A megera domada

Corre a missa. de repente, uma troca de olhares, um rápido desvio do rosto, o coração aflito, a respiração arfante, o desejo abrasa o corpo. Que fazer? Acompanhada dos pais, cercada de irmãos e criadas, nada podia fazer, exceto esperar. Esperar que o belo rapaz fosse bem-intencionado, que tomasse a iniciativa da corte e se comportasse de acordo com as regras da moral e dos bons costumes, sob indispensável consentimento paterno e aos olhos atentos de uma tia ou de uma criada de confiança (de seu pai, naturalmente).”


A arte da sedução: Sexualidade feminina na colônia (Brasil). – Emanuel Araújo

Minhas impressões sobre, até porque escrever me ajuda a ver se estou faltando com algo, se realmente compreendi o conteúdo.

Esse é o primeiro tópico, que na minha opinião é um dos mais divertidos, chamada A Megera Domada, o segundo que eu apresentarei também é Luxo e Desleixo mas deixarei para um próximo post.

Essa citação era o que a sociedade esperava de uma mulher de comportamento modelo.

Antes de qualquer coisa, era o esperado, ela precisava ser assim, afinal, quem daria o bom exemplo para sua própria família? Ela, a mulher, que já nasceu fruto do pecado e devendo horas extras de bons modos para as pessoas, afinal, quem mandou Eva comer o fruto proibido e condenar a humanidade a dor e ao trabalho?

É culpa da mulher! A mulher é um ser pecaminoso, ela veio para a Terra no intuito de nos desviar do caminho de Deus, nos corromper.

Existia uma mulher que  podia se salvar disso e de certa forma, acertar suas contas com a sociedade, o modelo cristão,  em quem suas filhas e filhos se espelhariam?

Em quem seus filhos (homens) olhariam como modelo para escolher a suas pretendentes? Precisavam ser tão boas e puritanas quanto a própria mãe, e virgens de preferência.

Era necessário vigiar essas mulheres para que elas em momento algum fossem soltas das amarras do que era permito, abafar a sua sexualidade ao extremo, mesmo que ela saísse pelos poros, precisavam de tios, tias, primos, pais, e a igreja ali, presente todos os dias na vigia desse comportamento, quem formaria famílias de cristãos? Essa mulher, por isso ela precisava ser cristã e exemplo, para seus filhos serem como tal.

Imagina, uma mulher tomar a iniciativa? É uma dada, uma vadia!

A mulher tem que esperar o universo conspirar a favor do pedido dela, ela queria aquele mocinho para ela, então senta e espera.

E em 90% dos casos é claro que dava errado, ninguém tava ligando muito pros desejos dela, o importante era se livrar de ser responsável por cuidar de cada passo daquela mulher, o primeiro pretendente bem intencionado com uma vida financeira estável, era o homem da vida dela, do qual ela nem se quer conhecia, mas tinha que amar para vida toda, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza  e na pobreza, e praticamente ela ia conhecer aquele homem durante o casamento, quando todos esses votos foram feitos, diante de Deus.

Afinal, lembrando, a igreja era o centro do universo, era o céus sobre a Terra, como você vai mentir ou se contradizer diante de algo tão divino?

Outra coisa, a mulher era inferior, o homem era a cabeça da mulher (ou seja, a razão, a mulher não tinha essa capacidade, eram apenas serem seres irracionais e apenas passionais, tendem a fazer besteira constantemente se não estiverem com um homem por perto, a seguir a sua emoção e fazer burrada).

Espero que esteja bem claro que a mulher precisa do homem, ou a vida dela será cheia de desgraças.

E a igreja deixava bem claro, que a mulher seja submissa, afinal não foi Adão que foi seduzido por Eva, foi Eva que foi seduzida por Adão comprovando novamente a natureza passional da mulher.

(Então porque tanto medo das mulheres se exporem e seduzirem os homens? Eis a contradição) 

Foi Adão que foi criado antes de Eva, como ele foi o pioneiro da raça humana, cabe aos homens comandarem a situação.

E a igreja se apoiava fervorosamente no mito de Éden como maior justificativa científica de que a mulher nasceu para a submissão.

Uma das citações maravilhosas que corriam o mundo era essa:

” Houve uma falha na formação da primeira mulher, por ter sido criada a partir de uma costela recurva, ou seja, da costela do peito, cuja a curvatura e, por assim dizer, contrária a retidão do homem. E como, em virtude dessa falha, a mulher é um animal imperfeito, sempre decepciona a mente.

E justamente por essa imperfeição a mulher tende a ser mais fácil de ser possuída por naturezas diabólicas. Porque claro, são um bando de bobinhas.

(Mas que eram queimadas vivas por conta de feitiçaria e práticas ardilosas, o que não tem muito haver com essa imagem de bobinha, eis a contradição – parte 2) 

Como seduzir os homens diante de tanto opressão, o objeto de desejo precisava de um toque do mundo espiritual, eram com as amarrações, feitiços, simpatias que isso acontecia.

E essa cristã convicta precisava dessa forcinha da natureza para conseguir as coisas, já que ela por si só não podia fazer nada, sua iniciativa era feita através do mundo espiritual, então a mulher podia controlar o homem que quisesse com essas simpatias e mais poderoso que isso, podia ter quem quisesse.

Há quem diga que funcionava, e sinceramente, eu não duvido de nada, só a força de acredita que isso vai acontecer já era o suficiente, e  jogar na mente da coitada que era mulher do homem (objeto de desejo da que fez a simpatia) que ela foi macumbada era o suficiente para que o casamento caísse em ruínas.

As mulheres sempre precisavam ter um plano B, e quase sempre tinham.

Um caso curioso foi de uma mulher, que foi pega traindo o marido, e para que ele não fizesse nada afirmou para ela que deu do sangue da menstruação dela para ele beber (eww) e que ele bebeu, assim, fazendo uma espécie de profecia, na qual após ele beber esse sangue ele seria eternamente controlado por ela e ele não ia fazer nada porque ela controlava ele, ele bebeu o sangue, era objeto dela agora.

Ele acreditou, e não dedurou ela para a inquisição.

Resultado, os homens também acreditavam muito nessas “feitiçarias”, o que dava mais força pra aquela macumbinha funcionar.

E pior, acreditava-se que as mulheres que seduziam eram frutos de feitiçarias, ou do próprio demônio, que tomava conta do corpo delas e saía seduzindo a todos, resultado, vamos salvar a pobre alma dessas coitadas? Vamos queima-las.

As feiticeiras lógico que eram perseguidas, mas desde que suas clientes estivessem satisfeitas com suas ações, era difícil alguém dedurar elas.

Eu falei o tempo todo nesse tom de ironia, mas infelizmente falando exatamente como pensavam.

E pior, ainda vigora até hoje esse pensamento de que a mulher que toma iniciativa sem intervenção da família ou de um homem é uma dada, é uma vadia, uma puta, e por ai vai.

Isso parece ser um absurdo, mas está tão presente na nossa sociedade ainda hoje quanto as pessoas imaginam.

Essa idéia de que um homem só sai da linha  se uma mulher o corrompe, se uma mulher aparece.

Como se sempre fosse culpa das mulheres os casamentos e uniões infelizes no mundo.

E quase que exclusivamente culpa das mulheres né, vemos esse pensamento grotesco na cabeça das pessoas ainda, em que  muitas inocentam os homens e deixam a culpa exclusivamente para a mulher.

A partir do momento em que a mulher toma a iniciativa e faz da sua sexualidade uma espécie de liberdade, sem a opressão, ela remete a vênus, Afrodite.

Afrodite na visão da igreja, era uma espécie de Maria Madalena, ela era uma deusa sedutora, ela seduzia os outros deuses, tinha amantes, era uma baixaria na visão da igreja.

Eles esquecem por completo também que Afrodite era a deusa associada a razão, por isso até hoje dizem que Marte é guerra e Vênus é paz e harmonia, tanto que as sociedades mais desenvolvidas intelectualmente da era da história Antiga, da Grécia Antiga, eram chamadas de sociedades venusianas.

A razão disso era que era uma sociedade voltada demais para as questões filosóficas e intelectuais do que para a guerra, e isso era visto como uma sociedade “feminina”.

Então a deusa que representa também a fertilidade, e as mulheres era a mesma que representava o intelecto da sua forma mais completa.

Como mulheres podem ser seres irracionais?

Lembrando o que eu falei no post anterior, os deuses da Grécia antiga eram uma representação do que o próprio ser humano é.

Então os gregos embora fossem machistas, e o Deus dos deuses era Zeus, era Atena que era idolatrada, era Atena que fazia eles vencerem guerras, a força feminina da razão que fazia as coisas acontecerem.

Há também quem diga que essa interpretação da bíblia sobre a mulher vir da costela do homem foi errada, foi mal traduzida, e sim que a mulher nasceu para estar ao lado do homem seria a tradução correta, não para casar com o homem mas para ficar em pé de igualdade, para ter os mesmos direitos.

Tamanha é a forma que masculinizam a sociedade que quando duas mulheres eram pegas em ato homossexual, as pessoas ignoravam porque acreditavam que a mulher só sentia prazer com o pênis, jamais com outra, por isso ninguém se importava que duas mulheres passassem horas trancadas em um quarto, fazendo vai-saber-o-que.

E a igreja de fato conseguiu o que queria, até hoje temos vestígios na sociedade, foi a partir dessa ideologia que a teoria de Freud de que a mulher inveja o pênis surgiu, e de fato, ser mulher é ser condenada a castidade ou a denegrir a sua imagem, tudo puta.

Esse quadro não foi pintado com esse vênus mostrando os seios com a bandeira da França em plena revolução francesa por acaso.

Vênus/Afrodite se tornou um símbolo de inspiração para os franceses na revolução francesa justamente pela ideologia do Ilumismo que tinha a intenção de uma sociedade mais racional e com menos intervenção da igreja.

Foi um afronto  né? (HAUHUAH) Genial, afinal era a deusa dos deuses pagãos mais condenada pela igreja, foi ideal a idéia de por ela a frente dos revolucionários.

É por isso também que algumas feministas em movimentos femininos e passeatas mostram os seios, não é pra simplesmente vulgarizar a questão, tem toda essa ideologia de “eu não tenho vergonha do que eu sou“, pois essa questão de se esconder tanto praticamente remeteu a vergonha de ser do sexo feminino.

A conclusão disso tudo é, não veio do nada esse machismo na sociedade, e não veio exclusivamente dos homens também mas das mulheres que por séculos foram condicionadas a pensarem dessa forma, nessa forma de submissão, por isso até hoje a mulher é mais influencíavel de fato.

Se um cara sai com uma menina  que gosta de bebidas alcoólicas mas ele não, ele não vai beber por isso.

Se uma menina que gosta de bebidas alcoólicas saí com um cara que não bebe toda vez que sai, ela acaba não bebendo quando ele não bebe também.

Isso é um exemplo, e é o comportamento esperado pelas pessoas, que a menina só faça o que o cara faria também, assim demonstrando que essa tentativa da igreja de domesticar o sexo feminino funcionou.

Não estou dizendo que a mulher deve agir como o homem, eu vejo como ridículo a menina que quer ficar literalmente em pé de igualdade com o homem, pegando até as piores manias e o lado grotesco dos homens.

Mas sim, que ela deve agir de acordo com o que acredita que seja bom para ela, sem amarras, que ela deve fazer o que gostaria, sem se condenar, e que deve ter seus direitos por igual para escolher fazer o certo ou o errado.

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3 pensamentos sobre “A megera domada

  1. Aí Mariii! A gente tarda mas never falha. 😉
    Já inicío o comentário perguntando se você consegue puxar na história ( que nem de longe foi minha matéria favorita) motivos que determinassem que as mulheres deveriam sempre ser submissas às vontades masculinas.
    Por que as mulheres sempre foram lapidadas? Cercadas? Domadas e repreendidas?
    Por que é tão recente a situação onde a mulher toma decisões, expões pensamentos e age sem o respaldo (coleira) masculino?

    Por toda a minha vida eu tenho sido feminista. Defendia com unhas, dentes e muita acidez a liberdade e os direitos que temos. Mas recentemente ouvi uma opinião que me fez pensar. Vamos voltar à Idade Média, onde a lei que regia a sociedade era a lei da força bruta. Não podemos negar que somos geneticamente menos fortes do que boa parte dos homens (eu só nego para deles, e até a morte). Como sobreviver em um mundo onde prevalecia a força?
    Penso vir daí, a ideia de que as mulheres precisavam de homens. Não para tomar decisões e mandar nelas. Mas para proteção. Física mesmo. Obvio que os homens abusariam de sua vantagem de força para submeter os mais fracos (não só mulheres) aos seus caprichos e idiotices. A humanidade ainda é estupida.
    Como obter condições de igualdade numa sociedade onde tudo dependia da força, tanto nos trabalhos (em sua maioria braçais) quando na resolução de rixas (porque as pessoas não sabiam conversar e fazer acordo)?
    Mesmo evoluindo, as sociedades mantiveram suas leis de força e toda a dominância masculina. Mas por que o controle sobre as mulheres? Aqui eu deixo você divagar mais uma vez. Fale.
    O mundo nunca ouviu as mulheres quando valorizava só a força. Portanto, nunca foram criadas ou defendidas leis e direitos onde a mulher pudesse sair à rua sem ser estuprada ou sem levar uma pancada de um brutamontes.
    Sim, é revoltante. Mas eu consigo ver esse estilo de vida como uma forma de proteção. Odeio, acho ridículo e pouco inteligente. Mas serviu para a época.
    Hoje, que as pessoas ficaram mais espertinhas, educadinhas, é possível abrir espaço para esses seres que sempre tiveram como maior arma, a inteligência. E isso não é feminismo da minha parte. Tivemos que rebolar por séculos para sobreviver aos próprios familiares, para poder fazer 10% de tudo o que desejávamos.
    Hoje, a sociedade que tem espaço para conversação, ideias, com moral mais elevada permitiu o grande boom que foi a reintegração da mulher.
    O problema disso tudo é sempre o equilíbrio.

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