O anarco-individualismo

Há um tempo fiz um post sobre o falso coletivo. Como eu disse, é um problema atual da nossa sociedade, é fácil apontar o problema, difícil é achar uma solução.

Para mim, a ideologia do anarco-individualismo (isso mesmo, vem do anarquismo) é uma solução para esse problema. Talvez não seja a única, mas certamente é uma “das”.

Para entrarmos em um das vertentes do pensamento anarquista é necessário entender o anarquismo. Farei um pequeno esclarecimento rápido sobre o assunto, pois o próprio anarquismo em si como toda ideologia política tem várias vertentes diferentes que o tornam bem mais abrangente do que a maioria das pessoas acreditam que ele seja.

Anarquismo vem da palavra grega “anarchos”, que significa ausência de um governo, ausência de autoridade. Ou seja, seria a descentralização máxima do poder.

No anarquismo existem vertentes mais tolerantes e menos, algumas acreditam no uso da violência para a tomada do poder, outras não, algumas acreditam que não é necessário retirar de vez o Estado, outras sim.

Noam Chomsky é um dos que afirmou que o Estado é necessário, porém um modelo de Estado ao estilo do presidente Thomas Jefferson (ex-presidente dos EUA, de 1801 a 1809),  um modelo de Estado que interfere muito pouco na política e praticamente só está presente para manter uma ordem.

Já Henry David Thoreau afirmou que o Estado devia ser totalmente retirado, e apenas anarco-sindicalistas deveriam organizar algumas questões, ainda sim não substituir de fato o Estado. Para alguns anarquistas o Estado é como um Deus. Estabelece uma ordem para todos, de forma que a opinião de poucos prevalece sobre muitos, não dando espaço para o ser humano ter sua individualidade, sua originalidade. Padronizando todas as questões.

Oficialmente falando, é como se o Estado fosse o maior inimigo da nossa liberdade, pois temos que seguir de acordo com suas ordens. Para alguns anarquistas os trabalhadores por exemplo se tornaram escravos (ou servos) do Estado pois vivem de manter certos “tributos” a ele, e a propriedade não é originalmente de ninguém, pois mesmo que a propriedade seja nossa, pagamos água, pagamos luz, pagamos tudo para manter aquela propriedade. E se não pagamos, retiram ela de nós. Como posso chamar algo de “meu” se estou propensa a perder isso a qualquer momento?

Para alguns anarquistas existem meios pacíficos de libertação dos padrões da sociedade, exemplos:

Vegetarianismo, esperanto, naturalismo, espiritismo, ioga, tendências orientalistas, etc.

E outros meios de libertação, mas violentos, como:

Atentados e sacrifícios pessoais (sabemos que nenhum deles vem por livre e espontânea vontade né gente, ninguém se mata porque tá feliz ou porque acredita num paraíso em torno disso, muito pelo contrário, é de tanta violência sofrida).

Como afirmou Luis Mercier Vega, o anarquismo não é uma repetição, uma auto justificação, e sim uma pergunta, uma inquietação.

Agora que demos entendimento bem superficial ao anarquismo darei ênfase a vertente que na minha opinião é uma forma de lidar com esse falso coletivo que vivemos hoje. Ou exterminar ele.

Max Stirner era carinhosamente chamado de “o egoísta”, pois em suas afirmações ele acredita que o ser humano deve ser dotado de uma existência única, extremamente individualista para ter espaço para sua originalidade, para sua essência.

Nas suas teorias, não existem leis universais e sim a única regra seria para que o ser humano atendesse as suas necessidades, suas vontades, sua singularidade.

Porém isso não quer dizer necessariamente que a liberdade de um se sobrepõe a liberdade do outro (como acontece no no nosso bom e justo Estado burocrático), mas sim que essa liberdade fosse voltada para a singularidade. Por consequência essa ideia destrói totalmente a ideia de partidos políticos por exemplo, pois nenhum representante seria aceito, não tem como uma pessoa representar milhões. Não quando você vai no ponto máximo da ideia que cada ser humano é exclusivo.

E é mesmo. Não somos iguais, e essa mania de querer ser igual a todos que nos fez chegar onde estamos, não tem como padronizar o que não é padrão, ser dotado de inteligência nos torna dotados de muitas outras peculiaridade, e da exclusividade da nossa existência.

Por isso, com essa ideia dá para ter uma clareza maior sobre o falso coletivo, sobre essa ideologia que vivemos em que a vontade de uma elite prevalece sobre a massa, pois não há espaço para essa massa questionar, eles são praticamente tratados como meros “enlatados”, e todos pensamentos que chegam até eles de ordem política são no mínimo, persuasivos.

E quando eu digo elite não falo só da burguesia, mas de qualquer classe que se torne dominante sobre a maioria.

Para Proudhon, a liberdade individual do ser humano não o tornaria isolado, muito pelo contrário, ele perderia esse pavor de multidões e seria um processo natural para o desenvolvimento real de uma sociedade.

Uma das ideias centrais também é a auto gestão. Todos sabemos que temos que trabalhar, não é necessário alguém para nos forçar a isso e nem nos direcionar ao gasto desse dinheiro para isso.

O ser humano é naturalmente ambicioso, ou não teríamos feito pirâmides, cidades, nem nada do tipo, portanto não é necessário ameaçar retirar nada de nós para que exista ambição.

Não existe essa coisa de “perdendo que se dá valor”, você naturalmente já dá valor as coisas que considera importante, se não deu, foi porque no fundo realmente não considerava importante. Arrependimento é muito diferente de valor.

Logo, o trabalho mesmo que voluntário sempre irá existir, sabemos que somos dependentes da ação um do outro. Mas sabemos também que essa falta de liberdade que faz essa ação parecer mais sacrificada do que de fato é. Como expliquei em outro post, a burocracia faz você ser substuível, no meu caso, se um professor falta sempre terá outro para substitui-lo.

Isso resolve o problema da educação? Absolutamente não, pelo contrário, essa maneira não linear de lidar com a educação que torna o ensino confuso em geral para as pessoas, o máximo que podemos fazer é tentar dar uma continuidade ao conteúdo.

Muitas vezes os próprios professores não ajudam, não deixam o conteúdo que está sendo aplicado aos substitutos, de forma que você age feito uma “baba”, e os próprios alunos se frustram diante de tanto descaso do próprio Estado com a educação.

Não adianta a máquina burocratica não deixar as coisas pararem se essas coisas não funcionam, é como uma velha máquina em tempos modernos, não funciona mais para essa geração.

Quando você assume sua profissão como o verdadeiro gerador da riqueza dela é diferente, inclusive seu empenho se torna diferente.

Ninguém vai deixar de trabalhar no anarquismo, afinal, ainda sim é fonte de riqueza o trabalho. Essa ideia de virar bagunça e tudo parar é no mínimo infundada, pois se você pensar bem, quem seria louco o suficiente para largar seu emprego? Temos consciência mais que o suficiente que é necessário trabalhar para gerar riqueza.

A diferença não está em quanto ou onde você trabalharia mas como, e mais importante que isso, como você vai viver.

Sem alguém para dizer o que é certo e errado, apenas sindicatos para organizar as questões, e não representar ninguém (o que faz a pressão pública ser mais atuante), é como uma sociedade sem moralismo.

O moralismo mata. Afinal nada é mais ofensivo do que alguém fazer algo perto de você que você considera errado. Esse sentimento de certo e errado que faz as pessoas atacarem homossexuais, mulheres e afins.

E nada o moralismo mata mais do que nosso senso artístico.

Se não existe um moralismo padrão, não existe razão para você se sentir no direito de julgar.

O ser humano é inteligente o suficiente para saber os limites, que são tão necessários quanto a própria liberdade, como afirmei, a liberdade proposta pelo anarquismo não é essa corrupção que vivemos, em que a vontade do governo prevalece sobre a do povo (um bom exemplos disso são os salários berrantes do nosso maravilhoso senado).

O verdadeiro coletivo surge da vontade voluntária. A vontade voluntária surge do individualismo extremo, parece loucura mas não é. É como sentimentos, se você tem espaço para gostar, você gosta. Se você é pressioando para isso, as chances de você detestar são maiores, pois não vem de um sentimento voluntário, vem de uma obrigação, é como se você fosse meramente uma máquina sentimental.

É como ir a algum lugar e comprar algo, é uma vontade minha, mas que favoreceu quem vende. Nenhum ato é um ato isolado, por mais que seja individual. Essa é apenas uma apresentação do tema, mas eu espero que tenha aberto certas questões no seu pensamento, pois como usei de exemplo no post, o pensamento anarquista não está para auto justificar absolutamente nada e sim para abrir espaço para o “why not”?

p.s.: Como sei que esse post é um chamado para opiniões diversas já aviso, comentários com opiniões que concordem ou divergentes são muito bem vindos, os ofensivos serão apagados.

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3 pensamentos sobre “O anarco-individualismo

  1. Até que enfim encontrei uma pessoa que pensa desta forma, em um mundo cheio de papo furado coletivista….Adorei….E eu não sei se vc conhece a filósofa norte-americana AYN RAND, se não conhece, veja suas obras…

  2. Sou um anarquista dessa tendência e tenho um pensamento semelhante a esse seu. O que você acha do nosso estado petista? Acho uma berração porque se entromete demais e faz uma política do coitadinho. Quanto deveria desentralizar muitas questões que envolve as instituições publicas.

    • Gustavo, eu vejo grandes avanços no Estado petista, concordo com o anarquismo mas em termos, retirar o Estado assim aleatoriamente vai ser a ditadura do corporativismo e não do anarquismo…
      acredito que precisamos passar por alguns processos antes…

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