“Injustiças” por Graciliano Ramos – Pequena Citação

“Ora ali estava aquela viúva antipática, podre de rica, morando numa casa grande como um convento, só se ocupando em ouvir missa, comungar e rezar o terço, aumentando a fortuna com avareza para a filha de Nicolau Varejão. E eu, em mangas de camisa, a estragar-me no escritório dos Teixeira, eu, moço, que sabia metrificação, vantajosa prenda, colaborava na Semana de padre Atanásio e tinha um romance começado na gaveta. É verdade que o romance não andava, encrencado miseravelmente no segundo capítulo. Em todo o caso sempre era uma tentativa.

Quinhentos contos, seicentos contos, nem sei, dinheiro como o diabo nas mãos de uma velha inútil. E a afilhada, a Marta Varejão, beata e sonsa, é que ia apanhar o cobre. Mundo muito Mal-arranjado.”

– Página 10.

“Tão linda, branca e forte, com as mãos de longos dedos bons para beijos e olhos grandes e azuis…De Adrião Teixeira, um velhote calvo, amarelo, reumático, encharcado de tisanas. Outra injustiça da sorte. Para que servia o homem tão combalido, a perna trôpega, cifras e combinações de xadrez na cabeça? Eu, sim, estava a calhar para marido dela, que sou desempenado, gozo saúde e arranho literatura. Nova e bonita, casada com aquilo, que desgraça!”

– Página 11.

Caetés. O primeiro romance de Graciliano Ramos.

Embora a linguagem da literatura é sempre adocicada, tenho que admitir que gostei e me diverti com esses trechos, a sorte e a justiça são relativas mesmo.

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