Escravidão e Cotas – nunca li, nem ouvi, só ouço falar.

Se tem um assunto que o brasileiro evita com excelência é a escravidão e as consequência sociais disso.
Tenho tentado entrar nesse assunto mais afundo com os alunos, e é um tema polêmico até entre os próprios professores, tive uma leve discussão com um professor sobre o assunto cotas no qual em plena confraternização de fim de ano entramos numa discussão bem “acalorada”.

Não condeno a visão dele, cada um enxerga consequência social como quer, mas eu tenho a seguinte visão: A sociedade brasileira ainda deve muito a todos aos afro-descentenes (não precisam ser necessariamente negros, e sim todas as gerações que foram prejudicadas após a escravidão, ou seja, praticamente toda a população, cerca de 80%).

Primeiro, é preciso desmistificar certas situações, e acima de tudo, não é colocando os escravos como simplesmente vítimas da situação que estudaremos escravidão e sim passando toda a história a limpo, sem ocultar fatos, sem proteger nem transformar em vítima, também sem vilões, entendendo o contexto geral.

Existia um padrão de burguesia/nobreza, esse padrão óbviamente era primeiramente ser branco, em segundo lugar obter propriedades, já estavam no auge da sociedade do “ter”, o que você tinha era o que valia sua fama, quantos escravos você tem? Quantas terras você tem?
Você era o que você tinha.

E de repente você é pego a força da sua terra, jogado em um navio para viver em condições subhumanas, ver pessoas sendo jogadas no mar pelo fato de estarem doentes (como animais quando estão doentes e são sacrificados para não contaminar o resto do “rebanho”) e afins já é uma violência tamanha, os negros da áfrica negra já sofriam essa violência antes mesmo de saberem a razão disso tudo.

Então não dá pra crer no que um ser humano como o Gilberto Freyre diz, que a escravidão no Brasil foi branda, que foi um favor para os africanos saírem da África e virem para o Brasil ter “oportunidade”, não encaro passar meses em um navio negreiro sofrendo maus tratos como favor, como oportunidade, encaro como crueldade.

Tudo bem que pros europeus viver em alto mar era péssimo mesmo, então imagina para esses futuros escravos? Já que eles eram encarados como animais a serem domesticados.

Não entrarei em detalhes mas procurem qualquer livro que fale sobre navio negreiro, e vão ver que ninguém prestou favor algum a esses africanos.
Os negros não foram tirados da África negra por acaso, os africanos tinham conhecimento de algo que era valioso para o mundo inteiro, a mineiração.

Os primeiros seres humanos que tiveram noção disso e aprenderam a extrair metais preciosos da terra foram os africanos da África Negra, então não foi tão por acaso quanto muita gente imagina, nem porque só “os índios não queriam trabalhar” e “o negro é mais resistente que o índio”, foi com segundas intenções.
O resto, é o que todo mundo sabe, os maus tratos, ou então a persuasão, ou o senhor era muito rigoroso ou era “camarada” o que fazia o escravo ser submisso a ele por conta de compensações.

Ter um escravo na sociedade do “ter” era sinônimo de riqueza, luxo. E como os negros foram simplesmente jogados na sociedade brasileira, eles precisaram se adequar aos padrões dessa sociedade, por isso era comum ver escravos libertos terem escravos também.

Não era por uma questão simplesmente de vingar o que haviam passado, como alguns autores dizem de forma um tanto preciptada, era uma questão de querer fazer parte daquela sociedade, como se não bastasse todos os maus tratos ainda eram excluídos da sociedade.

Nenhum grupo gosta de se sentir excluído da sociedade, é por essa razão que os gays lutam tanto pelos seus direitos por exemplo, se os gays não fossem excluídos da sociedade não era necessário ter uma balada gls por exemplo.

Então vemos que não é uma necessidade simplesmente de se adequar ao padrão, é de se sentir incluído naquela sociedade. Para os negros dessa época não era diferente, eles também sentiam necessidade de fazer parte daquela sociedade nem que fosse para se adequar nos padrões mais grotescos, como ter escravos e participar do tráfico negreiro, então diferente do que alguns pintam por ai, é uma questão não de vingança, rancor, não é tão simples assim, é uma questão de querer ter status, de não ser invisível mais.
E como as pessoas simplesmente ignoravam a cultura africana e queriam adequar os outros aos padrões europeus de etiqueta, a única forma desses ex-escravos se adequarem a sociedade foi aderindo a todos esses conceitos.

Então, concluímos que as pessoas simplesmente ignoram com sucesso o fato de que, essa burguesia desde essa época predomina os padrões de “bom cidadão” e de burguês padrão. Esse burguês padrão não mudou, a falta do estudo deu todo o apoio para esse modelo não ser mudado, o burguês branco e rico, que tem posse de muitas terras.

Mesmo que nossa sociedade já mudou de “Ter” para “Parecer”, ainda tem essa questão evidente.
Se o modelo de burguesia padrão não mudou, óbvio que o preconceito também não mudou.

Embora temos costumes herdados dos Africanos, religiões, cultura mesmo, em todos os patamares, isso não é admito tão facilmente, e entre a alta classe menos ainda.
O espiritismo mesmo, era apenas praticado pelas classes mais ricas, os pobres eram proibidos de participar dos centros espíritas e afins, tal motivo no qual acabou se originando a Umbanda, que é uma união de espiritismo com catolicismo para as classes mais pobres da época terem acesso ao espiritismo.

Portanto o preconceito não deixou de existir com a abolição pois a “abolição” desse padrão de bom burguês nunca existiu.
Não dá pra culpar os negros, eles tentaram se adequar ao padrão da sociedade da época, era o que restava para eles, serem aceitos na sociedade, e de certa forma deu certo em alguns patamares, como por exemplo hoje em dia não existe mais bebedouro para negro e bebedouro para branco, esse tipo de diferenciação berrante de preconceito puro.

Mas tem essas divergências, a alta sociedade mesmo não mudou muito quanto a isso, são as classes mais pobres que sentiram a mudança e deixaram o preconceito mais de lado (embora ainda tenham).

Se você pensar bem, quantos médicos negros já viu? E seus professores, provavelmente tem a grande maioria branca e algum ou outro negro ou afro-descendente.
A grande maioria da população esmagadora é afro-descendente, e eu pergunto de novo, quanto advogados afro-descendentes você já viu?

Dá pra perceber que todo afro-descendente de uma certa forma foi excluído da alta sociedade, mesmo com toda a mistura que tivemos.
É nisso que as cotas para afro-descendentes entram, o problema é que quando você admite que é necessário ter as cotas, você automaticamente admite o racismo.

As cotas são necessárias para formar gerações que estiveram excluídas desses padrões, dessa alta classe, para servirem de exemplo para as gerações posteriores, ou seja, não são eternas, são apenas para dar uma nova cara a uma geração.
Isso funcionou muito bem nos EUA.

O ser humano é muito visual, então você naturalmente não vai se meter a fazer um curso, uma graduação de algo que você no mínimo nunca viu alguém que lembre você, ou que você se identificou, se inspirou, enfim para fazer.
Imagina para uma criança não se identificar nunca com ninguém da alta sociedade? Para que eu vou tentar então?

É outro ponto que as cotas vão ajudar, nesse “servir de exemplo”, sendo que a grande maioria dos afro-descendentes do Brasil são de classes mais pobres, quando deveria ser o inverso, por serem maioria não é mesmo minha gente?

O Brasil é preconceituoso porque não estudamos de fato a escravidão direito, e eu não falo do que os escravos passaram, falo do período pós escravidão no qual eles tentam se adequar a sociedade, todas essas questões, por isso o modelo de burguês não mudou desde a nobreza.
E quem é afro-descendente nunca vai se sentir encaixado em um modelo desses, onde até a beleza pende pro lado europeu da coisa, é complicado de se pensar.

Embora em algo o Paulo Freire estava certo, nas revistas o padrão de beleza é uma coisa, no cotidiano é outra, a mistura das etnias óbviamente era o que chamava atenção, e ainda chama, ele cita muitas vezes a mulata como a favorita dos portugueses pela sua beleza encantadora.

Nesse quesito eu concordo, padrão de beleza não condiz muito com cotidiano, embora sabemos que ainda sim influencia muito na mentalidade das pessoas, é onde as pessoas viram praticamente monstros de tantas plásticas e afins e não se identificam com o próprio reflexo, isso é uma das piores consequências da nossa sociedade do “parecer”.
É por isso que sou a favor das cotas, precisamos de um país de todos literalmente e não continuar naquele modelo padrão burguês, porque querendo ou não, todo mundo quer ser burguês, é um fato. Todo mundo quer o que o capitalismo tem a oferecer, ninguém quer se sentir excluído das novidades, da tecnologia, da roupa de marca, etc…

A questão é, ou inventam dinheiro pra todas as pessoas do mundo, ou mudam a mentalidade das pessoas, pois essa questão está ficando cada vez mais desesperante, enlouquecedora.

Mas não podemos deixar de lembrar, a sociedade ainda deve muito para a própria sociedade, pois afro-descendentes somos praticamente todos nós, e isso nos prejudicou e muito graças ao preconceito que existiu e ainda existe na sociedade, e se isso não ser analisado a fundo e ignorado, tende a se repetir pelo resto da história do nosso país “cordial e hospitaleiro”.

Os americanos são preconceituosos? Os brasileiros são mais, pelo menos os americanos encaram a questão de frente, e o brasileiro faz preconceito disfarçado de piada.

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2 pensamentos sobre “Escravidão e Cotas – nunca li, nem ouvi, só ouço falar.

  1. Oi Marióssi!

    Não comentei devidamente seu post antes, a não ser por Facebook, por conta de pequenos imprevistos que exigiram minha atenção.

    Eu concordo em muitos aspectos com você, exceto que sou contra a existência de cotas. Elas são bastante válidas para inclusão de pessoas pardas ou negras – não direi afrodescendentes pois, como você colocou muito bem, todos nós somos, inclusive meu avó paterno era filho de mameluco. O motivo é justamente o racismo. Para mim, elas segregam mais do que incluem, pois, já dento da faculdade vai ter aquele idiota que apontará o dedo para o pardo/mulato/negro e dirá “entrou por cota, aquele lá”, além de apenas mascarar o problema da distribuição de renda e de educação, afinal, o cotista, subentende-se, é aquele que, por inacesso à boas escolas e ao bom estudo, precisa de pontos a mais na prova, ou vaga reservada, para entrar na faculdade. Tá, é verdade que muitas vezes o cara não tinha como estudar mais, frequentar uma boa escola, mas isto deve ser resolvido com atos efetivos do governo, não com cota, se fosse assim, o problema se estenderia aos pobres em geral, brancos ou não. Na forma como as cotas foram colocadas, a imagem do negro aparece como alguém que necessita de vaga reservada/pontos a mais, para entrar em um curso superior, embora no mercado de trabalho Q.I. (quem indique) vale pra todo mundo, mas isso é outro assunto.

    Sei que você compreende tudo o que coloquei e que até concorda com muitas coisas, e eu sempre comento um post com a intensão de receber uma resposta e quem sabe alguma coisa discordando. *curto uma briguinha de opiniões HHUAHAUHAUAHUAH!*.

    Enfim, é o que penso. E de novo parabéns, você está cada dia melhor!!! Beijão da amiga!

  2. Sou a favor de cotas também , mas acho que é uma maneira do governo “consertar” de um jeito ruim a educação precária e a desigualdade social.”AH, tá ruim aqui atrás? Coloca isso aqui na frente.”, Porém os problemas já estão aí, por isso eu concordo, mas temporariamente.

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