Almirante, ou devia dizer maquinista?

_ Veja, agora que me dei conta que estou dentro do trem, tem que pagar? – nem sabia muito bem como e quando eu entrei lá, mas eu tava dentro de (literalmente para você que é mineiro) um trem.

_ Olha moça, não precisa pagar não, só vou precisar de uma mãozinha pra janta – respondeu o desconhecido que parecia conhecido maquinista.

_ Sem problemas, sabe… meu vô paterno era maquinista também, ele fazia o período noturno, mesmo depois de aposentado desaprendeu a dormir, não dormia a noite de jeito nenhum, só quando ficou doente, talvez por efeito dos remédios – aproveitei e olhei a janela e dei de cara com uma visão incrivelmente parecida com essa abaixo.

_ CARAMBA MOÇO! Como assim o trem está andando em cima da água? – de repente senti uma agonia misturada com medo muito intensa _ Vamos morrer!

_ Calma moça, calma, oh vou parar o trem – e o maquinista calmamente parou o trem no meio do nada, apesar desse “meio do nada” ser um OCEANO e isso me deixava bem assustada.

_ Veja – respondeu, abriu a porta e pude ver um caminho para um tablado de madeira e caminhamos até ele, a calmaria dele me deixou um pouco mais calma – meu vô construiu isso, como você falou do seu, falarei do meu. Ele construiu tudo isso, teve uma grande ideia.

_ Ideia? Isso daqui não é feito de madeira? VAMOS CAIR!

_ Olha, embaixo é feito de um material que é resistente à água, não precisa se apavorar, vamos aproveitar o tablado e pescar algo para janta. – respondeu o maquinista (ou marinheiro?) jogando uma rede enorme e quase que imediatamente pescando um peixe.

_ Deixa comigo, eu limpo ele – respondi (detalhe: nunca limpei nenhum peixe na vida) _ Já que você está me dando uma carona, só vou te pedir pra esperar eu fazer isso aqui, acho que com o trem balançando não vou me sentir bem.

Por esse momento pude notar que era um mar calmo, águas paradas. Como dizem, águas paradas é sinal de profundidade, novamente senti aquele pânico. De todos os medos, o de morrer asfixiada ou afogada é o que mais grita algo em mim, fixei o olhar no peixe e comecei a tirar as escamas dele.

Conforme tirei todas as escamas, eu o abri para tirar a espinha, curiosamente dei de cara com um pergaminho.

_ Olha, tem um negócio aqui. – de repente me vi sozinha, o maquinista simplesmente desapareceu, devia estar dentro do trem ocupado em algo, imaginei que fazendo algo que não seria agradável eu presenciar, ou no mínimo verificando alguma coisa, enfim, era o de menos perto da minha curiosidade.

Quando olhe o pergaminho, vi claramente o que estava escrito.

Estava escrito “não o deixe conduzir o trem na primeira reta”.

Fiquei imaginando que diabos era aquilo. Primeira reta? Existia outra? Até então eu só via vagamente alguns trilhos e únicos seguirem a direção para o meio do nada. Chamei o maquinista, ele voltou.

Mostrei o bilhete pra ele, ele ficou pensativo.

_ Não existe outra reta – respondeu o maquinista sério. Embora visivelmente confuso.

_ Seja lá quem for que escreveu isso, provavelmente foi em um último minuto de vida – nem parei pra pensar na esquisitice da questão, ainda mais que em sonhos é difícil notar o lado estranho da coisa toda, parece que quanto mais absurdo, mais normal é.

_ Estou preocupado, mas vamos seguir em frente, não me lembro de ter outro caminho, como pode ver estamos sufocados pela água, ou é seguir em frente ou é morrer afogado – disse o maquinista agora parecendo desconfortavelmente assustado.

E foi assim que iniciei meu dia, acordando após esse sonho.

Jung é um dos que afirma que sonhar com meios de transporte é um reflexo do rumo que a sua vida está tomando, principalmente, o rumo que a sua vida está tomando de uma forma que você não está conduzindo.

Não consegui parar de pensar nisso.

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