O Homem Cordial – minha resenha “aberta”

O estado não é um exemplo de organização em prol das pessoas em geral e sim algo mais particular, onde está a grande contradição já que o estado em si é uma organização para um todo, a idéia de “familiarizar” a questão é tão viva quanto aparentemente pode-se notar.

Através da transgressão do ambiente familiar (no caso da família nuclear em si) para fora é que nasce o estado e de fato o cidadão, contribuinte, responsável, eleitor e afins diante das leis da cidade.

Onde o estado teoricamente deveria agir diante da vontade dos cidadãos e da pátria acima de tudo, acima das vontades pessoais e contrariando a família e suas particularidades.

 

  • Antígona:

Nas antigas corporações a proximidade entre as pessoas era maior pois o mestre, chefe, ou coordenador geral e seus aprendizem eram sujeitos a uma hierarquia natural, embora estavam nos mesmos ambientes e podiam se permitir terem os mesmos instrumentos, onde o convivío entre o a pirâmide da hierarquia da corporação permitia essa relação de proximidade, esse ar “familiar” entre os colegas da mesma corporação.

 

 

  • Creonte:

No capitalismo e no novo regime, o empregador moderno transforma-se em um simples número, em vários casos não há o contato com as demais áreas da corporação, a proximidade entre as camadas da hierarquia econômica da empresa são nulas e isso torna a possibilidade de exploração desse trabalhador maior, pois a relação humana, de irmandade ou “familiaridade” desaparece.

Essa separação das classes, torna a quem dirige as corporações mais irresponsável pelas vidas dos trabalhadores manuais, o que torna mais fácil a exploração de quem “não podemos ver”.

Explica-se então a razão dos acidentes de trabalhos, condições precárias e afins que acontecem, onde o dirigente sequer convive, em alguns casos até desconhece de fato o ambiente, os cuidados graduativamente vão diminuindo e a importância da mesma forma diminui.

 

 

Essa crise se opõe a velha ordem familiar, onde os laços são estabelecidos por afeto e sangue por uma nova ordem, já que esses laços não são tão poderosos a ponto de suprir as necessidades de uma indústria atualmente, as instituição formadas por princípios abstratos.
Saindo do extremo que era relação de sangue, hierarquia e afins para o estado atual onde teoricamente deve haver oportunidade a todos, competição de igual para igual, mas na prática isso foge muito a regra.

Segundo alguns pedagogos e psicólogos a educação familiar é feita com base na forma das pessoas se apresentarem ao mundo, ou seja, para o momento que acontecerá o desligamento dessa dependência familiar, quando o indivíduo adentra na sociedade, fora da família.

 

 

Através da pedagogia científica (atual, contrariando certas afirmações mais tradicionais), foi observado:

A obediência deve ser estimulada desde que estabeleça também espaço para o indivíduo criar uma opinião, não abusando de opressão mas também não dando total liberdade, guiando de forma que o indivíduo se encontre e se “descubra” diante da sociedade.
Em especial as crianças e jovens devem se preparar para desobecer os pais em momentos em que suas recomendações são falhas.
Jovens que tem pais opressores (que controlam todos os setores da vida do jovem ou criança) em geral se tornam adultos incompetentes, com possibilidade também de se tornarem psicopatas.
Não somente pais que sejam racionalmente fracos, desprovidos de grandes conceitos e visão de mundo, mas os pais em geral inteligentes são os que mais inclínam as crianças ou adolescentes a agirem sob seu domínio na vida do indivíduo.
Portanto uma mãe tanto extremamente boa como ruim causa a mesmo nível estragos na vida em geral dos seus filhos.

 

 

Lutar contra as restrições feitas pela sociedade são uma forma de evolução.

Os cursos jurídicos, fundados desde 1827 em São Paulo e Olinda contribuíram muito para a formação de homens livres diante da sociedade, libertando dos velhos laços caseiros.
Laços caseiros dos quais nos quatro primeiros anos da criança, as crenças, valores, sentimentos, atitudes das quais a pessoa é forçada a se ajustar-se de acordo com sua família.

As novas experiências abrem a possibilidade desse vínculo familiar ser apagado.

Joaquim Nabuco diz “em nossa política e em nossa sociedade (…) são os órfãos, os abandonados, que vencem a luta, sobem e governam.”

Por essa razão as crianças que tem o campo extremamente circunscrevido pelos familiares tornam-se extremamente inadaptados na sociedade atual.

 

No Brasil onde por muito tempo imperou o tipo primitivo de família patriarcal, o desenvolvimento da urbanização gerou não somente o desenvolvimento das cidades mas também, dos meios de comunicação, atraindo a população rural para a esfera de influência das cidades, tendo por consequência um desequilíbrio social cujos os efeitos permanecem vivos até hoje.
Problemas na definição para os brasileiros em diferenciar o que é público e privado:

Problemas em tirar seus interesses pessoais de órgãos públicos, onde o interesse deve ser voltado a uma maioria e não particular, “o funcionário patrimonial” do puro burocrata, definição do Max Weber.
O foco do estado se volta pelos direitos pessoais do funcionário e não em interesses objetivos.
Funções públicas são cedidas de acordo com a confiança pessoal e não somente pela capacidade pessoal.
Falta tudo a ordenação impessoal que caracteriza a vida do Estado burocrático.

Ao longo da história brasileira predomina um modelo de “vontades particulares” que cria um círculo fechado e pouco acessível para a ordenação impessoal. Esse círculo fechado foi sem dúvida desenvolvido com força na sociedade por conta da família.

E isso ocorre mesmo nas organizações onde as instituições democráticas são fundadas em pensamentos abstratos e princípios neutros, que na teoria resultaria em uma sociedade de normas antiparticularistas.

A sociedade brasileira contribuíu a sociedade dando ao mundo o “homem cordial”.

A ibaneza no trato, a hospitalidade, a generosidade, virtude tão gabadas por estrangeiros que nos visitam, um traço definido do brasileiro, embora seja errado dizer que são apenas “boas maneiras”, são expressões legítimas de um fundo emotivo extremamente rico e transbordante.

Nenhum povo está mais distante da noção ritualista da vida do que o povo brasileiro, que carece de polidez, como por exemplo a sociedade japonesa tem como ponto forte.

A polidez é de alguma forma o modo, a organização de defesa ante a sociedade.

No “homem cordial” a vida em sociedade é, nas entrelinhas, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, de apoiar-se somente sob sua personalidade e capacidades.

Como disse Nietzsche: “Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro”.

Na linguística por exemplo o emprego de palavras no diminutivo são comuns na linguagem do dia-a-dia do brasileiro, dessa forma torna a comunicação mais familiarizada, é uma forma de aproximar as pessoas sentimentalmente, aproxima-los do coração.

 

 

A omissão do nome da família no tratamento social indica uma abolição da família nos tratamentos sociais, embora persistem ainda na idéia de que o nome da família tem seu peso ideológico.
O peso do nome da família se acentuou no século XII na Europa cristã e medieval persiste em aparecer na sociedade atual onde o individualismo tende a ser a ordem para organizar melhor o estado, não pela questão do individualismo em si mas para não criar diferenças entre pessoas de famílias diferentes e independentes uma das outras.

Um negociante da Filadélfia manifestou seu espanto ao verificar que no Brasil e na Argentina para conquistar um freguês era necessário acima de todas as questões, ser amigo do freguês.

O catolocismo impregnado nas raízes do Brasil desde os tempos de colônia fez uma marca no país que na vista dos estrangeiros é desrespeitoso, tratar os santos com intimidade.
Os brasileiros tem santos pelas casas, tirando toda a tradição ritualística, onde existe um lugar próprio para esse tipo de culto, o brasileiro cria uma relação íntima com a imagem do santo que visto pelas almas verdadeiramente religiosas é uma ofensa.

 

Essa forma de criar um culto íntimo com as santidades tem antecedentes na península Ibérica e na Europa medieval justamente quando a religião palaciana estava em decadência.
Torna o que deveria ser mais espiritual, religioso, mais humano, mais carnal, a presença dos santos por perto, a intenção de ter uma espécie de “capela” dentro de cada casa, até Deus se torna um amigo, familiar, um sujeito próximo, e não uma santidade do mais alto nível a ponto das pessoas temerem por ele.

É essa característica religiosa que abre os caminhos para a razão do brasileiro ter pavor de distanciamento, quanto mais intimidade, independente de ser inconveniente em algumas questões, melhor, não há reflexão que essa intimidade pode vir a atrapalhar em uma questão de processos da sociedade, onde acaba por usa vez tornando o íntimo mais importante do que o público.

 

No Brasil se estabeleceu uma religiosidade sem o sentído íntimo das cerimônias e sim pela pompa exterior, se tornando mais carnal de fato do que espiritual.

O emprego dos diminutivos na nossa língua também é reflexo disso, pois através dessa mania de usar as palavras no diminutivo é passada uma impressão de ternura, de intimidade, de carinho, que muitas vezes é exagerada, tamanha a influência dessa necessidade de intimidade, a ponto de atingir a linguagem dos brasileiros, o que faz os portugueses tirarem sarro dessa peculiaridade da nossa língua.

A falta da seriedade no culto faz o fiel tirar o peso das responsabilidades sobre si mesmo, faz com que a formalidade da questão, o respeito, a disciplina, sejam deixadas totalmente de lado, para “ir diretamente ao que interessa”, e todo o verdadeiro aprendizado dos cultos acaba por sendo deixado de lado por uma superficial visão de religiosidade.

O que por consequência cai em nossa sociedade em todos os setores.

 

Normalmente a reação dos brasileiros no meio em que vivem não é de defesa, de resistência, em geral é de submeter a isso tudo com muita facilidade, até de uma forma deplorável pois acabam se deixando levar modelos de uma sociedade que não favorece um todo tomar conta das questões de ordem pública, o brasileiro não resiste, abandona suas idéias e seu repertório com facilidade, isso é bom para o “homem cordial” que é adaptável a qualquer situação e amistoso, e ruim para a sociedade em geral pois raramente é questionada uma forma mesmo que conscientemente errada de funcionar uma ordem pública.

 

 

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