Escola (sem) da família

Vou fazer meu post sobre meu trabalho voluntário, bolsista, seja lá como for.

É engraçado que eu posso dizer com toda certeza que a grande maioria esmagadora entra nessa por livre e espontânea pressão.

Uma das jogadas é o famoso modo capitalista de lidar com seres humanos como se fossem números, não quer fazer? Tudo bem, tem um monte que faria no seu lugar. Ai você se submete a tudo.

Mas não estou nesse post a fim apenas de críticas negativas, é claro que no meu ver, certas coisas deviam ser ajustadas, acho que a carga horária devia variar de acordo com o valor da faculdade, mas isso é papo pra outra coisa, mas que de fato não é fácil mandar pro vinagre seu sábado e seu domingo, não é.

Na escola, você vai lidar com as pessoas daquela comunidade, e isso quer dizer lidar com todo tipo de situação.

E quando eu digo lida com tudo, é tudo mesmo, é menino que entra na escola triloco, exalando maconha nos poros, é criança que entra com a roupa toda remendada, sem camisa em um dia que você ta usando pelo menos três blusas por conta do frio, é criança que passa o dia lá sem comer absolutamente nada e o responsável não tá nem ai, é pai que vai pegar o filho completamente doido de droga na escola, enfim, dei esses exemplos porque a parte boa a gente sempre espera, claro que tem os bons, mas o ruim é que causa o verdadeiro choque.

Criança que se submete a ajudar na arrumação/faxina das coisas por um pacote de bolacha/biscoito/whatever.

Tem as coisas engraçadas claro, as crianças se apegam demais a você, como aconteceu comigo, assim como eu fico na parte feminina de estética eu participo também da mais masculina, como futebol de mesa, prego, enfim, hoje vivenciei uma coisa realmente engraçada, entraram dois voluntários novos na escola em que eu estou.

Óbvio que eles querem se entrosar, e como hoje praticamente só foi eu e mais duas voluntárias das “veteranas”, e as outras duas estavam ocupadíssimas enquanto eu interagia com a molecada, eles interagiram mais comigo.

De repente os meninos mais comportados do meu final de semana começaram a INFERNIZAR a minha vida, incluindo pegar coisas da minha bolsa, que é algo que eu realmente, REALMENTE odeio (que mexam nas minhas coisas), a derrubar os jogos que eu partipava, a gota d’água pra mim foi quando um deles me deu um tapa nas costas (pois é).

Foi a hora que eu estourei, virei pra eles e dei aquele “mandato” de expulsão da escola, eles começaram a implorar pra ficar, e eu implorando pra eles irem e realmente estranhando toda a situação, nisso um dos voluntários novos veio me ajudar e começo a dar bronca também e eu percebi que os meninos (de uns 10 anos de faixa etária) ficaram mais raivosos ainda.

Soltei ironicamente “Que isso gente, tudo isso é ciúmes de mim?”

*silêncio*

Os meninos se calaram e foram para uma outra mesa, uns 10 minutos depois recebi uma cartinha de cada um (HUAHUAHUAHUAHUAH) pedindo desculpas pelo mal comportamento e sim, eles estavam enciumados porque eu tava dando atenção demais pro cara que nem “tinha moral” na escola (nessas palavras).

AHUAHUHAUHAUAUHAUAHUAHUAH

Então você percebe que ser voluntário, na visão de mundo daquelas crianças, é ser muito além disso, eles criam um laço afetivo mesmo com você, a ponto de ficarem com ciúmes de atenção, medo de que a atenção que eu costumava dar para eles fosse dividida porque um cara novo apareceu.

É quando você se dá conta do trabalho comunitário.

No município que eu vou (Dobrada), realmente não existe nenhuma opção de lazer para os jovens ali, tá que ir para a escola os 7 dias da semana é assustador até pra mim, que me tornei professora, mas é realmente um espaço aberto para um lazer, e realmente você tem que entrar nisso pensando em causar algum impacto, ou você simplesmente vai odiar mais ainda o fato de gastar seu final de semana lá.

Meu projeto é o desenho, eu desenvolvo não as habilidades técnicas dos alunos, mas a criatividade, é onde eu quero realmente desenrolar a coisa toda, a princípio, eu coloco uma folha e começo a desenhar e todos os alunos sentam em volta e começam a me copiar, essa foi a forma que achei de ‘chamar’ eles para o projeto.

Hoje eu só distribuo as folhas e vejo o que eles fazem sozinhos, vejo que eles desenham muitas coisas, coisas que desejam, como os meninos sempre desenham carros turbinados com sons maiores que o próprio carro (HUAHUAHUA e é verdade), as meninas desenham uma casa, uma princesa, flores, coisas que fazem elas se sentirem bem ou como gostariam de ser, mas eu já vi também coisas assustadoras.

Como um menino que desenho um cara assassinando uma mulher e sendo preso, e após a prisão, é morto na cadeia.

Não procurei me aprofundar porque acho uma invasão de privacidade, mas certamente aquilo não foi criação, independente de ser cotidiano ou mídia, deu pra perceber que algo do tipo causou impacto nele.

Uma vez um menino também desenhou um carinha chapando com um cigarro de maconha com uma arma e uma “bandeira” do PCC atrás, todo orgulhoso do desenho dele.

Aliás, alguns já me falaram que se algo de errado acontecer comigo é só avisar que eles tem os “contatos” deles.

Quando você entra nesse projeto, você acha que vai estar só com crianças carentes, não imagina a bagagem emocional e as histórias que vai conhecer durante esse período.

Eu certamente posso fazer apologia ao meu meio céu em aquário? Eu realmente por mais que seja voltada para a ciência das humanas, não acredito em coincidências, aliás quanto mais estudo, menos acredito.

http://mapadozodiaco.blogspot.com/2010/04/meio-do-ceu-nos-signos.html

Meu meio céu em aquário acho que age dessa forma “voluntária” de ser, mesmo que  seja de forma levemente forçada ahuahuahuahah.

Nunca vou esquecer desse trabalho, e também do sacrifício que ele me rendeu e das coisas boas também.

Só pra deixar registrado, eu gosto do trabalho voluntário, só não gosto de usar os dois dias do final de semana para isso, acredito que um só seria o suficiente.

Concluindo, estamos indo por linhas tortas, mas o Brasil que a gente sonha, com a economia voltada pra o povo realmente está florescendo, mesmo que para o lazer desse povo existe uma leve exploração, mas teremos uma geração toda beneficiada pelo programa em vários quesitos, uns que estão se formando a nível acadêmico e outros que estão tendo uma noção de lazer pela primeira vez na vida.

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