Reversal capitalista: no mundo capitalista, o produto é você!

Esteriótipos. As pessoas adoram isso né?

Por esses dias discuti com um guri no meio do pátio. Como alguém que tá vestindo um status social (professora) que é multiplicador, não foi muito bom. Mas confesso que fiquei irritada.

Eu tenho esses óculos enormes, eu sabia do “crime” que seria comprar eles, sabia que podia desagradar a uns e agradar a outros, mas eu tava mais preocupada em satisfazer a minha vontade do que a dos outros.

Ai circulando por ai com ele, é normal essa molecada mais nova me associar ao que tá na mídia (que infelizmente em geral é Restart para eles). Bom, circulando pelo pátio escutei um moleque gritar:

_ Oh professora Restart – gritou o infeliz. Demais pra minha paciência. Virei e soltei aquele sermão digno de P.E.E. (professora do estado estressada).

_ Você vai chamar a sua mãe de Restart, vai por rótulo naquela infeliz. Primeiro, não tenho intimidade alguma com você, desde quando você se sentiu no direito de arranjar apelidinhos para mim? Como eu disse, vai lá e fala pra sua querida mãe que tem muita intimidade com você. Se você gosta de rotular os outros, vou te rotular também, vou começar a partir de hoje te chamar de bicha tá?

Eu sei. Peguei pesado, mas isso foi ótimo para a pedagogia do medo da coisa. Pelo menos ninguém mais me chamou assim, não na minha frente. Eu só lamento ter envolvido a mãe do menino no meio, por fim pensei que foi desnecessário mesmo e muito grosseiro, porém eu não tinha um exemplo melhor de “quem te pôs no mundo que te suporte”. Porém, é como eu costumo dizer, toda violência gerada é da violência sofrida.

Ele me irritou, eu acabei sendo grosseira.

Coloquei-me a pensar, porque as pessoas são tão doidas por estereótipos? De repente o meu óculos definiu um nome a ser chamado. A minha personalidade em si não era nada. A carcaça embaixo daquilo era insignificante.

Por isso as pessoas estão tendo crises tão absurdas de identidade? Por esses dias também a minha mestra em História falou que tem paulistas (interior) que ensaiam para falar menos carregado em São Paulo (capital). Isso é ridículo, no mínimo absurdo, é uma crise de identidade disfarçada, querendo se passar pelo o que não é verdadeiramente, como se o CEP apenas contasse como números de localização e não como raízes culturais e comportamentais da pessoa.

Pior que eu já presenciei pessoas fazendo isso, é muito ridículo. Podem me achar tonta por não fazer questão, por acharem “feio”, e eu vejo eles como um bando de idiotas tentando ser o que não são.

Não estou afirmando que todo mundo que mora no interior deve sair se caracterizando por ai, porém o sotaque é algo inevitável, é quase natural depois de um certo tempo.

Mas o estereótipo criado em cima do “r” puxado é ruim, as pessoas encaram como “caipirice”. Coloco-me a pensar, se essas pessoas sabem o que de fato é a cultura caipira (que está muito longe desses sertanojos universitários atuais). E se realmente soubessem, se iam se sentir “incluídas” em uma cultura rica como a caipira por um simples puxar de “r”. Eu vejo como muito além.

Talvez o problema seja eu, mesmo. Talvez as pessoas necessitem de criar rótulos para se sentirem localizadas na sociedade, como se isso fosse as tornar superiores em algo.

Acredito que os lugares que selecionam o público são mais do que necessários, mas o preço a pagar é esse, se você frequenta um lugar que seja um ambiente musicalmente de rock você vira roqueiro. Você jamais em Terra vai ser alguém que gosta de rock, você tem que incorporal um estilo musical (que acaba tendo mais vida do que você mesmo).

Exclusivamente você está proibido de ser exclusivo.

Você não pode ser você, você tem que ter títulos, roqueiro, sertanejo, pagodeiro, etc. E tem idiotas que curtem isso. Eu detesto rótulos, te limita demais e te faz ficar se explicando por coisas que você não tem que se explicar.

Esse mundo que vivemos, que nascemos entre vários anúncios como “seja, veja, experimente, faça”, damos de cara com um monte de pessoas nos dizendo o que devemos fazer, mas nunca que podemos ser.

Nascemos em um mundo de ideias prontas, e você tem o livre arbítrio de apenas escolher entre ser alienado de um lado ou ser alienado do outro, e nunca incentiva a você criar a sua própria ideia. Que só é possível com estudo seja do que for.

E ai, cria-se esse mundo que vive em crise de identidade: o gordo que se vê magro, o magro que se vê gordo, a negra que se vê loira, a loira que se vê burra pelo estereótipo, o homem que se vê superior pela masculinidade, o homem que se vê mulher, etc.

Não que isso seja proibido, errado, pelo contrário, é quase que pré-fabricado. Todos presenciaram o que aconteceu com o Michael Jackson, uma crise de identidade das fortes mesmo com todos os talentos (que não eram poucos) e dinheiro que ele tinha.

Tudo que consideram virtude não é o suficiente.

E como diriam no filme Clube da Luta, distorcendo um pouco, você veste essa camisa enorme de estereótipos e se enche de status de coisas que você odeia (muitas vezes sua própria profissão), para agradar pessoas que você odeia mais ainda. Porque entre o ódio, da inveja e da admiração existe uma linha muito curta. Você precisa se localizar, isso é realmente o mais importante?

Ai, eu me perguntei de novo, não importa mesmo eu estudar tanto, o que vai importar vai ser aquele wayfarer na minha cara que parece que vai definir mais a minha personalidade do que qualquer estudo, ideologia, pensamento, conceito, etc. que eu vomitar em cima deles.

Mas se eu disser que todos são assim, estarei agindo como eles, criando estereótipos e pior, generalizando.

E generalizar é o estágio máximo da idiotice se for mal colocado.

É como dizem, o ser humano foi capaz de uma “proeza”, se tornou escravo da sua própria criação, porque “ser” humano hoje não é nada, “ser” rotulado, é tudo.

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