o discurso conservador contra “Marx, Marxismo e Esquerda”

Pela última vez, são três coisas diferentes.

Existe uma coisa chamada alteridade.

Alteridade seria a negação do outro, perante o meu eu, ou seja, quando eu admito ter uma cultura (exemplo, cultura brasileira) estou automaticamente negando as demais.

Mas existe uma diferença entre você assumir um partido de forma consciente, e usar essa questão da alteridade para criar uma cultura ou ideia predominante forçadamente, manipulando, etc.

Citando Max Stirner, um dos autores mais interessantes que eu já li (dizem que ele inspirou Nietszche)

“O divino é a causa de Deus, o humano a causa do homem. A minha causa não é nem o divino nem o humano, não é o verdadeiro, o bom, o justo, o livre, etc., mas exclusivamente o que é meu. E esta não é uma causa universal, mas sim… única, tal como eu.

         Para mim, nada está acima de mim!”

Uma coisa sou eu, por exemplo, que assumi uma postura feminista, automaticamente ser contra o machismo. Outra coisa é alguém vir falar que é contra o feminismo e é contra o machismo. Não tem um meio termo nesse caso. Ou você é a favor de um, ou de outro.

Assim como na grande maioria das coisas na vida.

Não é uma questão de dividir as coisas entre o bom e o mau, mas sim se você assumir uma postura. Todos os meios têm o seu lado “não nobre”.

Vamos lá ver o argumento de sempre. E geralmente os mais impensados.

“Esse autor é marxista, portanto a proposta dele é de esquerda”

“A esquerda foi vencida, todas as suas tentativas foram mal sucedidas”
etc.

Primeiro, saiba o que é o marxismo antes de vomitar essa política vulgar em cima disso logo em seguida.

O marxismo nada mais é além de uma forma de ver sociedade, não quer dizer que aplicando o método marxista que necessariamente você será de esquerda.

Aliás, no meu post de cunho humorístico recebi críticas por aquele tópico “você será no máximo trocado por um livro do Karl Marx” por pseudo-intelectuais que se sentiram revoltadinhos. Na boa, quero mais é que se lasquem, porque eles tem aquele pré conceito sobre marxismo e veem a ideia como fanatismo, qualquer historiador que se preze deve muito a Karl Marx.


Sem a metodologia do Marx, não íamos ver história a partir das tensões criadas pelo mercado e seu modo de produção, que geram as tensões sociais, que geram as mudanças.

Eu simplifiquei e muito a metodologia marxista, mas de uma vez por todas, entendam que marxismo não é ser Karl Marx, é só usar o método que ele usou para entender o capitalismo, que ajuda a entender qualquer sistema socioeconômico.

Marx traz uma nova visão histórica dos fatos em sua leitura e tentativa de entender o capitalismo. É preciso entender as estruturas econômicas para entender a sociedade. O que chamamos de “materialismo histórico” é um conjunto de fatores:

  • Analisar a sociedade a partir do sistema econômico, da forma que essa economia funciona. “Determinismo econômico”.
  • Determinar se existe ou não classes sociais e a luta pela ascensão dessas classes, ou ascensão social.
  • Base e superestrutura – a dinâmica entre base econômica e superestrutura da população.
  • Interesse da classe e luta entre as classes.

Marx e marxismo são coisas distintas. Não é possível acreditar que usando do marxismo esteja completamente de acordo com as ideias de Marx, embora isso seja praticamente automático. Porém a questão é que Marx não criou uma metodologia por intenção e sim que sua forma de entender a humanidade foi uma ferramenta bastante engenhosa para os pensadores em geral.

Ou seja, se você julga alguém de “esquerda” por olhar as sociedades a partir das tensões sociais criadas pelo mercado então todos os historiadores são de esquerda.

Esse tipo de pensamento idiota povoa a cabeça de muito nó cego por aí. É o argumento mais idiota dos que eu costumo ler, e certamente vem de pessoas que nem sabem o que estão falando, devem ter lido outra pessoa supondo isso, e saíram reproduzindo a burrice dos outros.

Além do mais Marx propõe o socialismo como teoria do que aconteceria após o colapso do capitalismo, ou seja, após o país passar pelos processos capitalistas, por isso nas teorias dele os países que estão vivendo o sistema capitalista ao extremo em sua época que seriam os primeiros a serem socialistas.

O que aconteceu de fato é que alguns países simplesmente saíram de estruturas medievais para o socialismo (como no caso da União Soviética), é completamente diferente do que propõe Marx e óbvio que saí dos eixos.

Pior que isso só quando o sujeito associa o marxismo à revolução cubana (????).

Vou repetir só para garantir, desde quando usar uma metodologia para entender os paradigmas sociais de uma sociedade independente da postura política de quem o aplica é ser socialista?

E digo mais, essa alergia a Marx vem dessa ideia de que o capitalismo sempre existiu e sempre vai existir, ou que o “capitalismo venceu”, já que as outras formas de políticas ruíram. Esse é o típico pensamento daquele idiota que começou a estudar política à partir do capitalismo, estuda “atualidades” e acha que entende de política.

De todos os sistemas socioeconômicos, o capitalismo foi o menos eficiente e o que entrou em colapso mais rápido.

Eu realmente não condeno quem está se agarrando cada vez mais a ideias conservadoras, pois ao longo da história é bem visível que quanto mais uma ideia caí em contradição e começa a sentir o colapso interno, mais as pessoas que se beneficiam dessa corrupção do sistema tomam atitudes desesperadas para isso não acontecer (quando já está perdida a causa), um bom exemplo que posso dar disso é a inquisição, enquanto a Igreja percebeu que perdia todo seu poder político, a solução foi simplesmente matar qualquer um que fosse contra suas ideologias, da forma mais louca e lunática possível. É isso que está acontecendo atualmente com os conservadores.

É claro que eles vão ser contra os gays, contra as feministas, está havendo um grito desesperado de mudança na ordem, na rotina, na vida privada, na política.

Não se deixem enganar por discursos neoliberalistas, o liberalismo é um capitalismo disfarçado de bom senso.

Que de bom não tem nada. A ideia de uma sociedade diferente nunca irá morrer porque o mundo não nasceu capitalista. O mundo nunca teve preço, como podemos determinar o preço de uma terra sendo que ela já existia antes dos homens, não foi criação do homem, nem engenho do próprio. O que é erguido em cima dessa terra, já é outros 500.

As ideologias correm anos, séculos, e pessoas diferentes. O próprio iluminismo que cortou a cabeça de toda corte francesa era na verdade, inglês. A ascensão da burguesia era um objetivo dos ingleses, porém os perfis de burguesia inglesa e francesa são bem distintos.

Não se compara a ideia de Marx ao que, por exemplo, Che Guevara fez, essa mania associativa é também um dos argumentos que mais condenam a estrutura de qualquer teoria furada, por ser muito idiota e infundado. Eu dei o exemplo das burguesias acima justamente por isso, é a mesma ideologia usada de formas diferentes.

E sempre vai ser, pois até lendo um livro a minha visão é diferente da sua, ouvindo uma música, as minhas lembranças que irão associar com a letra serão muito provavelmente diferentes do próprio compositor. Uma ideologia mesmo que seja com um objetivo parecido em outras mãos é outros meios, outro resultado.

Marx pode ter sido a grande fonte de inspiração para muitos revolucionários, mas ele não foi os próprios, portanto não é comparativo.

A necessidade de mudança nunca vai morrer enquanto o sistema for falho, e favorecer poucos. Principalmente um sistema que favorece pouco e promete para todos, que cria um universo para a elite e espalha as propagandas desse universo pelo mundo inteiro.

E quando dizem que estou vivendo em uma “utopia” eu penso que a utopia que é uma sociedade que acredita na perfeição passa longe dos pensamentos que eu abraço, em geral é o discurso da direita essa ideia de utopia, de que a alta sociedade dando esmolas para as pessoas faz uma sociedade justa e perfeita, uma sociedade de competição de igual para igual.

Em que universo essas pessoas vivem, que elas acham que dar um agasalho na campanha do inverno vai curar todas as necessidades dos moradores de rua, como se viver na rua fosse bom. Esse é apenas um dos primeiros posts que farei desestruturando argumentos que recebo repetidamente.

E já aviso, se vier associar marxismo com esquerda de novo, vou responder simplesmente com o link do post. Ou não sabe ler e interpretar, ou é retardado mesmo.

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2 pensamentos sobre “o discurso conservador contra “Marx, Marxismo e Esquerda”

  1. É bom sempre alertar pra essas confusões, porque a própria definição dos termos “direita” e “esquerda” já não tem nada ver com o marxismo: vem da posição dos deputados franceses na chamada Assembleia dos Estados Gerais: os deputados do primeiro (será que o clero tinha deputados???) e do segundo estados sentavam-se à direita do rei, e os do terceiro estado à esquerda do soberano; como sabemos, o terceiro estado dos tempos do Antigo Regime, mais notadamente a burguesia urbana, foi o vencedor da Revolução Francesa, e claro que os vencedores sempre constroem a própria memória histórica de maneira que os favoreça..

    Quanto ao marxismo, como estudante de História de uma instituição que apesar de seus inúmeros problemas estruturais pretende ser um centro de excelência no ensino e na pesquisa de humanas, como sobrinho do editor da versão brasileira da revista teórica da IV Internacional e como alguém que já leu – e entendeu só um pouquinho – Marx muito mais do que a média regular da maioria de seus defensores e detratores (Manifesto Comunista, Do socialismo utópico ao socialismo científico, A Ideologia Alemã, Miséria da Filosofia e Para a Crítica da Economia Política; tive uma professora que dizia que essas obras era o mínimo que uma pessoa deveria ler para dizer que conhecia marxismo – é sempre bom apresentar nossas credenciais para a discussão rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrs), tenho a dizer o seguinte:

    Por mais que Marx tenha acertado em associar o desenvolvimento histórico e social da humanidade com seu desenvolvimento econômico (habilmente classificado em modos de produção diversos), por mais justeza que ele tenha tido ao expor as contradições e a irracionalidade do capitalismo, eu acredito que o conhecimento sobre a vida, sobre o homem, enfim, sobre o universo, é sublime demais pra se deixar encerrar (ainda que seja como panacéia ou rapsódia) em um único livro, ou na cabeça de um único autor, ou num grupo restrito de livros e de autores… Quando começamos a estudar os diversos pensadores, temos a estúpida mania (não estou te acusando disso, tá?) de tomar um ou mais deles não só como referencial teórico, mas como guia prático para a sua vida… (sobre isso tem um texto interessante na web: http://www.brasildefato.com.br/node/8922)

    De resto, não dá pra chamar, a rigor, de revolucionário um cara que criou escaras na bunda de tanto tempo que ficou sentado na Biblioteca de Londres estudando pra escrever o que escrevia; que não se envergonhava em viver na aba de seu melhor amigo e nos seus desvarios intelectuais dissipou toda a fortuna de sua família e a da família da mulher dele, fazendo os seus passarem por terríveis apertos, que praticamente usava a empregada como concubina, e por aí vai… Talvez por causa de seu estilo um tanto agressivo de escrever, sobretudo quando criticava as teorias alheias (como você já deve saber, ele meteu muito o pau no Stirner, no Proudhon e nos anarquistas, nos embates que levaram à dissolução da I Internacional) ele tenha arranjado muitas confusões e muitas inimizades, a ponto de criar óbices para a sua vida e a vida de todos os seus.. Mas enfim, o que admiramos nos pensadores de nossa predileção não é a sua vida pregressa (avida de quase todos eles, para usar do Machado de Assis, não é nenhuma página de catecismo), mas sim o que saiu de suas penas e de seus cérebros…

    • Para ser sincera, estou me referindo as obras de marx quando digo sobre ele, quanto a o próprio, não costumo ser fã de moralismo, portanto não julgo. Respeito pela extrema intelectualidade, de resto, não me importo de fato.

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