida, o que pode ser após o ato.

Em algumas religiões a morte é uma verdadeira libertação. Em algumas não, em todas praticamente, é passada essa ideia de que o espírito está preso à carne e a todas as experiências materiais por conta do corpo. E que a morte, é a libertação do espírito e de tudo que te prende a Terra, a carne.

Se não é um espírito, é algo parecido, tipo, o termo “alma”. A verdadeira essência da pessoa.

Só que, quase sempre toda essa libertação está associada com as atitudes em vida.

Isso que complica. Fico imaginando o nó de pensamentos que essas pessoas têm.

Engraçado que esse tema parece ser proibido para a maioria das pessoas por uma questão de que tem também aquele folclore de “atrair” o pensamento forte e a vontade.

Eu penso que quem se suicida, acaba fazendo isso planejando a um longo tempo ou não.

Não costumo dar muita trela para ditados populares, já vi suicidas que falaram por anos que iam se matar (e todos diziam que não ia dar em nada pela “falação”) e acabou que se mataram mesmo.

Não tem exatamente uma ordem, ou uma regra para esse tipo de situação.

Mas para mim, o suicídio não é apenas o desapego com as questões materiais, mas o desapego com questões mais complexas ainda, nossos valores.

Como citei acima, todas as religiões em geral condenam o ato do suicídio, para a pessoa o tornar real é também um desapego extremo a esse valor, talvez mais a esse do que de fato com os materiais.

Engraçado, que os suicidas peculiarmente, não são preocupados com seus bens materiais, mas sim em geral, em deixar uma mensagem as pessoas queridas. As pessoas, elas morrem apodrecem, mas, são eternizadas pelas suas atitudes. E todo tempo parece não pagar a espera por um esclarecer sobre aquilo.

Em geral muitos se preocupam nesse esclarecer a seus queridos.

Pelas atitudes deles, porque se formos pela lógica da religião, esse esclarecimento podia ser mais tardio já que de qualquer forma “tendem” a se encontrar.

Mas, a urgência em dar uma satisfação quebra essa ideia religiosa.

Em alguns casos, claro.

Se o suicídio é você provocar a sua própria morte, no fundo temos bem mais suicidas do que pensamos. Provocar a morte não é só se jogar da ponte, se enforcar, etc., mas também, provocar uma doença por um descuido e coisas do tipo.

Aí está a questão.

O suicídio “moral” e o suicídio pelas entrelinhas, esse ninguém condena, mas também se encaixa em muitos dos “sintomas” que apontei acima.

Cada um rege pela sua própria vida, eu penso que devíamos decidir por ela.

Então, de certa forma, respeitar o suicídio. Não trata-lo como falha, como fraqueza ou algo do tipo, mas como uma decisão mesmo.

Curiosamente, nos tempos atuais a taxa de suicídio tem aumentado e muito, eu podia dizer que é o capitalismo (e de fato, ele tem sua responsabilidade), mas também eu penso que é a questão do esclarecimento que está vindo à tona cada dia mais.

Ainda não consigo tirar uma conclusão sobre isso, mas, a única forma de tirar uma conclusão sobre isso é só cometendo mesmo um suicídio.

Que, para a tristeza de alguns (ahuahuahau) não está nos meus planos atuais nem futuros, na verdade só me coloco a pensar no ato por essa questão mesmo, da sensação.

Como entender, o que aconteceu pela ordem psicológica com alguém que não vive mais para tal pesquisa. Quando descobrirem o que acontece depois dessa linha entre a vida e a morte, além das minhas perguntas serem respondidas, as religiões também serão mortas.

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